sábado, 31 de dezembro de 2016

2016-2017

Neste ano, vi
homem matando homem,
guerras de um país contra outro,
guerras dentro de um mesmo país.

Vi
amores que não deram certo,
talentos que morreram,
políticas que mataram,
vidas que se penduraram em cordas,
caminhões que esmagaram celebrações.

Vi
a truculência do não argumento,
a indiferença de quem tem demais,
panelas que bateram no ritmo do preconceito,
mídias se aliançando com golpistas.
Vi a guerra do Brasil contra si mesmo.

No ano que vem, verei “mais do mesmo”.
Há coisas de sempre que seguirão edificando suas casas sem janelas.
Todavia, não sei o que será da mistura entre 
o velho imprescindível e o novo instigante.
Não sei do novo verso,
das releituras,
do novo encontro,
dos reencontros,
dos novos amigos,
dos amigos de sempre.

Ainda nem sei o que a velha esperança é capaz de fazer.
Haveremos de saber. 

"A redoma de vidro"

Sylvia Plath (1932-1963), autora estadunidense, é conhecida como poeta. Publicou um único romance, “A redoma de vidro” [The bell jar], lançado em 1963. Foi a leitura que terminei há pouco. No Brasil, é comercializado pela editora Biblioteca Azul. A tradução é Chico Mattoso.

A obra está na linhagem do que a crítica chamaria de autoficção, em que autobiografia e ficção se misturam, sem que saibamos com exatidão o ponto em que uma termina e a outra começa. “A redoma de vidro” conta a história de Esther Greenwood, brilhante jovem criada nos arredores de Boston. Esther tem a acesso a prestigiosa universidade, a partir da qual consegue bolsa para estagiar um mês numa revista feminina em Nova York.

O que era para ser algo promissor acaba se tornando o começo da derrocada de Esther. A obra, em sua primeira metade, diverte, em função da imaturidade e do humor seco de Esther, que é a narradora, uma narradora divertida e imatura. Num tom displicente, ela vai contando sobre o período que passa em Nova York.

Todavia, mal começada a segunda metade do livro, o caráter de leveza e de ingenuidade some de súbito. O que antes era não mais do que o relato de uma jovem talentosa com um mundo de oportunidades se descortinando se transforma num calvário que a leva a tratamentos de choque em clínicas psiquiátricas.

Do mesmo como narra, digamos, as impressões que teve sobre um vestido, ela conta sobre os procedimentos médicos pelos quais passou nas clínicas ou sobre os pensamentos suicidas que rondam a mente dela. Não importa o que ela conte, seu tom não muda. Nessa curiosa estratégia, de uma página para outra, deixamos de encarar a obra como retrato de um mundo juvenil; o enredo até então descompromissado cede lugar a uma narrativa que perscruta a mente de quem rui por causa de um colapso depressivo. 

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Haicai 49

A folha e seu invento:
quando se descola da árvore,
acomoda-se no vento. 

Marcela Temer na capa da Veja

Marcela Temer é capa da Veja. Na manchete, lê-se: “Marcela Temer, a aposta do governo”. Abaixo, tem-se: “Com uma agenda de aparições nacionais, a jovem e bela primeira-dama vira a grande cartada do Palácio do Planalto para tirar a popularidade do atoleiro”.

De cara, tem-se o óbvio: a própria revista assume o atoleiro. Só que a Veja veicula a “solução”: exibir uma mulher bonita resolveria a impopularidade de Temer. Ou seja: o presidente passaria a ser bem visto pela população por ter uma esposa bonita.

Sei que esse exercício de interpretação que faço é rasteiro, óbvio, mas palavras óbvias, dentre outras coisas, podem fazer com que nos demos conta de certas estratégias. A da Veja conta com a burrice e com a superficialidade dos leitores. ou com a má-fé deles.

Quando eu era pequeno, um ditado popular circulava: “Por trás de todo grande homem há uma grande mulher”. A sentença, a rigor, conclamava as mulheres a ficarem na coxia enquanto os maridos estivessem no palco.

Marcela Temer parece assumir o papel que a própria Veja lhe atribuiu: “Bela, recatada e do lar”. Só que Temer e Marcela são uma espécie de paródia do ditado, por terem se tornado a prova de que uma (grande) mulher pode estar por trás de um pequeno homem também.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

A história por trás da foto (99)

Tirei esta foto na segunda-feira (26/12), às 19h40. Eu estava prestes a sair com a câmera para a rua, a fim de fotografar as cores no céu no momento em que o Sol estava se pondo. Como havia a possibilidade de chuva, fechei a parte de metal da janela de meu quarto, deixando a parte de vidro aberta. Foi quando percebi a luz solar passando pelas frestas. Decidi registrar. 

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

“Como conversar com um fascista”

Terminei de ler “Como conversar com um fascista” (2016), da filósofa Marcia Tiburi, publicado pela Record. O livro é uma tentativa de entendimento político-filosófico do Brasil contemporâneo, cuja população tem se negado ao diálogo. Ele, diálogo, implica, é claro, a palavra. Negar-se à palavra é criar em si o vazio. Nesse vazio, instaura-se o ódio, que acha terreno fértil na ausência do discurso, do diálogo, da palavra.

A premissa de Tiburi é a de que só o diálogo levaria à compreensão profunda e profícua de si mesmo e do outro. Na ausência da palavra-ponte que nos ligaria a esse outro, parte da sociedade do Brasil contemporâneo tem se dedicado a reproduzir clichês midiáticos não raro preconceituosos. Em “Como conversar com um fascista”, a filósofa se detém sobre a atualidade brasileira, em que a busca de discursos coerentes tem cedido lugar a manifestações de ignorância.

