quinta-feira, 27 de abril de 2017

Quase infantil

Rio nasceu,
foi para o mar.
Eu nasci,
fui para amar.

Rio nasceu,
foi para o mar.
Eu nasci
foi para amar. 

Ninguém

Nem o religioso
nem o imperador.

Nem o gênio
nem o milionário.

Nem o gari
nem a Nasa.

Nem o empresário
nem o marceneiro.

Nem a Rosa Cruz
nem o imbecil.

Nem o professor
nem o ateu.

Nem o sábio
nem o louco
nem o biólogo
nem a secretária
nem o padeiro
nem Choderlos de Laclos
nem o médico
nem Joaquim
nem Camila
nem Mateus
nem Marcos
nem Lucas 
nem João.

Ninguém sabe.
Ninguém soube
se o caminho da vida
continua ou termina
começada a morte. 

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Igreja católica diz não a proposta de Temer

Recentemente, o papa disse não para Temer. Francisco recusou convite do presidente para que viesse ao Brasil. Em texto divulgado pelo Vaticano, o chefe da igreja católica alega que não virá porque os mais pobres pagam o preço por “soluções fáceis e superficiais para crises”.

O episódio não é simples recusa diplomática para um convite, já que o argentino alega que não virá ao país por causa dos rumos que a equipe de Temer deu à economia, em que os mais pobres serão os prejudicados. Não bastasse, vale lembrar que o Vaticano disse não a um convite feito pelo presidente de uma das maiores nações católicas do planeta.

No plano local, a igreja também se posicionou quanto às ideias da equipe de Temer, em especial contra a Reforma da Previdência. Claudio Nori Sturm, bispo da diocese de Patos de Minas, emitiu documento em que menciona a diminuição dos direitos que o governo de Temer quer implementar. Na nota, o chefe local da igreja católica sugere que as paróquias fechem as portas na sexta-feira, como protesto contra a decepante reforma da previdência. 

A história por trás da foto (103)

Ontem à noite, em companhia de amigos, fui mais uma vez ao sítio do Bosquinho. Um dos objetivos era fotografar as estrelas.

A impressão que tenho é a de que, se eu pudesse, faria somente fotos noturnas. Há algo nas longas exposições, necessárias para se fotografar, dentre outras coisas, as estrelas, que me atrai demais. É que elas, as longas exposições, são um modo de brincar não somente com a luz e com a técnica fotográfica, mas também com o tempo. Também por isso, lidar com fotografia me fascina.

O tempo de exposição desta foto é de quarenta e seis minutos. Na prática, isso significa que, uma vez tendo sido o obturador disparado (o obturador é o botão que se aperta para que a foto seja tirada), a câmera ficou tirando uma única foto durante esses quarenta e seis minutos. Obviamente, o equipamento estava sobre tripé. O disparo é feito com um cabo conectado à máquina fotográfica, de modo que não preciso ficar com o dedo no botão dela enquanto a foto é tirada.

Os fachos luminosos na imagem são gerados por causa da rotação da Terra. Recapitulemos: a “duração” da foto foi de quarenta e seis minutos. Nesse tempo, a Terra girou. Girando, causa a sensação de que as estrelas mudaram de lugar. A rigor, mudaram, mas isso não importa agora. O que importa é que os fachos são produzidos graças ao movimento de rotação da Terra sobre o próprio eixo. Quanto maior a “duração” do registro, maiores serão os fachos.

Para esse tipo de foto, é bom que se esteja fora de áreas urbanas. Quanto mais longe das cidades, melhor, pois luzes artificiais interferem na imagem. Tendo achado um lugar assim, caso haja luzes artificiais por perto, como, por exemplo, as da casa de uma fazenda, é bom que sejam apagadas. Apague as luzes e acenda as estrelas. É preciso ainda não haver nem Lua nem nuvens.

Muito obrigado ao Bosquinho e à Silene, esposa dele, que tão bem nos receberam no sítio. Espero voltar em breve, seja para um bate-papo, para fotografias, para curtir a atmosfera do lugar. 

