domingo, 20 de agosto de 2017

Ventos

Não cogito o que
os ventos de agosto trarão. 
Eu me contento com agosto
trazer ventos.
Se por ventura 
me soprarem versos,
tu saberás. 

Vamos para o Rio?...

Love

A arte ruim explica tudo. Isso não quer dizer que a arte boa não explique nada. Precisamente por ser arte, ela não tem a obrigação de explicar, mas, é claro, precisa fazer algum sentido. Quando li a sinopse de Love (2011), disponível na Netflix, eu me interessei pelo filme. Comecei a assisti-lo numa madrugada qualquer. O sono veio. Deixei para assistir numa outra ocasião.

Terminei há pouco. Love é humanista, a despeito da cara de ficção científica que tem. Funciona como um filme de ficção científica, mas como toda obra de arte boa, não importa o gênero nem o meio de que se valha, encerra uma verdade humana. Love explica pouco e sugere muito. Todavia, o que é sugerido autoriza algumas possíveis conclusões ou interpretações.

William Eubank é diretor e roteirista do filme. Lee Miller [Gunner Wright] é astronauta e está na estação espacial quando perde contato com a Terra. A partir daí, ele tenta, no ambiente claustrofóbico em que está, preservar a sanidade. A certeza do não contato com a Terra é definitiva quando é sugerido que um evento catastrófico dizimou a humanidade. Miller, na órbita do planeta em que nascera, é o último humano.

Em determinado momento, ele se depara com um livro, que é o diário de um soldado que havia lutado na Guerra de Secessão, nos EUA. Tendo recebido autorização para abandonar seu regimento, o soldado deixa o campo de batalha com a missão de investigar um estranho objeto numa cratera.

À medida que eu ia assistindo ao filme eu ficava me perguntando como o roteiro amarraria eventos tão dispersos entre si. Na abertura, há imagem da Terra, mostrada parcialmente; logo a seguir, cenas da guerra civil americana; pouco minutos depois, o espectador está novamente no espaço (esses momentos iniciais acabaram me remetendo àquele imenso corte temporal de 2001: uma odisseia no espaço, quando um osso arremessado por um símio se “torna” uma nave no espaço). Enquanto Miller tenta manter-se racional na estação espacial, há cenas de pessoas dando testemunhos simples sobre vivências que tiveram. Nos minutos finais do filme, tudo isso faz sentido (ou parece fazer).

Os átomos de que cada um é feito são os átomos de toda a humanidade, de tudo o que existe. Em seu desfecho, é como se Love fosse a versão imagética das belas sugestões de Walt Whitman, as quais afirmam que cada um é todos os outros. Não bastasse a beleza disso por si, a poética e bonita sequência final do filme relativiza o micro e o macro, além de mergulhar o homem numa poderosa beleza atômica e universal. 

Apontamento 367

Esbravejar, vociferar, dizendo que o brasileiro é passivo e que aceita tudo é só outro modo de aceitar tudo.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

O marqueteiro do Acre

Os meios de comunicação criaram para Bruno Borges o estranho epíteto de “o menino do Acre”. Quando li a expressão pela primeira vez, pensei se tratar de uma criança. Ao ler, há mais ou menos cinco meses, matéria sobre Bruno, logo fiquei sabendo que ele tem vinte e cinco anos. Achei a alcunha de “menino” inapropriada para uma pessoa dessa idade.

Diante da matéria, pensei em duas possibilidades: ou Bruno era louco ou se tratava de alguma armação toscamente fantasiada de misticismo. Quando de seu “desaparecimento”, cogitou-se a possibilidade de ele estar morto. Na época, pensando na agonia da família dele, torci para que o “menino” estivesse vivo. Está. Voltou hoje para casa.

Segundo texto veiculado no G1, o livro de Bruno Borges, lançado pela editora Arte e Vida, intitulado “TAC: Teoria da Absorção do Conhecimento”, é muito ruim. Cauê Muraro, autor da resenha da obra de Bruno publicada no G1, escreveu: “Ele tem aversão a sexo, gula e crase. Faz zero questão de parecer modesto (cita a si mesmo, inclusive)”. Parece que os revisores da Arte e Vida quiseram manter o texto dele imaculado. Ao longo do texto, Muraro menciona outros escorregões gramaticais de Bruno Borges. Não bastassem questões técnico-gramaticais, ainda de acordo com o texto publicado no G1, fazer sentido não é grande preocupação de Bruno.