Marcia Tiburi se debruça sobre o Brasil de agora, sobre o momento político de hoje, sobre as implicações das redes sociais, que podem tanto contribuir para o debate democrático quanto para o compartilhamento de preconceitos. Todavia, o mergulho no Brasil de hoje não impede a autora de perscrutar nosso passado, a fim de se buscar um entendimento maior do que é ser brasileiro.

Com essa abordagem, é inevitável que, em alguns dos breves ensaios do livro, Tiburi aborde a questão da chegada de Colombo à América e do genocídio dos índios brasileiros quando da chegada dos portugueses. O livro, embora tanto relate a quebra da alteridade, tem nessa mesma busca da alteridade a sua essência. 

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

A história por trás da(s) foto(s) (98)

Ambas as fotos desta postagem foram tiradas hoje, às 19h41. A de cima é a primeira; segundos depois, tirei a de baixo. O procedimento foi simples: fiquei em frente ao portão aqui de casa. Virando-me para a direita, tirei a foto do Sol se pondo atrás das nuvens; virando-me para a esquerda, tirei a foto de baixo. As duas são instantes quase simultâneos de dois “lugares” do céu. 

Em breve, mais um livro

domingo, 25 de dezembro de 2016

À tona

Quando houver silêncio, 
escutarás o que calas.
Em horas calmas, 
não raro escuras,
irrompe o não dito.
É quando confessas 
para ti mesma
o que de ti mesma
fingiras esconder. 

O último Natal de George Michael

George Michael tinha cinquenta e três anos. Inicialmente, fez sucesso como integrante de uma dupla chamada Wham!, que arrebentou em meados da década de 80; o grande sucesso deles foi a canção “Careless whisper”, que, certa vez, um crítico da Bizz (de cujo nome não me lembro), revista que era dedicada ao mundo do pop/rock, considerou uma das grandes baladas da música pop. George Michael morre no dia de Natal. Numa dessas ironias da vida, há uma canção do Wham! intitulada “Last Christmas”. 

Amor não havido

Amor não havido não deixa de ser uma história.
O que não se concretizou também se conta.
Amor não havido fica sonhando,
prossegue sem se conformar.
Numa ausência nítida e pesada,
insiste em não aceitar a ausência.
Fica na boca o gosto do que poderia ter sido,
o braço ergue a taça em brinde sem graça.
Em amor não havido, o devaneio especula: “E se?”,
o corpo fica sem outra pele para tocar.
Amor não havido rende não se rende a
a uma esperança sem forma e oca. 

Em Patos de Minas

Porte

Tua altura me eleva.
Teu passo de quem aprendeu
a se permitir me atiça.
Teu caminhar altivo
me inspira a compor
minha estrada.
Tendo feito as pazes
com o passado,
és um presente
gostoso e sensual. 

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Ah, essas crianças

Certa vez, o Pedro Bial, cobrindo um evento de rock pela Globo, disse, sobre “Sweet child o’ mine”, do Guns n’ Roses. “A canção de ninar dos roqueiros”. Não conheço os “bastidores” da letra, mas a definição do Bial é exata, mesmo a canção podendo não ser exatamente sobre uma criança (ou para uma criança), a despeito da ternura que expressa.

Lembro-me, por exemplo, de “Go gentle”, do Robbie Williams. É uma das canções mais ternas que conheço. Sempre tive comigo que na letra um eu lírico masculino se dirigia com delicadeza à mulher com quem mantém (ou quer manter) relação de amor. Um homem que quer cuidar da mulher que ama, que a aconselha a ter cuidado com as armadilhas do mundo.

Numa das versões ao vivo da canção, Robbie Williams disse que “Go gentle” é sobre a filha dele. O saber disso não anula a ternura da letra da canção. Só que eu não pensava nela como sendo sobre o amor paternal, mas, sim, sobre o amor (também carnal) sentido por um homem em relação a uma mulher. 

Em flor

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Novamente, Led Zeppelin

Escutar Led Zeppelin é imperioso para o corpo. A pegada deles liga o que temos de visceral, selvagem, libertário, rebelde. A banda é a antítese da caretice, do comedimento, da assepsia palatável. Led Zeppelin faz vibrar o corpo, levando-nos a vislumbres do que temos de básico — o que é nos conduzir à transcendência. 

domingo, 18 de dezembro de 2016

Cheiro

Da poesia quero, agora, o cheiro.
Aroma para que o poema me habite,
fragrância para que eu inale tua essência.
Vida cheirando a amor é mais gostosa.
Vida cheirando o amor é mais inteligente. 

Nome

Já tentei.
Não sei como nomear
tua ausência.
À tua presença, 
dou o nome de amor. 

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Convivência

Quando leio,
eu me leio.
Quando leio,
eu me livro. 

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Além do horizonte

Alguns se embaralham quando têm de virar à esquerda ou à direita, não raro trocando uma pela outra. Nunca foi meu caso. Só que no primário eu fazia confusão entre vertical e horizontal. Foi quando um colega de sala me passou um macete de que nunca me esqueci, ao mesmo tempo em que me concedeu um instante da mais genuína epifania: “Pra você não confundir, é só lembrar que ‘horizontal’ vem de ‘horizonte’”. 

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Diante

Diante do espanto do que és,
do que sou,
do que são.
Diante das formigas,
das galáxias.

