quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Inteligência banida

Deve ser muito difícil escrever ou falar na obrigação de causar polêmica ou na de vender muito. Causar polêmica é fácil, mas fico pensando em quantos espíritos muito capazes têm de usar seu talento em textos escritos com o único propósito de causar impacto midiático ou com o único propósito de soar polêmico ou, o que é pior, de soar verdadeiro quando não passa de engodo.

Mesmo o público que supõe consumir informação densa ou que a ela tem acesso está acostumado a se guiar pela falta de análise e de profundidade. Para esse público, Boechat morreu porque criticou Malafaia, um texto de meia página é chamado de textão. Esse público, precisamente por ser superficial, vende-se ou rende-se ao “jornalismo” de grupos de WhatsApp, incentiva o “debate” com memes de gosto duvidoso e de teor mentiroso, preconceituoso; é um público que não produz ideias, que não consome ideias. A fim de faturar e de agradar a esse grupo superficial, além, é claro, de manter o cabresto nesses superficiais leitores, espectadores e ouvintes, grande parte da chamada grande mídia não faz jornalismo. O que essa grande parte da mídia tem feito é tão superficial quanto o público que a alimenta e por ela é alimentado, numa danosa, perigosa e acomodada via de mão dupla.

De um lado, o jornalismo não se aprofunda por querer um mau leitor; do outro, o leitor nada exigente continua acessando a grande mídia porque o que ela oferece é palatável, embora esquálido e, não raro, mentiroso. Aquele que quiser uma análise sem os vícios da preguiça e da falta de profissionalismo tem de fugir de veículos consagrados (Veja, Estadão, Globo, Jovem Pan...), os quais iludem muitos consumidores, que acreditam no arremedo de jornalismo dessas e de outras grandes corporações.

Para o ouvinte, o espectador ou o leitor exigente e que não seja bobo, uma alternativa é o jornalismo independente, não vinculado às grandes corporações; outra é o jornalismo do exterior ou o jornalismo de algumas empresas estrangeiras que atuam no país (The Intercept, Le Monde Diplomatique Brasil...).

Inteligências com muito a contribuir nas redações vão sendo banidas das grandes empresas, que passam a dar espaço a subservientes e a pessoas sem lastro como um Kim Kataguiri. São poucos os que sabem escrever, que sabem pensar, que sabem analisar e que não têm preconceitos a ter espaço nas megacorporações midiáticas nacionais. Elas preferem um papagaio puxa-saco a um profissional questionador. Num espaço assim, as grandes inteligências, caso não consigam outro ambiente para trabalhar, não florescem. Pelo menos, não para o leitor, o espectador ou o ouvinte. 

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Superfície

Se o Marcos Pontes contradissesse em público e com veemência (ele não fará isso) os que dizem que a Terra é plana, setores do governo federal resolveriam a questão rapidamente: acionariam ruralistas ricaços e pediriam a estes que passassem o trator sem dó. Fariam planície a perder vista. 

Quatro homens e meio

Levei um susto há pouco. Diante da manchete “homens estão casando com 4,5 homens ao mesmo tempo”, eu a li assim: “Homens estão casando com quatro vírgula cinco homens ao mesmo tempo”; ou então assim: “Homens estão casando com quatro homens e meio ao mesmo tempo”.

Ainda sem entender nada, leio que a fala é atribuída à ministra Damares. Pensei então: “Vindo dela, tudo é possível”. Quando assisti ao vídeo, entendi que a leitura minha deveria ter sido esta: “Homens estão casando com quatro, cinco homens ao mesmo tempo”. Três coisas contribuíram para meu erro: eu mesmo, a Damares e o fato de o redator ter escrito o trecho “casando com 4,5 homens” sem espaço depois da vírgula. Uma redação um pouco melhor seria “homens estão casando com 4, 5 homens ao mesmo tempo”, ou, melhor ainda, “homens estão casando com quatro, cinco homens ao mesmo tempo”.

Precisamente por ser a Damares, ainda fiz, a fim de me divertir, uma rápida conta. Se a ideia fosse a de que um homem estivesse se casando com quatro homens e meio, para se ter números (e seres) inteiros, haveria então que dois homens estariam se casando com nove.