O livro dele está vendendo bem, segundo o que a mídia tem divulgado. Em maio deste ano, Marcelo Ferreira, de vinte e dois anos, amigo de Bruno, foi detido pela polícia por crime de falso testemunho. Na casa de Marcelo, havia dois contratos. Um deles era sobre porcentagem de lucros com a venda dos livros de Bruno. Outro envolvido seria Bruno Gaiote, em cuja casa havia móveis do quarto de Bruno Borges. Ninguém está preso.

Se encarado com olhar estritamente financista, o plano de Bruno Borges é perfeito. Ele conseguiu visibilidade nacional, conseguiu despertar curiosidade para um livro que nem havia sido lançado e tem conseguido, de acordo com os meios de comunicação, fazer com que seu livro venda bem. Num prisma estritamente marqueteiro, Bruno Borges é um sucesso.

Não há nada de errado em estratégias de marketing. Além do mais, Bruno não é o primeiro a se valer de um engodo para ganhar dinheiro. Todavia, sem querer soar ingênuo, há uma questão ética que deve ser levada em conta. Ele posa de místico, quando na verdade é um excelente estrategista de marketing. A questão que se impõe: é preciso enganar para vender?

Investir na credulidade, no medo, na burrice, em produtos de fácil consumo e em pseudomistérios não é garantia de êxito, mas, levando-se em conta somente critérios monetários, pode ser um belo começo. Bruno sabe disso. Poder-se-ia alegar que o azar é de quem acredita em balelas de falsos religiosos, de pseudomísticos ou de gurus da autoajuda, gastando dinheiro com produtos desse teor. Mesmo havendo muita gente que acredita nesse filão, isso não anula a questão ética de que os produtores desse mesmo filão sabem que vendem uma mentira, lucram com um embuste.

O caso de Bruno será debatido nos cursos de publicidade e propaganda. Não consigo levar em conta unicamente o caráter lucrativo da empreitada dele. Todo mundo sabe que dinheiro é bom e que cada um se vale do que é capaz para consegui-lo. Bruno deu-se bem ao contar com as crendices de quem o considera místico ou com os delírios dos que acreditaram que ele teria sido abduzido. No futuro, quando ninguém mais falar dele nem dos livros dele, haverá outros crédulos e outros Brunos fomentando um mercado em que sempre há tapeadores e iludidos. Em qualquer época, existem espertalhões com a manha da TAD: Teoria da Absorção do Dinheiro. 

Água e espelho

A água cristalina me reflete;
é mais fugidia do que eu.
O espelho cristalino me reflete;
sou mais fugidio do que ele.

A água cristalina me reflete
enquanto se move.
O espelho cristalino me reflete
enquanto me movo.

A água se move:
meu reflexo é difuso.
O espelho é estático:
eu sou difuso.

A imobilidade do espelho,
o movimento da água.
Refletido em ambos,
escorro pelo tempo. 

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Ao leite

Toda vasilha, panela, caçarola, vasilhame ou continentes similares vêm com um acurado detector de distração. O dispositivo é acionado para que o leite fervido inunde o fogão. 

Nosso futebolzinho

Deve-se olhar para as eliminações de Atlético e de Palmeiras na Libertadores, ontem, num panorama maior. Num menor, nenhuma das duas equipes é forte. Tanto é assim que foram eliminadas por times pequenos. No panorama maior, Atlético e Palmeiras são reflexo do ruim futebol brasileiro.

O Corinthians tem sido exceção caso o comparemos com as demais equipes do Brasil. A seleção, treinada por Tite, passou a ter bons resultados nas eliminatórias para a Copa do ano que vem. Todavia, Corinthians e seleção brasileira não são o bastante para que não se enxergue o amadorismo de nosso futebol, que, ademais, é reflexo do que somos.

Basta acompanhar qualquer uma das rodadas do campeonato nacional para se perceber em campo o horrendo jeitinho brasileiro, a falta de criatividade e a ausência de ousadia. O mundo inteiro já percebeu que talento, por si, não é o bastante. O que o futebol daqui tem é só um pouco de talento.