Diante da política,
das canções,
do futebol,
do legado de Einstein.

Diante da leitura,
da ressaca,
da mulher bonita,
do tombo,
do ensaio,
da comida,
da entrevista,
da tolice,
da infância,
do divórcio,
de Hamlet,
do sono,
do cosmopolitismo,
da preguiça.

Diante de mim,
a ânsia que sou,
que é a de transformar
em palavras o que
está diante de mim.

O tamanho do Universo

Qualquer um que tenha um conhecimento pueril sobre o que é o Universo (meu caso) sabe que ele é maior do que o que nossa mente é capaz de abarcar. Há sempre uma nova revelação dando conta de que ele é muito, muito maior do que o anteriormente concebido.

A última notícia que li sobre a imensidão dele foi publicada no jornal The Independent. De acordo com a publicação, há tantas estrelas por aí, que era para não ficar escuro quando há aquilo a que chamamos noite. Segundo números atuais, há dois trilhões de galáxias (o número anterior dizia haver de cem a duzentos bilhões).

Se me dissessem haver, digamos, um milhão de estrelas por aí, eu já ficaria espantado. Uma galáxia contém estrelas; o novo número diz haver dois trilhões de galáxias. Com esse tantão de estrelas, de acordo com a matéria do Independent, era para ser claro mesmo depois de o Sol ter se posto; se não é, isso se deve a uma parede de hidrogênio entre nós e a luz das estrelas distantes.

Volto aos dois trilhões de galáxias: não bastasse esse número, que logo, logo será suplantado, o texto do Independent diz que há estrelas tão distantes de nós, que o Universo ainda não é velho o bastante para que a luz delas tenha chegado até aqui. Há uma maravilha nisso que não cabe em meu universo.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Fios

Teu fio levaria até nós.
Meu fio começaria em nós.
Teu fio é cosido com sonhos.
O meu seria tecido com linhas.
Teu fio é imaginado na distância.
O meu seria alinhavado na proximidade.
A beleza de um é poética.
A beleza do outro não houve. 

Apontamento 355

Que as pessoas podem ser sacanas ou perigosas, qualquer um sabe disso. Mas para se perceber a beleza que pode haver nas pessoas é preciso maturidade. 

Se

Se minha mão pudesse
pegar a tua...
Se meus lábios pudessem
beijar os teus...
Se meu tesão pudesse
entrar no teu...

Fosse assim,
minha vida
tocaria a tua.
Assim fosse, 
o amor ficaria tocado. 

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Apontamento 354

Não espero pela ocasião certa: quando ela chegar, posso estar morto.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Temer/Trump

A IstoÉ elegeu Temer o grande brasileiro do ano 2016 (sic). A Time elegeu Trump a pessoa do ano (sic). Do you get sick? 

Revelação

Foste deus o tempo todo,
mas não soubeste.
Agora que morreste,
não há como saberes.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Curva

Se não sabes 
o que a curva traz, 
pega leve. 

Nunca se sabe 
o que a curva traz. 

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Batalha

Publiquei o poema abaixo aqui no blogue em 2012. Na ocasião, fiz um “vídeo” com o texto.
_____

Contra a lesma, sal.
Contra a preguiça, teimosia.
Contra o gol, defesa.
Contra o hiato, ditongo.
Contra a castidade, chave.
Contra o segredo, fofoca.
Contra o peixe, pescador.
Contra o medo, palavra.
Contra o grito, beijo.
Contra o ódio, Cristo.
Contra a barriga, chope.
Contra o ninho, tucano.
Contra o cruzeiro, naufrágio.
Contra Deus, Saramago.
Contra o sapato, pé.
Contra o blefe, zápete.
Contra o vampiro, alho.
Contra o sexo, rotina.
Contra o vinho, pressa.
Contra a claque, silêncio.
Contra a barba, lâmina.
Contra a comida, destempero.
Contra o sorriso, cárie.
Contra a voz, gelado.
Contra o amanhã, suicídio.
Contra o zíper, tesão.
Contra a pipoca, piruá.
Contra o enigma, Einstein.
Contra a solidão, cachorro.
Contra a telha, goteira.
Contra o pássaro, gaiola.
Contra o sítio, hacker.

Contra a morte...
... nada... 

Em branco

Pondo-se

Silente

Fosse a teu lado,
eu olharia para ti
em teu silêncio,
eu te tocaria
em teu silêncio.

Longe dele,
o meu não é bom.
Mas, ainda que
à distância,
tuas palavras
avivam o
silêncio meu.

Ignorância rebaixada

Um dos problemas do ignorante é supor que o outro é tão ignorante quanto ele. Um dia desses, havia um carro prata em frente ao bar em que eu estava. Ocupando todo o vidro de trás do automóvel, um adesivo. Na parte esquerda dele, um desenho com o dedo médio da mão em riste.

Isso, por si, já seria agressivo, desnecessário. É como o caso que comentei em texto anterior, sobre pessoa num restaurante usando camiseta em que se lia “fuck you”. No caso do adesivo do carro, à direita dessa mão com o dedo em riste, os seguintes dizeres: “Não adianta encostar nem buzinar. Vou passar de lado”.

A princípio, não entendi o sentido da agressão. Foi quando alguém no bar me explicou que os dizeres no adesivo foram usados por se tratar de um carro rebaixado; quando esse tipo de veículo tem de passar sobre um quebra-molas, o motorista manobra para que o carro passe de esguelha, pois, se assim não for, o soalho, rente ao chão, vai raspar no quebra-molas.