Apontamento 361

Há quem diga que a inspiração não existe, que o ato de escrever dependeria, sim, de disciplina, de hábito, de rigor mental. Não descreio nem da inspiração nem da disciplina. Em meu caso, há textos que são pensados, calculados, que surgem a partir de uma decisão; já outros me ocorrem em momentos em que não era minha ideia escrever nada. Esse lampejo pode ocorrer por diversas razões. Há muito do inconsciente na inspiração. A impressão que tenho é a de que quanto mais leio, mais meu inconsciente vem à tona manifestando-se por intermédio de palavras. 

terça-feira, 25 de abril de 2017

Não me pediram para ler

Lendo o saboroso “Nonrequired reading”, da poeta Wisława Szymborska (1923-2012), que era polonesa. Não há edição do livro em português; a versão em inglês ficou por conta de Clare Cavanagh. 

Em “Nonrequired reading”, a autora escreve sobre livros que não estiveram em listas dos mais vendidos, obras que não pertencem à literatura de imaginação. Assim, há resenhas sobre livro de como consertar coisas em casa, sobre aves e pássaros da Polônia, sobre cães, sobre dois arqueólogos dos EUA...

O mais curioso nas breves resenhas que Szymborska escreve é que ela quase não fala dos livros que está, em teoria, resenhando. Em vez de falar sobre ela, a obra, a poeta embarca em saborosas, leves e bem-humoradas divagações. Sem cabotinice, acaba revelando mais de si do que dos trabalhos que (não) comenta. 

A sagacidade e o talento para enxergar questões triviais a partir de um ângulo inusitado estão presentes nos textos de “Nonrequired reading”. Também neles a sofisticada simplicidade pela qual Szymborska se tornou conhecida.

Sou um entusiasta da autora; em conversas com amigos, eu a menciono com frequência, já escrevi alguns textos sobre a obra dela. É uma pessoa que eu queria ter conhecido pessoalmente. Eu tentaria ser amigo dela. Ela me deixa com a impressão de que eu me sentiria à vontade para propor a ela a gente tomar uns chopes e jogar conversa fora. 

Adentro

Abre.
Vou entrar com vontade.
Enquanto eu estiver descobrindo
delícias não imaginadas,
que eu te faça conhecer
prazeres não concebidos. 

Fotopoema 404

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Outra exortação

Sê poeta de caso pensado.
Ou de caso sentido.
Ou de caso pensado e de caso sentido.
Ou de caso casado ― desde que comigo. 
Tu és poesia que se move.
Move-te!
Escreve teu poema,
escreve tua alma,
teu ardor
ou tua tristeza.
Escreve qualquer coisa.
Não deixes o mundo
sem tuas palavras.
Tens em mim um leitor
e o que mais quiseres de mim. 

Faça-se máquina

A máquina é deus.
Mecanismo motorizado,
idolatrado automaticamente.
Há um deus?
Por via das dúvidas,
criemos um.
Que ele seja metálico,
cheio de engrenagens,
sedutor em sua aparência sólida.
Em contato com a máquina,
seremos deuses,
invencíveis como dínamos,
motores de felicidade,
senhores da eficácia,
moto-perpétuo produtivo.

Deus ex machina. 

sábado, 22 de abril de 2017

As redes sociais somos nós

As empresas donas de redes sociais sabem muita coisa de nossas vidas por intermédio dos dados que nós mesmos fornecemos a elas. A partir daí, chegam até nós os anúncios que em tese vão nos seduzir, de acordo com as informações que passamos para os que gerenciam tais redes. Nesse jogo, todos se divulgam, divulgam sua visão de mundo, sejam indivíduos, sejam empresas. 

Quanto à interação entre os indivíduos, a ideia que é vendida é a de que as redes sociais existem para divertir, para nos conectar, para que tenhamos acesso, ainda que virtual, ao outro, embora, na prática, a rusga, no mais das vezes, seja mais real do que a divulgada sintonia. O que supostamente é congraçamento torna-se, na verdade, invasão ou ausência de privacidade; com frequência, opiniões são substituídas por bate-bocas.