O esquemão CBF/Globo está falido há tempos. A derrota para a Alemanha na Copa de 2014 evidenciou essa falência. Como é fácil perceber, o futebol nos gramados é tão incompetente e não profissional quanto as maracutaias de cartolas e de empresários. Não é ficando de joelhos que se resolve uma estrutura viciada e vergonhosa. 

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Apontamento 366

Na produção de conhecimento, não raro, todo um edifício é construído quando um simples cômodo bastaria. (Não custa lembrar que há longos edifícios em que cada cômodo é imprescindível.) 

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Haicai 52

Com amor, sem alarde.
Sendo assim, eu convido:
vem fazer amor à tarde. 

Haicai 51

Hoje foi dia de façanha.
Com zelo e com gosto,
fiz a primeira lasanha. 

Fome e vírgula

Ela escreveu para ele: “Vem comer, amor. Vem comer amor”. Ele respondeu: “A ausência de vírgula na segunda frase indica que vou comer amor porque a lasanha foi feita com amor ou indica que vou comer amor porque vou comer você?”. Ela respondeu: “Com vírgula ou sem, comendo com amor, coma o que quiser”. 

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Inscrição na Bienal confirmada

Conforme postagem que fiz recentemente, vai haver sessão de autógrafos de meu mais recente livro, Amor de Palavra, na Bienal Internacional do Livro, no Rio de Janeiro, no dia sete de setembro, às 13h. Minha inscrição no evento foi confirmada há pouco.

Para quem ainda não adquiriu o livro, ele está à venda nos seguintes locais: 

• Livraria Nobel, no Pátio Central Shopping
• RR — Renato Representações, no prédio da Rádio Clube
• A Musical. Rua José de Santana 436 (Centro)

Há também exemplares do Dislexias, meu livro anterior. 

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Corinthians vence mais uma

Eficácia. Essa é a palavra que define o time do Corinthians, que parece ter decidido que nunca mais vai perder. Ainda que não apresente um futebol que possa ser chamado de bonito, a absurda eficiência do time paulistano fez mais uma vítima há pouco, no Mineirão — o Atlético/MG.

Rodada após rodada, jogo após jogo, há meses todos estão se perguntando quando o Corinthians vai perder; o time não perde. Hoje, no Mineirão, a despeito do incentivo da aguerrida torcida atleticana, o líder do campeonato venceu mais uma vez, mesmo tendo chutado menos a gol, o que comprova a capacidade de decisão do time e a excelente fase do goleiro Cássio.

A eficácia do Corinthians está ligada ao entrosamento e à disciplina tática. Jogando com calma, ciente de suas deficiências e consciente de seus pontos fortes, o time, treinado por Fábio Carille, tem tudo para ser o campeão do torneio. A última rodada do primeiro turno será no fim de semana; é cedo para vaticinar que o campeonato já é do Corinthians. Todavia, se a equipe mantiver o equilíbrio fatal que tem mostrado até aqui, dificilmente não será o campeão brasileiro deste ano.

Segundo o divulgado pelo Premiere, durante a transmissão da partida, o Atlético/MG teria tomado a decisão de jogar no Mineirão em busca de “mudança de ares”. O Corinthians não deu a mínima para os ares da Pampulha, fazendo com que o time de BH perdesse mais uma em casa. 

Sessão de autógrafos no Rio de Janeiro

No mês que vem, no dia sete de setembro, vai haver sessão de autógrafos de meu livro Amor de Palavra na Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro. Será às 13h. 

Bora pro Rio?... 

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Desinência -m

Até,
atém.

Até,
atêm.

Bê,
bem.

Cê,
cem.

Ene,
Enem.

Mi,
mim.

Ri,
rim.

Se, 
sem

Sê,
sem.

Si,
sim.

Só,
som.

Te,
tem.

Tê,
têm.

Vê,
vêm.

Vi,
vim.

Ame.
Fim. 

Culinária

É o primeiro 
dia do mês.
Tempere
a gosto. 

Sentindo na pele

O deputado federal Wladimir Costa (SD-PA) tatuou o nome de Temer no ombro. Estão dizendo que a tatuagem seria daquelas que saem rapidinho, muito comuns em praias. O político declarou que a tatuagem é permanente; segundo o InfoMoney, declarou ainda que fará outra, essa com os dizeres “Temer, o único estadista do Brasil”. O hiperbólico “único” está em sintonia com o que Wladimir Costa disse sobre a tatuagem já feita: “Cada um com suas paixões”. Estava certo quem disse que o amor é coisa de pele. 

domingo, 30 de julho de 2017

A história por trás da foto (107)


Hoje pela manhã, fui acordado por estas duas maritacas, quando pousaram na antena de TV que fica no quintal do vizinho. A princípio, pensei que logo fossem embora. Durante algum tempo, ainda deitado na cama, fiquei escutando o que diziam uma para a outra.