De antemão, o sujeito agride, ainda que não tenha sido agredido. Ele exibe o dedo médio em riste e diz que a buzina do outro de nada vai adiantar — mesmo o próximo nada tendo feito. Antecipando uma agressão que não veio, o indivíduo agride. Além do mais, ainda que essa agressão já tenha vindo, isso não é justificativa convincente para se usar o adesivo.

Nada há nada de errado em dirigir veículos rebaixados; cada um faz de seu carro o que bem entender. O que é ofensiva é a manifestação da premissa de quem já vê na outra pessoa um agressor. O sujeito já partiu para o embate, na tentativa de afastar de si o próximo, que, na ótica de quem porta um adesivo desse teor, é o problema, sem se dar conta de que entrave e agressão já partiram é de quem se orgulha em exibir pelas ruas desenho e dizeres tão ignorantes.

A mulher que és
não pode deixar de praticar
a mulher que podes ser.
Assume teu corpo,
ousa teu pensamento,
exerce teus dons.

Veste a mulher que és,
tira tua feminilidade do cabide.
Joga fora certas coisas que te cobrem,
seja passado sem remédio
seja roupa meticulosa.

Não te escondas da vida,
não te escondas de ti.
Abusa de ti.
Há toda uma mulher a teu dispor.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Sintonia Fina — edição 35


Adam Levine — Purple rain
Léo Jaime — Charme do mundo
Noah and the Whale — Blue Skies
Marcos Sabino — Reluz
Eddie Vedder e Nusrat Fateh Ali Khan — The long road
Marisa Monte — Não vá embora
REM — Oh, my heart
Tavito e Paulinho Moska — Rua Ramalhete

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Diante das câmeras

Voltou a circular um vídeo com a história de bastidores da famosa “cena da manteiga”, do filme “O último tango em Paris”, dirigido por Bernardo Bertolucci e estrelado por Marlon Brando e por Maria Schneider. Ela morreu em 2011.

Schneider já havia dito que não queria fazer a cena. Disso, eu sabia. Do que eu não sabia é que Bertolucci e Brando haviam combinado de não contar para ela o que ocorreria na filmagem. Outra coisa que eu não sabia é que de fato Brando fez sexo anal em Schneider. Pode ser que eu já tivesse lido isso por aí; se li, não entendi que tivesse havido sexo, digamos, real.

Em sua abjeção, Bertolucci alega que queria a reação da atriz como garota, não como atriz. A abjeção, que também foi de Brando, está, é claro, não no ato em si, mas no fato de a cena ter sido feita sem que Schneider soubesse de antemão o que ocorreria; tudo se deu sem o consentimento dela. Bertolucci diz que não se arrepende de ter feito a sequência, mas que se sente culpado. O diretor diz que a intenção dele foi fazer com que Schneider sentisse o que estava acontecendo, e não que ela atuasse.

O diretor afirma que não se arrepende do ocorrido, mas que se sente culpado. Nesse contexto, não consigo desassociar sentir-se culpado de ter arrependimento. Nesse caso, não se arrepender, do como encaro a situação, implica não se sentir culpado. Mas posso estar com o senso turvado ao analisar o discurso do diretor.

Do que não tenho dúvida, é de que ainda que Schneider fosse o tipo de atriz que oferecesse favores sexuais, seja nos bastidores, seja enquanto estivesse encenando diante das câmeras (não estou dizendo que esse fosse o comportamento dela), isso não daria nem a Bertolucci nem a Brando a permissão de terem armado um “complô” em nome de algum realismo torpe.

O episódio levanta ainda outra questão: até que ponto ir em nome da arte? Teriam Bertolucci e Brando o direito de, em nome de alguma suposta conquista no cinema, agir do modo como agiram com Schneider? Não, não teriam. Podem não ter mentido para ela, mas omitiram o que seria feito. A omissão pode ser tão perniciosa quanto a mentira.

Nem foi sadismo o que ocorreu durante as filmagens de “O último tango em Paris”. Sadismo, em essência, implica concordância e respeito quanto aos limites do outro. Schneider não teve essa escolha. O que houve foi voyeurismo e estupro. O trecho em que o diretor fala da sequência pode ser conferido neste link

Um avião que cai ou mais uma das ironias da vida

A Alanis Morissette, em “Ironic”, uma das mais fabulosas letras da música pop (composição dela e de Glen Ballard) canta: “O Sr. Precavido tinha medo de avião / Ele fez as malas e deu um beijo de despedida nos filhos / Ele esperou a vida toda para pegar aquele voo / E enquanto o avião caía, ele pensou: / ‘Ora, mas que ótimo / Que irônico, você não acha?’”.

O avião em que a Chapecoense estava caiu nessa madrugada. Quando tragédias assim ocorrem, a gente fica matutando sobre o que é a vida, sobre os caminhos à espreita, sobre a inescrutabilidade do futuro, sobre a questão de que poderia ter sido a gente. Aqui estamos agora; amanhã, poderemos desaparecer. O que estamos fazendo do tempo em que estamos aqui?... A Chapecoense estava prestes a disputar o maior título de sua trajetória quando o avião em que o time estava caiu. “Que irônico, você não acha?” 

sábado, 26 de novembro de 2016

Dupla celebração?

Há gremistas que poderão celebrar duplamente nos dias que virão. É que na quarta-feira o tricolor do sul pode ser o campeão da Copa do Brasil. Mas, para alguns gremistas, uma comemoração já pode ocorrer neste fim de semana — o rebaixamento do Inter. 