No caso dos aplicativos de mensagens, passamos quase a não ter a opção de não estarmos neles. Os aparelhos eletrônicos recentes os permitem; a sociedade nos “obriga” a fazer parte da “comunidade”, seja por causa da família, dos amigos, do trabalho. Intensificando o que dizem ser intercâmbio, surgem os grupos, que, não raro, levam a desentendimentos. Aqueles que não aderem a esses grupos seriam os turrões, os que têm pouca habilidade de interação.

Tanto em redes sociais quanto em aplicativos para mensagens, a fronteira que separa o público do privado vai se esmaecendo, de modo que, espontaneamente, as pessoas passam a expor a intimidade, seja a do corpo, seja a do pensamento, seja a do outro. Se não houver curtidas ou se a postagem não reverberar num grupo, a pessoa se sente ultrajada, não valorizada, ignorada.

Dependente da curtida ou do comentário do outro, o que se divulga é a ideia de felicidade e de exercício do instinto gregário, num universo de que nem ensimesmamento nem tristeza nem solidão fazem parte; todos estão vivendo a melhor das vidas. Quando não é assim, muitos partem para o oposto, que é expor as mazelas psicológicas em confissões públicas, fazendo de redes sociais um perigoso e falso consultório terapêutico, lotado de espectadores, desnudando para muitos os fantasmas da alma.

Não seria razoável dizer que redes sociais não possam ser prazenteiras para o indivíduo; não faria sentido negar as vantagens comerciais que podem ser alcançadas por intermédio delas. Até recentemente, emissoras de rádio e de TV, bem como periódicos, eram os meios pelos quais se divulgavam marcas, eventos, espetáculos, carreiras artísticas... Hoje, há quem invista apenas em redes sociais para divulgar o próprio trabalho ou a empresa. 

O problema surge é no indivíduo, que, muitas vezes, em suas carências ou fraquezas, torna-se refém de aplausos virtuais, de glórias tênues, passageiras e ilusórias. Ou quando torna públicas suas facetas mais obscuras e bizarras. 

Corporais

De teu corpo,  
mapear cada elevação
e reentrância.
Esquadrinhar cada poro,
percorrer com segurança 
e com capricho cada curva.
De teu corpo,
sentir cada gosto,
estar dentro de onde for possível.
O amor que faço contigo
é tributo que presto 
a teu corpo,
morada de delícias.
Fazer amor contigo é 
glorificar nossos corpos,
é tê-los felizes,
é saber que
um corpo no outro 
é o corpo do amor. 

Gesto

Não consigo não olhar.
Embevecido, reparo em ti.
Teu corpo é um gesto de amor. 

Conto 93

Amaral sentia desconforto quando estava em algum restaurante e percebia que gerentes ou donos tratavam com má educação os funcionários. Quando isso acontecia, ele não mais voltava ao lugar. De tanto se deparar com superiores ríspidos nos locais a que ia, Amaral decidiu abrir seu próprio restaurante, na intenção de praticar um relacionamento gentil no trato com a equipe de trabalho. Hoje em dia, cinco meses depois de inaugurado o restaurante, trata os funcionários com grosseria. 

terça-feira, 18 de abril de 2017

Rio fluente

A cidade é rio de janeiro.
Tu és rio de novembro.
Eu sou rio de outubro.

Deságua em mim
para que eu deságue em ti.
Duas águas, um rio.
O poema é rio que não seca. 

Renascer

Que nascemos, sabemos.
Depois de nascer, renascer.
Viver entedia.
O renascimento 
mostra que não 
fizemos nascer 
tudo o que nasceu 
desde que nascemos.
O renascimento é 
vislumbre de vida no que
já não era susto nem espanto,
ser inédito em velho corpo.
Quem renasce quer viver mais.
Não basta nascer.
Vida que vale a pena renasce. 
Tu renasces. 

Preliminares

Quando estás por perto
é o amor que está ao lado.
Tua presença é amor.
Teu corpo, exalando amor,
recebe o amor meu que é teu.