À parte minha incorreta interpretação, fiquei me perguntando de onde a Damares extraiu o dado de que “homens estão casando com quatro, cinco homens ao mesmo tempo”. Terá sido pesquisa realizada durante o “mestrado” dela?
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O texto acima está em meu perfil no Facebook. Elisa Guedes Duarte, cronista e leitora, deixou comentário na rede social: “De toda forma, Lívio, fiquei confusa. Um homem está casando com 4 homens ao mesmo tempo? Está falando de homossexuais polígamos? Seriam haréns gays?”.

Elisa, conforme resposta dada por mim após seu comentário no Facebook, não sei como seria a “logística” de acordo com o “pensamento” da ministra Damares. Ainda assim, tentarei imaginar possíveis cenários, indagações sobre como os enlaces dar-se-iam.

Para que o raciocínio se desdobre, imaginemos, a princípio, cinco hipotéticos homens cujos nomes, para o que importa agora, seriam A, B, C, D e E. A ministra disse que “homens estão casando com quatro, cinco homens ao mesmo tempo”. Digamos, então, que A tenha se casado com B, C, D e E. Nesse caso, B poderia se casar com C, D e/ou E? Ou B, nesse arranjo, teria de se casar com F, “que não tinha entrado na história”? Do que também não sei, é se A, tendo se casado com B, C, D e E, teria de escolher um deles para viverem sob o mesmo teto ou se todos teriam as chaves da mesma casa. Ou isso seria decisão de cada grupo de consortes?

As perguntas são retóricas, tentativas de entendimento sem resposta, pois somente a ministra poderia responder aos questionamentos. Mas posso estar sendo injusto: as respostas podem estar, quem sabe, numa goiabeira ou na “dissertação” de Damares. 

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Grandes olhos

O que me levou a assistir a “Grandes olhos” (2014) não foi a obra de Margaret Keane nem sua (no mínimo, curiosa) biografia. Eu quis assistir ao filme porque ele é dirigido pelo Tim Burton; os roteiristas são Scott Alexander e Larry Karaszewski. A não ser pelo bairro citadino retratado logo no começo do filme, “Grandes olhos”, disponível na Netflix, não tem o design de produção típico, algo fantástico e mágico dos filmes de Burton, o que não torna a película um trabalho menor do diretor.

Logo no começo, ficamos sabendo da proposta de Walter Keane (Christoph Waltz), marido de Margaret (Amy Adams): ela pintaria os quadros, mas ele fingiria ser o autor das obras, alegando que sem o tino comercial dele e sem o talento marqueteiro que ele tinha, as pinturas não venderiam. Walter, de fato, torna as criações da esposa uma fábrica de dinheiro.

O filme é curioso não somente pela história em si, mas também pelo fato de nos deixar com alguns questionamentos: o que é arte? o que é necessário ocorrer para que um trabalho seja considerado arte? quem decide o que é arte? a chamada grande arte pode ser comercial, enlatada? qual o poder do marketing naquilo que é considerado arte?... Dito assim, parece haver um excesso de questões a serem discutidas. Todavia, o tom do filme não é o de discutir tais questões, mas expô-las. Quem fica remoendo essas ideias depois que o filme termina é o espectador. Não bastasse, “Grandes olhos” é um retrato do que foi o mundo dos artistas descolados em meados do século, com seus experimentos, suas liberdades e seu... marketing...

Nós, cientes do quanto Walter Keane é um picareta, quase sentimos pela dele. No fundo, ele quer ser um artista, quer viver o mundo badalado da fama, usufruir as conquistas materiais que o dinheiro traz. Só não temos pela dele porque ele é um enganador, mas um enganador, pelo menos como retratado no filme, com um ponta de delírio ou de loucura. Ficamos sem saber se ele só age em nome da pilantragem ou também em nome do não conformismo com sua falta de talento para a pintura. Ele é um brilhante profissional do marketing, mas não é um artista.