Peregrinação

Vai
a pé 
à fé.

A história por trás da foto (97)

Nesta imagem, foram duas, as brincadeiras: uma, com o Tito, meu cachorro. Sempre que chego em casa, ele está louco para farras. A outra brincadeira foi com o tempo de exposição. Como o Tito queria brincar e a noite já estava quase se fazendo por completo, tive a ideia de colocar a câmera num apoio rente ao chão (usei uma panela), baixar a velocidade e disparar.

Na boca do Tito, um pneuzinho de que ele gosta demais; a relação entre os dois já é de simbiose. O registro foi feito há pouco. A velocidade baixa foi usada para dar a ideia de movimento na corrida do Tito. Talvez essa ideia tenha sido “drástica” demais, a ponto de ele quase se tornar um “borrão” na foto. Mas tudo foi feito em nome da brincadeira. Mostrei o resultado para o Tito. Ele me autorizou a postar. 

Dia dançante

O dia amanheceu dançante.
Meu corpo e o ritmo são duas coisas
vibrando num só idioma.
Nessa simbiose,
ele repercute,
eu danço.

A manhã vai se fazendo
enquanto vou me (des)fazendo
ao som de prosaica 
e sonora manhã.
Meu louvor
tem som,
ritmo
e corpo.
Dançar me expurga
de meus pesos. 

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Mais um poema de meu livro

Grêmio derrota o Atlético/MG

Em jogo terminado há pouco no Mineirão, o Grêmio, que jogou melhor do que o Atlético, venceu por três a um. Num estranho regulamento, não há na final da Copa do Brasil o que chamam de gol qualificado (nas demais fases do torneio esse gol é levado em conta). Na prática, isso significa que o Atlético precisa de ganhar por uma diferença de dois gols, independentemente do placar, para levar a partida para os pênaltis, no jogo da semana que vem.

O time gaúcho foi melhor em grande parte do jogo. Ainda no primeiro tempo, poderia ter feito dois ou três gols. No segundo, depois de ter jogador expulso, recuou demais; o Atlético começou a pressionar. Todavia, uma pressão feita muito mais na garra do que na técnica ou no esquema tático. Obviamente, a garra é um elemento crucial também no futebol, mas somente ela não é capaz de ganhar uma partida.

Os talentos individuais do Atlético não brilharam. O esquema tático do time foi inócuo. O jogo estava fácil para o Grêmio até o momento em que ele ficou com um jogador a menos. Fiquei até com a impressão de que houve um certo comodismo ou uma certa apatia do time gaúcho. Dada a fragilidade do Atlético, havia a sensação de que se o time do sul tivesse sido mais aguerrido, o placar poderia ter sido mais amplo.

Irresponsabilidade dizer que o Grêmio já é o campeão da Copa do Brasil. Não é delírio o torcedor atleticano conceber o Atlético ser campeão no Rio Grande do Sul, desde que a equipe jogue bem melhor do que o que jogou hoje. Por outro lado, não se pode deixar de afirmar que a equipe gaúcha deu um grande passo na partida terminada há pouco lá no Mineirão. Ganhando mesmo a competição, será pentacampeão do torneio. 

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Poema malcriado


Anteontem, tive a honra de ter mais um poema que escrevi musicado por um amigo. Dessa vez, pelo Hérico Noronha. Assim que leu o Poema Malcriado, que postei mais cedo no Facebook, o Hérico comentou que o texto havia ficado a cara do Arnaldo Antunes. Diante disso, em tom de brincadeira, sugeri a ele que musicasse o poema. O resultado está nesta postagem.

A rigor, o texto foi escrito em treze de dezembro de 2011, data em que o postei aqui. Tentando achar outra postagem também aqui, acabei me deparando com o poema. Foi então que me decidi por publicá-lo no Facebook.

Ao Hérico, muito obrigado por ter musicado as palavras e muito obrigado pelas conversas divertidas que tivemos via WhatsApp, enquanto decidíamos que rumos tomar quanto à letra e ao astral da melodia criada pelo Hérico. 

Luzes e nódoas

Vira e mexe, como diriam os antigos, eu cito um trecho do Manuel Bandeira no qual ele diz que a poesia é “nódoa no brim”. Uma rápida consulta em meu blogue me revela que já mencionei esse trecho do Bandeira em pelo menos três postagens.

Volto a ele pela mesma temática sobre a qual já escrevi: em termos modernos, uma beleza imaculada demais pode, de modo paradoxal, não ser tão sedutora quanto uma beleza “conspurcada”. Metaforicamente, é preciso haver uma nódoa, sob o risco de se incorrer numa beleza limpinha demais, bem-comportada demais.

É preciso “estragar” o belo, “dessacralizá”-lo, “desrespeitá”-lo. Uma beleza que descambe para a assepsia absoluta corre o risco de parecer artificial. Podemos ter o anseio de sermos imaculados ou de produzirmos algo imaculado, mas sob qualquer aspecto estamos longe disso. Além do mais, nossas “impurezas” têm seu encanto e beleza. Belezas e encantos humanos, é verdade, mas belezas. Ainda bem que temos nódoas.

Ontem, folheei alguns livros do Manoel de Barros em busca de uma frase dele. Eu me lembrava do teor dela, mas não me lembrava das palavras exatas. Enquanto a procurava, eu me deparei com o seguinte trecho, extraído de “O livro das ignorãças”:

“Aos blocos semânticos dar equilíbrio. Onde o abstrato entre, amarre com arame. Ao lado de um primal deixe um termo erudito. Aplique na aridez intumescências. Encoste um cago ao sublime. E no solene um pênis sujo” (1). Os oximoros que o poeta usa intensificam a ideia de que o imaculado deve ser “poluído”. É quando fica pleno de humanidade.