Nosso amor está deitado e junto.
Mas já era cultivado fora daqui. 
Estava sendo feito fora do quarto.
Nossas palavras, desejo verbalizado.
O amor que fazemos é 
construído fora da cama, 
a chama é acesa à distância.
Os corpos unidos, expressão 
de desejos acalentados, prementes.
A epiderme se regozija
no que o desejo havia atiçado. 

O rio do amor

Amor é rio caudaloso.
Em seu caminho,
se preciso, 
corre fora das margens; 
em sua lógica, 
se necessário,
corre montanha acima. 

Lua minha e tua

Eu olho para a Lua.
Tu olhas para a Lua. 
Nosso mesmo amor
olha para a Lua.
Que a mesma Lua
que olhamos
olhe por nós. 

sábado, 15 de abril de 2017

Odebrecht

O Brasil
é um país
em desconstrução.

(Desde 1500.) 

Passeio pelo cerrado





Necessidade

1
O amor,
quando se declara,
não é 
devido a
evento externo,
mas a
revolução interna.
Amor não invade:
transborda.

2
Meu verso,
minha fala,
meu gesto,
meu gozo.

Tu és amor
onde transbordo. 

Literatura

Procuro 
nas linhas,
nas entrelinhas,
entre as linhas,
sob as linhas
do tecido.

A poesia
que procuro
está na pele.
Nela escrevo
meu amor,
teu amor,
nosso enredo.

O texto que criamos 
eriça as peles. 

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Tinto

Poderia ter havido libações.
A garrafa envelheceu na adega.
Fora desta e sem aquela, 
ficamos velhos e cáusticos. 
As coisas sabem a velhice ruim.
Sem brinde, é o gosto que levaremos. 

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Noite e dia

O dia que amanhece
é sinal de vida que nasce. 
Não te esqueças, todavia,
da vida que a noite tece. 

Condições

Sou poeta
quando és musa.

Faz sentido 
quando és companhia.

Faço amor
quando és corpo. 

O verso do corpo

Tua existência na minha
se torna poesia. 
O que és me conduz 
a versos,
que formam estrofes.
Literatura feita
de corpos
que conhecem
o amor.
Enquanto existires,
a poesia estará por aí.
Enquanto me amares,
estarei aqui. 
O lugar do que sou
é o amor pelo que és. 

Em corpos

Das coisas reais,
tu és a mais deliciosa 
porque és amor.
Quem ama
quer um corpo.
Eu quero o teu,
pois ele é amor.
Quando nos amamos,
a ternura e
o tesão do amor.
Teu corpo e o meu
fazemos amores. 

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Passeio

Tu és provocante.
Tu és provocadora.
Tu me provocas poesia.
Basta que existas.

Inunda-te.
Embriaga-te.
Aqui estão as palavras.
Sei que passeiam
por teu corpo.
Vem passear no meu. 

Imperativo

Deixa-me jorrar poesia
em tuas mãos,
em tua boca,
em teu sexo.

Deixa-me te dar
a poesia do meu corpo,
que se compraz
na poesia do teu.

Dá-me teu verso,
teu reverso,
tua inteligência,
teu humor.

Dá-me teu sumo,
tua pele,
tua sede,
tua gula.

Dá-me o que és.
O que sou é teu.
Bebe estes versos
que a ti eu devo. 

Achado

1
No amor, busco o corpo.
Teu corpo, busquei.
Já te amava sem achar teu corpo. 
Achando, achei o que busco,
que é o corpo do amor.
Nossos corpos dão 
casas à imaginação.

2
Tu dizes que sou um achado.
O maior achado meu 
foi ter te achado.

Tu existes. 
Tu me amas.
Tu me achas.

Eu existo.
Eu te amo.
Eu te acho.

Sempre que estou inteligente,
sempre que estou inspirado,
sempre que estou espirituoso,
estás presente de algum modo.

Tu és centelha de paraíso
a pisar a terra que habitamos.
Tu és pedaço de céu
que amo com vigor.

Dá-me teu céu.
Sou teu,
em chão
e em sonhos. 

domingo, 2 de abril de 2017

Escrevo

Escrevo quando estou mal.
Escrevo quando estou mau.
Escrevo quando estou bem.
Escrevo quando estou bom.