Curioso para saber como eram as criaturas que diziam aquelas palavras, abri a janela do quarto. As maritacas me olharam, continuaram conversando. Fechei a janela, voltei para a cama. O bate-papo delas prosseguiu animado.

Enquanto conversavam, eu ficava pensando se haveria tempo de eu fotografá-las. Em vez de pensar, eu deveria logo ter ido pegar a câmera. Ao pegá-la, eu teria de retirar a lente que estava nela e de nela acoplar a lente própria para registros de aves e de pássaros.

Como o diálogo das maritacas seguia animado, eu me levantei, peguei a câmera, troquei a lente e fui para o quintal, fingindo displicência, a fim de não espantá-las. Pode ser que esse cuidado nem tivesse sido necessário; queriam é ser fotografadas. Tanto que, antes de voarem, agradeceram-me. 

Com gosto

Gostou; passou a se envolver. 
Envolveu-se; passou a gostar. 
Pode se envolver e gostar; 
pode gostar e se envolver. 
Gosta (de si) quando há gosto.
Quando há envolvimento, gosta (de si).
Gosto e envolvimento; 
envolvimento e gosto.
Gostando, fica envolvente; 
envolvendo-se, torna-se gostosa. 

sábado, 29 de julho de 2017

A história por trás da foto (106)




Ontem, graças aos amigos Roney, Vicente e Clarindo, que trabalham no mesmo lugar em que eu, pude fotografar pela primeira vez um filhote de urubu. Roney é que sabia onde o ninho está. Prestativo, me levou até o local, que fica ao lado de onde trabalho.

Quando nós quatro chegamos lá, o que suponho ser a mãe (pai?), que estava por perto, deixou o ninho, que fica no chão, e voou para uma árvore próxima. De lá, ficou nos olhando. Depois, eu a fotografei durante seu voo. Nesta postagem, duas fotos do filhote e duas da mãe (ou do pai). 

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Releituras

A releitura é o desejo de que o livro tivesse continuado. Ela ensina que certos livros não terminam, que sempre podemos ser inéditos para nós mesmos. 

“Caderno de Poesias”

Certas leituras fazem com que eu faça sentido, com que eu faça sentindo. Foi assim com a leitura de “Caderno de Poesias”, coletânea de textos escolhidos pela cantora Maria Bethânia. Além do livro, há um DVD, em que os textos selecionados por Bethânia são ora declamados ora cantados por ela. Livro e DVD, que não são vendidos separadamente, foram lançados em 2015 pela editora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Tudo é bonito no trabalho. O livro tem diagramação sóbria e artística. Além dos textos, há reproduções de trabalhos realizados por artistas plásticos brasileiros; pinturas, gravuras ou desenhos dialogam com os textos escolhidos por Bethânia. Não bastasse esse diálogo intertextual entre diferentes linguagens, há ainda um diálogo de textos escritos com outros textos escritos, pois a cantora une diferentes autores num só registro declamado.

Não somente a estética do livro é apurada. O DVD, gravado em Diamantina/MG, tem, além da beleza do canto de Bethânia, a imensa habilidade dela na arte da declamação. Dizendo de outro modo, Bethânia é também atriz. Há uma comovente beleza tanto no livro quanto no DVD, uma sofisticação que nada tem de afetada. No registro em DVD, Bethânia foi acompanhada por um percussionista e por um violonista.

Um bom livro sempre nos torna belos e lúcidos. Hoje, apreciei o livro e o DVD. Estou lucidamente belo. Ou belamente lúcido. Não bastasse a confluência de artes que há em “Caderno de Poesias”, o trabalho é uma aula de história, a história do Brasil ou a de traços do caráter do brasileiro, a partir do olhar artístico, seja de letristas, de escritores, de artistas plásticos. O que emerge do caderno de poesia que Bethânia nos oferta é um Brasil talentoso, rico, multifacetado, eclético.