O preceito do Manoel de Barros acabou me remetendo a um do Mario Benedetti, que li recentemente. Cito como está no texto original, com tudo em minúsculas:

“com o desejo mais terno do que outras noites
tateou as pernas da mulher nova
que felizmente não eram de carrara (...)
com o polegar e o indicador reconheceu os lábios
que felizmente não eram de coral” (2).

A idealização é capaz de prodígios, de produzir obras-primas. Ela é inevitável; perpassa não só nosso imaginário, mas toda a história da arte. Seria irresponsável afirmar que idealizações não contém verdades humanas.

O Modernismo, que para muitos produziu uma arte “menor” se comparada com a arte clássica, investiu pesado na dessacralização do fazer artístico e da arte em si mesma, o que é uma de suas grandes conquistas. Boccaccio, Rabelais, Cervantes ou Sterne já haviam feito uma saudável farra com a literatura. No Modernismo, isso se tornou muito forte.

Trechos como o de Manoel de Barros ou o de Benedetti, citados acima, são exemplos do que a literatura moderna conquistou. São nódoas a revelar nossa condição de seres que comportam o sublime e o sujo. Em nós, o elevado e trivial se misturam. Que haja luzes e nódoas.
_____

(1) BARROS. Manoel de. O livro das ignorãças. 4ª edição. Rio de Janeiro. Record. 1997. Pag. 21.
(2) BENEDETTI, Mario. O amor, as mulheres e a vida. Tradução de Julio Luis Gehlen. Campinas. Verus. 2010. Pág. 63.

Morte líquida

Uma gota de lucidez
num mar de desrazão.
Mergulhou nela.
Afogou-se. 

Mariposa

O Manoel de Barros, no livro “Concerto a céu aberto para solos de ave”, escreveu que “besouro no estrume está no palácio”. Lembrei-me ontem, pela manhã, do aforismo do poeta quando me deparei com essa mariposa pousada no piso do banheiro.

Que pena

Ontem, eu estava brincando com o Tito, meu cachorro. Na beirada do continente de ração dele, vi as penas; decidi tirar uma foto.

Acho que as penas não são do Tito.

Fora de alcance

Sei onde estás.
Não te amasse,
não desejaria eu
que teu lugar
estivesse ao
alcance de
minhas mãos.

Apontamento 353

Encaro a palavra como possibilidade de lucidez. A lucidez em si é bela. E pode ter nuances. Tanto é assim que existe a poesia.

Os que são contra a democracia

 Os que em nome de um patriotismo canhestro defendem mais um golpe militar, alegando que há uma presença comunista pairando no Brasil, não somente revelam ignorância histórica, mas são, em si, a ameaça. Dizendo serem patriotas, invadem a Câmera dos Deputados e pedem ditadura que afaste os comunistas que dizem estar enxergando.

Há um paradoxo: anunciam uma ameaça que é teórica, ao mesmo tempo em que se tornam, na prática, a ameaça. Em nome do que não há (o comunismo), têm implementado o que há — a violência deles contra o outro e contra as instituições, as quais somente são úteis se estiverem a serviço deles.

Eu não concordo com o conservadorismo e com o elitismo da Câmara e do Senado. É vergonhoso aceitarem jantares oferecidos por Temer (e bancados por nós) para que aprovem PEC contra a educação e contra a saúde. Todavia, isso não me dá o direito de invadir as Casas.

A grande ameaça à democracia tem vindo de quem diz que a democracia está sendo ameaçada. Inventando inimigos, seja por má-fé, seja por burrice, eles é que estão querendo minar o regime democrático, defendendo, dentre outras aberrações, golpe militar. O perigo que representam é real, palpável.

Ostentando preconceitos e divulgando riscos inexistentes, eles é que são o entrave para que a democracia avance. Inventando perigos e contando com a anuência da grande mídia, são eles, o perigo. Para destruírem conquistas democráticas, inventam e espalham monstros. Uma das pessoas que invadiram a Câmara gritava: “O general está vindo”. Se depender deles, virá.

Preconceito e loucura

A doença da sociedade brasileira tem sido escancarada em virtude dos desdobramentos políticos e das redes sociais. O que outrora era velado é divulgado em todo o País, exibindo uma face doentia e preconceituosa. O que me leva a escrever isso é o ocorrido hoje (20/11) em São Paulo.

O Movimento Brasil Livre (MBL) e o Vem pra Rua convocaram manifestação em apoio à operação Lava Jato, em São Paulo/SP, na Avenida Paulista. Todavia, no mesmo local, estava ocorrendo a XIII Marcha da Consciência Negra.

A reação de um homem ao estar diante de uma integrante da Marcha da Consciência Negra foi típica do momento de burrice e de perigosa intolerância pela qual o Brasil tem passado. Usando um chapéu verde e amarelo sobre o qual estava escrito o nome do País e uma bandeira do Brasil pendurada no pescoço, o homem gritou para a manifestante: “Tira foto do meu pau! Eu tô louco, sim! Eu sou machista, sim! Vagabunda!”.

Tem-se então que ele pode manifestar o preconceito dele. Pode exibi-lo, pode se orgulhar dele. Na ótica dele, basta usar um chapéu com as cores da bandeira nacional e atacar o outro para que se possa ser considerado patriota. A moça que disse que a bandeira do Japão era manifestação comunista (depois ela se retratou) também se disse patriota.