Escrevo quando penso.
Escrevo quando sinto.
Escrevo quando teorizo.
Escrevo quando ajo.

Escrevo quando sou crença.
Escrevo quando desisto.
Escrevo quando há solidão.
Escrevo quando há nós.

Escrevo quando na estrada.
Escrevo quando no quarto.
Escrevo quando é dia.
Escrevo quando há estrelas.

Escrevo quando começo.
Escrevo quando termino.
Escrevo durante.
Escrevo antes e depois.

Escrevo para mim.
Escrevo para você.
Escrevo para todo mundo.
Escrevo para ninguém.

Escrevo e jogo fora.
Escrevo e guardo.
Escrevo e releio
Escrevo e publico.

Escrevo e reescrevo.
Escrevo de uma vez.
Escrevo e corrijo.
Escrevo e sou escrito.

Escrevo com rapidez.
Escrevo com demora.
Escrevo com a razão.
Escrevo com o instinto.

Escrevo o meu sim.
Escrevo o meu não.
Escrevo o meu tom.
Escrevo o fim do texto. 

Comunhão

Os dedos se buscam,
as mãos se acham.
De mãos dadas, seguimos.
Somos duas comunhões comungando.
O descanso do amor é terna caminhada.
Duas uniões se unindo.
Não há sentido em sermos 
se não somos um para o outro;
o sentido de caminharmos
é caminharmos um para o outro.
Em móvel e antiga  busca,
nossos corpos fazem outra vez
o amor que fazemos um para o outro. 

Meus livros à venda

Meus dois últimos livros estão à venda na Livraria Cultura. Para pedi-los, basta clicar aqui

Literatura

Nosso amor estava
escrito mas estrelas.

Eu escrevi. 

Céu e terra

1
Ter contato com teu corpo 
é ter contato com uma deusa,
que me remete à beleza do amor,
que passa pela beleza do corpo.
Eu meto, teu corpo remete.
Vigor e poesia se fundem em gozo.
Força e ternura se fodem em gozo.
Outrora rarefeito, o amor é feito.
Somos telúricos e conhecemos o céu.
Concretos e plenos de transcendência,
os corpos estão doidos para se remeter.

2
Minha natureza, 
tua natureza, 
a natureza:
vento leve no cerrado,
nossos corpos estirados;
a nos cobrir, 
teto azul 
salpicado por nuvens.
Rodeados
de céu e de terra,
somos celestiais 
e telúricos;
animais na natureza, 
fazemos um amor
natural e elevado.

Verdes vales,
árvores, montanhas,
brisa e luz.
Somos amor claro
a céu aberto.
Naturezas
sendo naturais,
somos dois corpos
no chão a tatear
o paraíso.

3
Para nos amar,
buscamos o cerrado.
Nele, o topo da montanha,
onde é nosso lugar,
pois, quando há nós,
com os pés no chão,
buscamos os céus. 

A criança em nós

A criança tem o dom de se encantar. Não há rotina para ela. Para ela, tudo é significante, tudo tem significado ou tem encanto ou mistério. À medida que nos tornamos essa coisa chata chamada adulto, vamos perdendo o dom do maravilhamento. O ideal seria não perdermos o senso do espanto, usufruindo dele com os recursos do adulto. Faríamos prodígios. 

terça-feira, 28 de março de 2017

Por dentro

Primeiro ela me levou para dentro da casa.
Depois ela me levou para dentro dela.
Não quero mais quero sair de dentros.

Primeiro ela abriu a porta da casa.
Depois ela se abriu.
Não me entristece mais o sabor de foras. 

segunda-feira, 27 de março de 2017

Poemas de minha autoria em prova da UFU


A UFU, Universidade Federal de Uberlândia, tem a chamada prova de portador de diploma. Ela é aplicada para quem já tem uma graduação e quer fazer outra graduação em área similar.

Recebo informação de que três poemas de meu penúltimo livro, o Dislexias, fizeram parte da mais recente prova de literatura da prova de portador de diploma. Nesta postagem, foto da página da prova em que há a questão que contém meus poemas. Abaixo, a transcrição dela.
_____

Questão 01

Texto I

Casou-se numa bela
manhã de sábado. 
Estava linda. 
Há coisas de meses, 
nem suspeitava de que 
casar-se-ia 
de fel e grinalda.