Todavia, não há ingenuidades. A exaltação do país em “Caderno de Poesias” não diz respeito a pseudoufanismos, a patriotadas. Os problemas sociais do Brasil convivem, no livro e no DVD, tanto em textos quanto em trabalhos plásticos, com o amor, a saudade, a reflexão sobre o que somos, a política, a exaltação da natureza e a preocupação ecológica. O que surge é uma parte do que somos, de nosso caráter, de nossa arte.

Para Bethânia, não há hierarquia de gêneros nem separação entre o erudito e o popular. Na força de sua declamação, há Patativa do Assaré e Fernando Pessoa, Fausto Fawcett e Guimarães Rosa. O talento de Bethânia faz com que o poder do texto, não importa se sua matriz tenha sido um livro ou um disco, venha à tona, numa interpretação contida, mas comovente e poderosa.

“Caderno de Poesia” é alento, alívio, tributo ao que o espírito humano pode criar. Um show de brasilidade, de confluências artísticas, de espírito gregário. É incrível o quanto o trabalho é, ao mesmo tempo, visceralmente brasileiro e cosmopolita. 

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Gerenciamento de pessoal

Rádio CBN e portal Yahoo informaram hoje que a prefeitura de São Paulo, encabeçada por João Doria, contratou empresa para acordar, na madrugada de quarta-feira (19/07), moradores de rua com água fria. Quando foram acordados, a temperatura estava em torno de oito graus; a sensação térmica era de haver mais frio.

Esse é o decantado “gestor” Doria. 

Fotopoema 407

terça-feira, 18 de julho de 2017

Marcus Vinitius da Cruz de Melo Moraes

Sou muito ruim para me lembrar de datas. Tenho um amigo que é capaz de se lembrar de como foi, por exemplo, o ano de 1992 na vida dele. Eu não me lembro nem de como foi minha semana passada (sic). De qualquer modo, houve um ano de que não me esqueço. Para ser mais preciso, houve um mês que não esqueço. O ano é o de 1980; julho é o mês.

Sou de um tempo em que não íamos para a escola mal tendo saído da barriga da mãe. Hoje em dia, qualquer criança com dois dias de vida já frequenta bancos escolares há tempos, faz aula de xadrez, de idiomas e de karatê. Eu somente soube o que era um banco de escola quando eu tinha sete anos. Nesse tempo, não havia aulas em julho, e quando o fim do ano ia se aproximando, o ano letivo se encerrava. A impressão que eu tinha era a de que ficávamos décadas sem voltarmos para a escola. Eu chegava a sentir saudade do ambiente escolar.

Não me lembro do que eu estava fazendo naquele julho de 1980. Todavia, lembro-me especificamente de uma ocasião. Uma olhadela na internet me diz que essa ocasião ocorreu em nove de julho de 1980. Assim que fiquei sabendo do fato, lamentei demais estar em férias, pois eu queria muito contar para a professora, dona Vitória, e para os colegas de sala a informação de que eu havia tomado conhecimento.

Assim foi. Passei o resto das férias de julho de 1980 contando os dias que faltavam para que eu tivesse a oportunidade de compartilhar com a professora e com os colegas o que foi, para mim, o grande acontecimento (ruim) daquele mês. Houvesse redes sociais naquela época, talvez eu tivesse feito uma postagem marcando os amigos e a dona Vitória. Como não era o caso, o jeito foi aguardar com ânsia o recomeço das aulas.

Quando recomeçaram, não fui logo desvendando para os colegas a informação, embora doido para contá-la para todo mundo. Cumprimentos de praxe, todo mundo perguntando para todo mundo como haviam sido as férias. Quando já estávamos todos em sala de aula, mal tendo a dona Vitória nos cumprimentado, levantei o dedo, pedindo autorização para dizer algo. Assim que ela ma concedeu, o coração disparou. Criei coragem. Eu disse: “Dona Vitória, o poeta Vinicius de Moraes morreu no dia nove deste mês”. 

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Gotas e pétalas

Recebi no celular uma mensagem com palavras atribuídas ao Neruda: “Poderão cortar todas as flores, mas não poderão deter a primavera”. Embora o tom seja nerudiano, não sei dizer se a citação é mesmo dele. Uma rápida pesquisa na internet mostra que a autoria é também atribuída a Lino J. Somavilla. Caso alguém saiba quem é mesmo o autor, gentileza me dizer.