Desse modo, o conceito de patriotismo é desvirtuado já em sua raiz; a partir do instante no qual esse “patriota”, em nome do que ele considera o banimento da corrupção, propõe um País que exclua, por exemplo, o negro, ele está indo contra o que está no DNA do lugar em que vive.

Não bastasse, esse “patriotismo” de parte dos que põem sobre o corpo a bandeira do Brasil e saem em manifestações que dizem ser contra a corrupção é seletivo nos protestos que realizam. O corrupto é sempre o outro.

O problema é sempre o outro, o que imprime a esse “patriotismo” mais um elemento: a ausência de cosmopolitismo, por mais que se viaje pelo mundo. É que o cosmopolitismo, em essência, não é o mesmo que viajar. Ele diz respeito a um estado mental em que há o interesse em saber o que é outro, seja quem for esse outro, seja em que país for.

Autorretratos na Torre Eiffel e vinhos saborosos em restaurantes legais podem não ser expressão de cosmopolitismo. Uma pessoa que, numa manifestação, xinga a outra do modo como o que citei acima não quer saber nem do outro nem de seu País. Ele está, sim, defendendo o interesse de seus iguais, de seus pares.

Para uma parcela da população do Brasil, se o outro é preto e vem, digamos, de Cuba, está roubando os empregos daqui; se o outro é loirinho, tem olho azul ou verde e fala inglês, ele está contribuindo para nosso crescimento. O preconceituoso jamais enxerga que o crescimento cultural é possível com qualquer outro, não só o outro que atenda a quem o preconceituoso considera detentor de humanidade.

O ocorrido na Paulista é sintomático de um Brasil que mostrou haver nele pessoas inflamadas que estão dispostas a tudo em nome seja de golpe militar seja de um processo de “limpeza” do País. Nesse mundo, cores outras ou ideias outras seriam banidas em nome da ordem e do progresso, lema que tanto gostam de bradar.

Sem o interesse genuíno pelo outro, a visão doente que têm de patriotismo e de cosmopolitismo seria risível. Seria. Eu queria ter achado graça da moça que disse que a bandeira do Japão era evidência de invasão comunista no Brasil, mas não consigo rir de coisas assim. Considero a ignorância exacerbada perigosa demais para que eu consiga zombar dela. Ela é doentia e numerosa. Não bastasse, tem apoio de parte dos grandes meios de comunicação.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Entrevista com Luís André Nepomuceno


Neste áudio, bate-papo com o professor, ensaísta e ficcionista Luís André Nepomuceno, que vai lançar em breve seu quinto livro de ficção. 

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Amores vaidosos

Stendhal (1783-1842), logo no começo de seu “Do amor”, enumera quatro tipos de... amor. Um deles, ele chama de “o amor de vaidade”. Sobre ele, escreve, segundo tradução de Roberto Leal Ferreira: “A imensa maioria dos homens, sobretudo na França, deseja e tem uma mulher da moda, assim como se tem um belo cavalo, como algo necessário ao luxo de um rapaz”. (1)

Outro francês muito agudo ao analisar os meandros do amor foi Choderlos de Laclos (1741-1803), que, no monumental “As relações perigosas”, mostra com sutileza a questão da vaidade. Só que o ensaio de Stendhal e o romance de De Laclos, embora lidem com a vaidade, fazem-no com diferentes abordagens.

No texto de Stendhal, a vaidade se concretiza na exibição pública da conquista. Já em “As relações perigosas”, o sórdido jogo entre o Visconde de Valmont e a Marquesa de Merteuil, os personagens centrais do romance, faz com que ele, por vaidade, não admita que ama a Presidenta de Tourvel, mulher que tanto lutara por seduzir.

Em Stendhal, embarca-se na vaidade para se exibir um amor; em De Laclos, para se ocultar o amor que se tem. Na trama do romance, a marquesa, em mais uma de suas maquinações, havia garantido que Valmont não era capaz de seduzir a Presidenta de Tourvel. Ele obtém sucesso. O que ele não esperava é se apaixonar por ela. Em nome da vaidade, a fim de tentar desmerecer os cruéis gracejos da Marquesa de Merteuil, nega o amor que grita dentro dele.

Stendhal desdenha dos que, por vaidade, exibem em público o amor como mercadoria; De Laclos investiga um espírito que, por vaidade, esconde o amor que de fato sente. Em um, a vaidade tentando fazer crer que o que se tem é amor; em outro, a vaidade tentando fazer crer que o amor que se tem é só mais uma conquista para o rol de eficaz sedutor.
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(1) STENDHAL. Do amor. Tradução de Roberto Leal Ferreira. São Paulo. Martins Fontes.1993. Pág. 4. 

Apontamento 352

City streets, sucesso com a Carole King, de que o Eric Clapton participa tocando guitarra, é uma canção triste e lírica. Há o sentimento de solidão, intensificado pelo movimento das... ruas da cidade. Um eu lírico solitário diante da agitação urbana, em meio a vidas que, pelo menos na aparência, estão acompanhadas. Uma pérola da música pop. 

Proximidade

Em tua companhia,
quero minha vida.
Antes de tudo,
quero-te aqui.
Basta que estejas por perto.

Que tua inteligência
me acompanhe.
Eu tenho prazer 
quando leio tuas palavras.
São tão elegantes 
quanto tua elegância.