MEDEIROS. Lívio Soares de. Dislexias. Lisboa. Chiado. P. 25.

Texto II

Passar a matéria 
no quadro ou não? 
Eis o giz da questão.

MEDEIROS. Lívio Soares de. Dislexias. Lisboa. Chiado. P. 37.

Texto III

O envolvimento com a leitura, 
a busca pelas palavras, 
as tentativas de publicação. 

Serei olvido.

MEDEIROS. Lívio Soares de. Dislexias. Lisboa. Chiado. P. 42.

Considerando a leitura dos poemas (textos I, II e III) e seus recursos estilísticos, pode-se afirmar que

A) a ironia perpassa os poemas e revela o desencanto do eu lírico.
B) a aliteração dá, em cada poema, nova roupagem a expressões populares.
C) o eufemismo renova a experiência estética do leitor em cada poema.
D) o trocadilho dá fundamento ao entendimento de cada poema. 

Sem tempo e sem lugar

Diante de ti, vivo em um não tempo,
em um não lugar que é onde estou.
Vivo o tempo e o lugar da beleza.
Nesse tempo, não há convenção,
esse lugar não tem endereço.
Há o apenas ser diante de ti,
que apaga toda a noção do que
há ao redor, fazendo com que
a realidade seja o que há em mim
quando eu estou diante de ti.
Não há lugar, não há tempo.
Há meu corpo e teu corpo,
numa dimensão outra que é
a dimensão da beleza de dois
corpos que se unem para amar. 

domingo, 26 de março de 2017

Em gesto

As coisas não ditas dariam livro.
As coisas não feitas dariam vida.
Eu poderia escrever um novo “Tabacaria”.
Não há como, pois não sou um novo Álvaro de Campos.

Meu não realizado não se realizará num poema.
O não dito que daria livro,
o não feito que daria vida,
eu sou pleno deles.

Não tenho um “Tabacaria” em meu passado,
não tenho uma vida rica em meu currículo.
Meus sonhos e devaneios não me redimem.
O que fica de mim é a memória, não a quimera. 
O que em mim é ato é feito de pequenos gestos.
São eles o meu legado. 

quinta-feira, 23 de março de 2017

"Esperando Godot"

O sentimento é de quase pena dos personagens quando se lê “Esperando Godot”, do Samuel Beckett. Não conseguem sair do emaranhado em que estão. A espera deles por Godot, no antienredo de Beckett, é o que define o destino deles. Calharam de estar juntos, mas nem sabem o que isso significa, se é que significa algo, nem sabem o que fazer com isso. Há um desespero, uma angústia de que se dão conta turvamente, mas que manifestam.

“Não somos feitos para a mesma estrada” [1], Estragon diz para Vladimir em determinado momento. Uma estrada inócua, improdutiva. A despeito disso, prosseguem, levando uma existência impotente. Enquanto os personagens esperam, ficam inventando o que fazer, mantendo diálogos em que tanto faz cogitar o suicídio, falar sobre sapatos ou mencionar Godot. Não há hierarquia de assuntos nos diálogos. Para eles, uma observação prosaica ou uma reflexão de cunho filosófico têm o mesmo peso. Os diálogos são expressão de abobamento e de desespero, um desespero de que os personagens não se dão conta com nitidez, embora consigam intuí-lo.

Outra fala de Estragon: “Estamos sempre achando alguma coisa, não é, Didi, para dar a impressão de que existimos?” [2]. Quer-se dar um sentido à existência, mas fora desse desejo não há nada que ajude os personagens a acharem algum senso na absurdidade da vida que levam enquanto estão esperando Godot. Estragon quer ter a impressão de que existe. Depois, é a vez de Vladimir:

“O certo é que o tempo custa a passar, nestas circunstâncias, e nos força a preenchê-lo com maquinações que, como dizer, que podem, à primeira vista, parecer razoáveis, mas às quais estamos habituados. Você dirá: talvez seja para impedir que nosso entendimento sucumba. Tem toda razão. Mas já não estaria ele perdido na noite eterna e sombria dos abismos sem fim?” [3].

