terça-feira, 10 de maio de 2016

"Ai se eu te pego": ode à ironia

Não sei se houve um tempo em que havia sagacidade para uma ironia perspicaz. Pode ser que não. Um certo Alcanter de Brahm, no século XIX, inventou o ponto de ironia (imagem acima); tentativa infrutífera.

Em redes sociais, muitos preferem (eu mesmo fui um desses muitos) escancarar a ironia a ter de aturar a falta de tino dos que não conseguem entendê-la. A fim de se pouparem de incapacidade de interpretação e de aborrecimentos, optam por tirar a sutileza do texto, evidenciando a ironia. Hoje, sou da opinião de que eu não deveria ter contado que eu estava sendo irônico.

O Luciano Pires, num de seus “podcasts”, fez uma acurada “análise” interpretativa de “Ai se eu te pego” quando a canção estourou mundo afora. O tom foi sério, houve um suposto ar acadêmico nas palavras usadas por Luciano Pires. Quem acompanhava o programa dele poderia perceber tranquilamente que se tratava de uma ironia. Contudo, mesmo dentre ouvintes que se disseram fiéis, houve quem entrasse em contato com Pires para dizer que estavam decepcionados por ele ter se dedicado a “estudar” com tanta precisão a letra de “Ai se eu te pego”.

No “podcast” seguinte, o apresentador ironizou a falta de capacidade de alguns ouvintes em perceber a ironia da “análise”: ele e o técnico de som que trabalhava com ele criaram a vinheta da ironia; toda hora em que o breve sinal sonoro fosse ao ar, ele estaria contando para o ouvinte que o que seria dito a seguir se tratava de uma... ironia...

À parte a historieta sobre o Alcanter de Brahm e à parte essa história envolvendo o Luciano Pires, o bom mesmo é não escancarar a ironia. Ironia escancarada é algo tão ruim quanto piada ou chiste explicados. Se por um lado entendo que em redes sociais a obtusidade de um leitor ou de outro pode “exigir” o equivalente a um ponto de ironia, a fim de se evitarem aporrinhações, por outro, é preciso “resistir”. Dito de outro modo: é preciso confiar no leitor/receptor de uma ironia.

O movimento quase imperceptível dos lábios num sorriso milimétrico quando o leitor saca uma ironia do autor é um momento bonito demais para ser estragado por obviedades. É um momento em que há uma sintonia entre quem escreve e quem lê, a despeito de distâncias temporais ou espaciais. É um momento de comunhão, como é de comunhão todo momento de leituras dedicadas, entusiasmadas. Que deixemos momentos assim no profícuo e forte terreno da sutileza. 

Sem ti

Não sei viver sem ti.

Por um lado, é mentira,
pois sigo vivendo sem ti.
Por outro, é verdade,
pois, sem ti, sou
piano sem mãos,
locutor sem rádio,
lábios sem beijo.

Vivo,
vivo sem ti,
ao modo de
estádio sem gente,
poeta sem leitor,
roupa sem corpo,
tesão sem par.

Sem ti,
deusa de voz suave,
não sou o que sou.