Escutar tua voz,
seja ela sussurro,
gemido, leitura,
conversa, riso.
Esmiuçar
teu corpo
com olhos,
mãos e tudo
o que em mim
é corpo.

Amor quer pele
e o que ela reveste.
Quero tua superfície
e tuas profundezas.
Amor requer presença.
Basta que estejas por perto. 

domingo, 13 de novembro de 2016

Instintos e política

Ontem, li um texto do Alain de Botton no qual ele diz que, muitas vezes, o cenário político de um país vai mal nem tanto devido a questões políticas ou econômicas, mas por causa do que o filósofo e escritor chama de imaturidade política. De Botton elenca alguns dos sintomas dessa imaturidade:

— a culpa é sempre do imigrante;
— a fraqueza do imaturo é causada pelo outro; 
— o bem-estar do outro é necessariamente a causa do mal-estar do imaturo; 
— grandes problemas demandam soluções radicais;
— o imaturo alega que discordar dele é não saber o que é normal, pois ele representa o senso comum;
— o imaturo não se vale da polidez, pois, na opinião dele, foram os bons modos que nos levaram ao ponto em que estamos.

Ignacio Ramonet, em artigo que já mencionei, alega que as falas de Donald Trump durante sua campanha à presidência se valeram de um tom que apela para os instintos, não para a razão: “Su discurso es emocional y espontáneo. Apela a los instintos, a las tripas, no a lo cerebral, ni a la razón”.

Em se tratando de política, a partir do momento em que o apelo aos instintos fala mais alto do que o apelo à razão, o palco está à disposição para que entre em cena o imaturo político sobre o qual discorre Alain de Botton. A questão não é banir os instintos; queiramos ou não, eles vão nos acossar, vão se manifestar, esgueirando-se entre os poros.

Que achemos maneiras de dar vazão aos instintos, em nome de nossa sanidade. A questão é que a arena política não é o local para dar liberdade a energias instintivas. A política é (ou deveria ser) terreno da razão. Não deveria ser encarada pelos cidadãos como se eles estivessem numa arquibancada de estádio. 

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

A eleição de Trump e a mídia

Nos EUA, um dos líderes da Ku Klux Klan escreveu, após declarada a vitória de Trump: “This is one of the most exciting nights of my life”. Naftali Bennett, ministro da educação de Israel e importante figura de coalizão do país na questão com a Palestina, disse que a eleição de Trump é uma oportunidade de Israel se retrair quanto à noção de um Estado palestino. Texto de David Remnick, publicado na revista The New Yorker, afirma que a vitória de Trump é uma tragédia para a Constituição deles e um triunfo do autoritarismo, da misoginia e do racismo. O texto de Remnick aponta que o problema de Trump é o outro, que pode ser afro-americano, hispânico, mulher, judeu ou muçulmano.

Muitos ainda têm se perguntado como alguém tão obtuso obteve tantos votos. A questão é que ele foi eleito precisamente por ser xenófobo, machista, petulante, inconsequente, vulgar e dado a bravatas. Muitos eleitores disseram ter votado em Trump por ele não ser um político “típico”, e, por isso, estaria apto a livrar a política dos que fizeram com que ela se tornasse o que é hoje. Tais eleitores são ingênuos; contudo, Trump foi eleito em função dos preconceitos que ele já demonstrou ter, não em função de eliminar da política os maus políticos (como se isso fosse possível).

Ignacio Ramonet, num brilhante texto publicado no desinformemonos.org, escreveu sobre Trump: “Apela a los instintos, a las tripas, no a lo cerebral, ni a la razón. Habla para esa parte del pueblo estadounidense entre la cual ha empezado a cundir el desánimo y el descontento. Se dirige a la gente que está cansada de la vieja política, de la ‘casta’. Y promete inyectar honestidad en el sistema; renovar nombres, rostros y actitudes”.

Se parte do eleitor de Trump está cansado da “velha” política, não nos esqueçamos jamais de que uma grande quantidade dos votos que ele obteve foi dada por quem está interessado não em banir essa “velha” política, mas em intensificar antigos preconceitos. Em janeiro deste ano, Trump declarou: “Eu poderia ficar no meio da Quinta Avenida e dar um tiro em alguém e eu não perderia nenhum eleitor”. Ele conhece muito bem o perfil de parte dos que votaram nele.

Nos EUA, diferentemente do que ocorre por aqui, boa parcela dos grandes meios de comunicação deixa claro para o eleitorado que candidato estão apoiando. Tomar partido é uma coisa; ser tendencioso é outra. O tendencioso amplifica os defeitos do que se opõe a ele, escondendo as qualidades que essa oposição possa ter, ao mesmo tempo em que esconde os defeitos daquilo que defende, amplificando as qualidades das ideias por que luta. Nessa estratégia, o tendencioso, não raro, mente, seja quanto àquilo que defende seja quanto ao que ataca. Tomar partido é deixar claro, com honestidade, com discernimento e com discurso civilizado o que se pensa, o que é defendido, não somente no terreno político.

No Brasil, os poderosos meios de comunicação são tendenciosos; nos EUA, nesta eleição, como nunca, a mídia tomou partido, o que acabou fazendo com que houvesse rusgas entre Trump e ela. Na cobertura da campanha política, The Washington Post, Politico e Huffington Post tiveram suas credenciais retiradas pelo magnata, segundo informa Ignacio Ramonet. Ainda segundo Ramonet, até a Fox, pró-Trump, foi atacada por ele. A mídia dos EUA não pode ser acusada de ter orquestrado em uníssono a eleição do preconceituoso e arrogante Donald Trump.