Eles maquinam, cogitam, tentam, mas o que rege a existência é a espera por Godot. A espera é estúpida, as vidas deles são estúpidas, o que fazem durante a espera é estúpido. Em toda essa estupidez, há um desespero, uma angústia de que se dão conta com clareza fugidia, mas que expressam. É desolador acompanhar os personagens enquanto tentam tirar do vazio a existência sem sentido que levam. Terminada a leitura, e, suponho, em maior intensidade, a peça, leitores e espectadores olham para si mesmos quase que com a mesa pena com que olham para os que esperam Godot.
_____

[1] BECKET, Samuel. Esperando Godot. Tradução e prefácio de Fábio de Souza Andrade. São Paulo. Cosac Naify. 2005. Pág. 107.

[2] Idem. Pág. 138.

[3] Ibidem. Pág. 161. 

quarta-feira, 22 de março de 2017

Movente

Tu és poesia
que move,
que se move,
que me move.

Tu és poesia
que comove,
que se comove,
que me comove.

Movida e comovida,
movendo e comovendo,
tu me comoves,
tu moves meu verso. 

Partida entre Atlético/MG e Flamengo é comentada no jornal The Guardian

Não é segredo que sou torcedor do Cruzeiro. À parte isso, tenho interesse pela história do futebol, além de não me deixar levar por babaquices de parte de torcedores, que desvirtuam não só o ato de torcer, mas também a convivência com quem é apaixonado pelo time rival. Desse modo, caso decida comentar esta postagem, gentileza se valer de tom civilizado e sem entusiasmos desarrazoados.
_____

A edição de hoje do jornal inglês The Guardian responde a um leitor que pergunta sobre a partida entre Flamengo e Atlético/MG, em 1981; o jogo era válido pela Libertadores. Por aqui, a história é bem conhecida: José Roberto Wright, o árbitro, foi, pouco a pouco, demolindo o time do Atlético.

Esse jogo, de fato, é uma vergonha. Se, por um lado, o Atlético tinha um baita time, o do Flamengo também era. O Flamengo não precisaria da ajuda do árbitro para superar a equipe mineira, que, por sua vez, era um dos poucos times que podia jogar de igual para igual contra aquele time do Flamengo. As duas equipes tinham brilhos similares.

Tudo é muito turvo, muito suspeito. É quase impossível não supor ter havido interesse de alguém em que o Flamengo saísse vitorioso, não importa como. A moral ou o moral não dão a vitória para ninguém, mas o vencedor moral dessa partida é o Atlético. 

terça-feira, 21 de março de 2017

Convivência

Quando o poema emperra,
não insisto.
Não insistir 
não é largar o poema.
Posso ir à padaria,
tomar banho,
escutar música.
Não acabado,
o poema está comigo.
Eu o rumino,
finjo que não penso nele,
faço de contas que o esqueci.
Se houver acordo, 
o poema será material.
Se não, um aperto de mãos.
Acharei outras palavras.
Ele achará outro escrevente. 

Dois

Eu sou um corpo que ama.
Tu és um corpo que ama.
Quando meu corpo te ama,
quando teu corpo me ama,
somos um corpo que ama. 

M, s, c, n, p, f

Mudou uma letra.
Da morte, 
fez a sorte.
Mudou de novo:
fez a corte,
fez o corte.
Foi quando 
mudou-se:
foi para
o norte.
E lá,
com porte,
tornou-se
forte. 

Matemática amorosa

666.
999.

69.
69.
69. 

Ao vivo

Para a musa, 
poesia ao vivo.

Para a musa, 
vivo poesia.

Para a musa,
viva a poesia.

Para a musa,
vive a poesia.

A musa para:
poesia viva. 

Já leu meu novo livro?...

segunda-feira, 20 de março de 2017

Incidência

Quem é o autor dessa coincidência 
que me faz ficar bem sempre que
você está por perto?