À parte isso, a essência das palavras é a mesma de pichação que li na parede de uma loja que ficava na rua Dona Luíza, aqui em Patos de Minas. Penso ter sido na década de 80; talvez, na de 90. Picharam: “Eles destruíram nossas vidas, mas não as nossas ondas. Assinado: Os Surfistas”.

Com frequência, em companhia de amigos, cito a pichação. Ela é afronta, acinte inteligente e poderoso, não por ter sido pichada. Ela é lema e leme, é convite à poesia, à esperança, à utopia. Há um senso rebelde que não me abandona, que não é só meu. Com gotas e pétalas, faremos ondas e primaveras. 

terça-feira, 11 de julho de 2017

HDR

Mais HDR

Plataforma L

Manuel Bandeira e
Machado de Assis
estiveram num 
mesmo bonde.

Fernando Sabino e
Manuel Bandeira 
estiveram num
mesmo ônibus.

Leio e viajo. 

Chama que eu vou


Já leu?

Amor de Palavra, meu livro mais recente, está à venda na Livraria Nobel, no Pátio Central Shopping. Há também exemplares do Dislexias, meu livro anterior. 

Liviano

Meu primeiro livro se chama Leve Poesia. Se um dia ele fosse vertido para o espanhol, a versão literal do título seria Liviana Poesía. “Liviano”, em português, é aquilo relativo a Lívio. No dicionário da Real Academia Española, curti duas definições para “liviano”: “De poco peso” e “de poca importancia”. 

domingo, 2 de julho de 2017

Atlético vence o Cruzeiro no Independência

Sempre digo que uma partida de futebol é uma bela metáfora do que é a vida, por mais sem graça que seja a partida. Mesmo em casos assim, qualquer jogo de futebol é um microcosmo do que é a vida, das circunstâncias dela. Reflexo da vida, futebol é movimento, imprevisibilidade, feiura, beleza, emoção.

Há pouco, no Independência, em Belo Horizonte, Atlético e Cruzeiro realizaram um bom jogo de futebol, principalmente no primeiro tempo. A primeira metade da primeira metade da partida foi dominada pelo Cruzeiro; pouco a pouco, o Atlético caiu nos eixos, a ponto de terminar o primeiro tempo já em vantagem, mesmo tendo começado perdendo.

O destaque do jogo foi Casares, não só pelo belo gol marcado em cobrança de falta. Já Fred fez o que desde tempos sabe fazer muito bem: gols (fez dois hoje). O de cabeça, após receber cruzamento de Casares.

Foi um típico atlético versus Cruzeiro. Houve momentos truncados, discussões, provocações. Mesmo o segundo tempo não tendo sido tão bom quanto o primeiro, o jogo, no todo, foi muito bom. A despeito dos três gols que levou, dos quais não teve culpa, Fábio, mais uma vez, teve bela atuação.

Com a vitória, o Atlético não somente ultrapassou o Cruzeiro na tabela, mas galgou vários degraus em relação à posição em que estava antes do início da rodada. Da parte do Cruzeiro, o técnico Mano Menezes precisa dar um jeito na zaga, que continua levando muitos gols. Foi assim no jogo do meio da semana contra o Palmeiras, foi assim hoje; tem sido assim.

É curioso: mesmo não tendo obtido sucesso, o Cruzeiro tem sido coprotagonista de belas partidas. Recentemente, foi assim contra o Grêmio (pelo campeonato brasileiro) e contra o Palmeiras (pela Copa do Brasil); hoje, foi assim contra o Atlético. É claro que o torcedor cruzeirense trocaria os empates contra aqueles e a derrota contra este por vitórias, ainda que em partidas ruins. Mas esse é outro dado não somente do futebol, mas da vida: um belo todo nem sempre implica vitória. Por outro lado, se o time não ganha em partidas assim, ganha quem gosta de futebol. 

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Infame

— Você foi curto e grosso comigo.
— Eu não quis ser curto e grosso: só curto.
— Pois eu não curto. 

Áudio de entrevista que concedi no Rio de Janeiro

No dia vinte e dois de maio estive no Rio de Janeiro participando do programa Conversa com o Autor, veiculado pela Rádio MEC AM. A atração é apresentada por Katy Navarro. Também participou do bate-papo o autor Juarez Nogueira. A conversa pode ser conferida aqui