(Para quem gosta de curiosidades: aos doze minutos e quarenta segundos, uma senhora pode ser vista ao fundo, sentada num banco, com um livro em mãos; ela é a Margaret Keane real. Amy Adams, que a interpreta, é a atual Lois Lane; num determinado momento do filme, entra em cena John Canaday, um crítico de arte do jornal The New York Times. Repare que Canaday é interpretado por Terence Stamp, que fez o general Zod nos clássicos filmes do Super-Homem com o Christopher Reeve na década de 80.)

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

"Como as democracias morrem"

Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, professores da Universidade de Harvard, escreveram “Como as democracias morrem” (2018). Didático (o que já fica claro no título) e em linguagem simples, o livro detalha como... as democracias morrem...

Para os autores, foi-se o tempo em que democracias sucumbiam a partir de estrondosos golpes militares, como os que a América do Sul conhece tão bem. Levitsky e Ziblatt alegam que no século XXI as democracias morrem a partir de estratégias que são legais ou que têm cara de serem.

Num primeiro exame, é paradoxal supor que uma democracia pode morrer (ou pode começar a morrer) a partir de estratégias legais ou constitucionais, já que a Constituição de países democráticos existe exatamente para garantir a democracia. Todavia, os autores, numa instigante, profícua e iluminadora reflexão, comentam sobre a letra da lei e o espírito da lei. E mais: não raro, democracias começam a ruir porque governantes ou exageram na letra da lei ou executam ações que, embora legais, quebram pactos de civilidade, de respeito e de diplomacia.

Palavras como comedimento, tolerância e discrição entram na intrincada fórmula que sustenta uma democracia, que no dia a dia, requer paciência. Não é, por exemplo, respondendo “isso não é da sua conta” a uma repórter que pergunta sobre ligações da família de um presidente com milícias que se joga o jogo democrático.

O livro defende a ideia de que regras informais são tão importantes para a democracia quanto as regras formais; jogar no lixo aquelas pode ser tão danoso à democracia quanto levar às últimas consequências estas. Ao manejo democrático das regras informais e das regras constitucionais, os autores dão o nome de “reserva institucional”: “Para nossos propósitos, a reserva institucional pode ser compreendida como o ato de evitar ações que, embora respeitem a letra da lei, violam o seu espírito. Quando as normas de reserva são robustas, políticos não usam suas prerrogativas institucionais até o limite, mesmo que tenham o direito legal de fazê-lo, pois tal ação pode pôr em perigo o sistema existente”. [1]

Os autores tocam na delicada questão de que os eleitores podem, de fato, não estar aptos a escolher com a razão seus governantes. Levitsky e Ziblatt escrevem que a responsabilidade de impedir que políticos com viés autocrata disputem eleições é dos partidos políticos. Os autores são peremptórios: “Os partidos políticos são os guardiões da democracia”. [2]

Para que a democracia esteja robusta, num cenário em que os partidos tenham filtros que impeçam a ascensão de antidemocratas, é preciso, que eles, os partidos, estejam fortemente comprometidos, é claro, com a democracia e com a reserva institucional. A partir do momento em que ataques pessoais e rixas políticas levam ao rompimento das regras informais, a democracia está em risco.

“Como as democracias morrem” lida com o contexto dos EUA e contextualiza o surgimento de Donald Trump, típico autocrata. Ao contextualizaram, os autores mencionam golpes contra a democracia na América do Sul. Não só por isso, o livro nos ajuda a entender o momento pelo qual o Brasil passa. A obra é também sobre a importância da palavra que concilia, do espírito público e dos bons modos na política. São coisas que parecem simples. Quando faltam, damo-nos conta de que um regime democrático pode estar correndo perigo.

Mencionei sobre o didatismo do livro. Prova desse didatismo é uma tabela que os autores elaboraram para elencar os sinais de que um político é autocrata. Tomo a liberdade de compartilhar, a seguir, a tabela.

1. Rejeição das regras democráticas do jogo (ou compromisso débil com elas)

Os candidatos rejeitam a Constituição ou expressam disposição de violá-la?