Se descubro quem é,
aproveito e pergunto a ele o que fazer 
para que a coincidência nunca deixe de incidir. 

À risca

Não seguem tudo à risca
o homem da corda bamba quando passeia sobre um risco,
Usain Bolt quando flutua entre dois riscos,
o jogador quando inventa dentro de quatro riscos.

Qual é teu risco? 

sexta-feira, 17 de março de 2017

Presença

Tu me levas 
em tua dor que achas gostosa.
Tu me levas 
em tua umidade que sei gostosa.

O amor,
que não fica para depois,
fica depois. 

Cio

Teu cio me chama,
me esquenta, 
me desponta.

Conheço teu cio.
Dele, sei o cheiro e o sabor.
Eu me embrenho em teu cio.

De corpos unidos,
proferindo amor,
somos animais ciosos. 

Amor de Palavra à venda

quarta-feira, 15 de março de 2017

Livros à venda

Exemplares de meu mais recente livro, Amor de Palavra, já estão à venda na RR, Renato Representações, que fica no prédio da Rádio Clube, na Olegário Maciel 405.

Caso se interesse, há também exemplares do Dislexias, meu livro anterior. 

terça-feira, 14 de março de 2017

Exortação

Não entendo mesmo esse pessoal que anda querendo se aposentar jovenzinho. No mínimo, isso é egoísmo. Coisa de gente que só pensa em si, sem dar a mínima para o país. Detesto quem não se importa com a terra onde nasceu. Do que o Brasil precisa para dar o salto definitivo rumo ao progresso é de gente que assume o dever de trabalhar não para si, mas para os outros, para o país.

Eu me aposentei aos cinquenta e cinco anos, não contribuí com o que estou exigindo dos brasileiros, mas estou aqui apresentando o que é a solução para meu querido país, e para que a solução seja implementada, preciso da ajuda dos brasileiros que de fato vestem as cores do país, não tendo medo de assumir que não têm preguiça, que estão a fim de trabalhar para que sejamos um país desenvolvido, cônscio de que é necessário que trabalhemos muito para que sejamos grandes como merecemos ser.

Sou um homem de família. Tenho esposa, que é bela, recatada e do lar. Tenho filho pequeno. Sou um estadista, um homem responsável. Sei usar a mesóclise corretamente. Sou respeitado dentre meus pares, sou admirado pelo homem que sempre fui e pelo estadista que estou sendo. Tenho a consciência tranquila de que meu nome ficará na história como aquele que deu ao Brasil uma nova mentalidade, uma mentalidade progressista, em sintonia com novos tempos, apta a traçar para os futuros brasileiros um caminho próspero e rico.

Não entendo essas pessoas que dizem ser preciso trabalhar menos para que se possa desenvolver os potenciais de cada um. Ora, o potencial de cada um somente pode ser desenvolvido quando o ser mergulha integral e honestamente na vida em sociedade. É a sociedade que merece a dedicação total do ser. Quando digo a sociedade, eu me refiro ao Brasil. Os planos pessoais, os talentos pessoais e até alguma suposta genialidade são pequenos diante da grandeza que é fazer algum esforço pelo país.

Reparem: eu disse algum esforço. Com a proposta de novas regras para a aposentadoria, nem estou pedindo muito. Estou pedindo o mínimo que um brasileiro digno e verdadeiramente preocupado com o país pode fazer para que em uníssono, num todo coeso, vibrante e preocupado com o futuro, possamos trilhar um caminho de trabalho coletivo.

Povo do meu amado Brasil, vamos trabalhar juntos para que a nação seja grande. Não escutem aqueles que dizem ser impossível o desenvolvimento pleno do ser por causa das regras de aposentadoria que estou propondo. Isso é lorota de vagabundo que não está a fim de trabalhar. Tenho certeza de que o Brasil não é terra de vagabundos. Somos um povo trabalhador. Por isso mesmo, sei que, ao final, o Brasil vai me dar razão. É preciso trabalhar, meu povo. Vamos arregaçar as mangas, brasileiros! Lá fora há todo um país a ser construído. Conto com vocês. Muito obrigado.

Assinado: presidente Miguel Tener