Sugerem a necessidade de medidas antidemocráticas, como cancelar eleições, violar ou suspender a Constituição, proibir certas organizações ou restringir direitos civis ou políticos básicos?

Buscam lançar mão (ou endossar o uso) de meios extraconstitucionais para mudar o governo, tais como golpes militares, insurreições violentas ou protestos de massa destinados a forçar mudanças no governo?

Tentam minar a legitimidade das eleições, recusando-se, por exemplo, a aceitar resultados eleitorais dignos de crédito?

2. Negação da legitimidade dos oponentes políticos

Descrevem seus rivais como subversivos ou opostos à ordem constitucional vigente?

Afirmam que seus rivais constituem uma ameaça existencial, seja à segurança nacional ao modo de vida predominante?

Sem fundamentação, descrevem seus rivais partidários como criminosos cuja suposta violação da lei (ou potencial de fazê-lo) desqualifica sua participação plena na arena política?

Sem fundamentação, sugerem que seus rivais sejam agentes estrangeiros, pois estariam trabalhando secretamente em aliança com (ou usando) um governo estrangeiro — com frequência um governo inimigo?

3. Tolerância ou encorajamento à violência

Têm quaisquer laços com gangues armadas, forças paramilitares, milícias, guerrilhas ou outras organizações envolvidas em violência ilícita?

Patrocinaram ou estimularam eles próprios ou seus partidários ataques de multidões contra oponentes?

Endossaram tacitamente a violência de seus apoiadores, recusando-se a condená-los e puni-los de maneira categórica?

Elogiaram (ou se recusaram a condenar) outros atos significativos de violência política no passado ou em outros lugares do mundo?

4. Propensão a restringir liberdades civis de oponentes, inclusive a mídia

Apoiaram leis ou políticas que restrinjam liberdades civis, como expansões de leis de calúnia e difamação ou leis que restrinjam protestos e críticas ao governo ou certas organizações cívicas ou políticas?

Ameaçaram tomar medidas legais ou outras ações punitivas contra seus críticos em partidos rivais, na sociedade civil ou na mídia?

Elogiaram medidas repressivas tomadas por outros governos, tanto no passado quanto em outros lugares do mundo? [3]
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[1] Levitsky, Steven. Como as democracias morrem. Steven Levitsky, Daniel Ziblatt. Tradução de Renato Aguiar. 1. ed. Rio de Janeiro. Zahar. 2018. P. 107.

[2] Idem. P. 31.

[3] Ibidem. Pp. 70 e 71. 

Rejeitos

Flexibilizem as leis,
peguem leve nas multas.
Melhor ainda: não multem.
Façam tudo o que for preciso.
O que acontece na empresa
não é da nossa conta.
Rejeitos, a gente enterra.
Ou a empresa enterra.
Ou não. 

Peça teatral em um ato

O Comandante — Prestem atenção. Serei breve. Quem gostou da rapidez do nosso amado comandante lá em Davos vai gostar mais ainda desta reunião. Primeiro: universidade é para uma elite. Certas coisas, a gente varre pra debaixo do tapete; certas coisas, a gente cobre de lama...

Um dos comandados — Mas...

O comandante — Eu não dei autorização pra ninguém falar. Se houver barragem, a gente chama um soldado e um cabo. Eles resolvem; isso é tranquilo. Mas se não resolverem, sem problema: a gente chama milícias. A gente vai liberar o desmatamento; o mundo já tem árvores demais. Vai ficar tudo legal; vamos flexibilizar a lei.

O mesmo comandado que já havia tentado falar — Senhor, mas a elite também respira.

(Nesse momento, as moléculas do ambiente ficam estáticas. O estômago de um dos burocratas dá volteios — que o diretor se vire para inserir isso na peça.)

O comandante — Depois da reunião, me procure em meu gabinete. Garanto que sua respiração não será a mesma quando você sair de lá. Reunião encerrada. Voltem ao trabalho.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Springsteen on Broadway

Se você não é careta, se gosta de música, se gosta de rock, se gosta de Bruce Springsteen, se gosta de filosofia, se gosta de literatura, se gosta de teatro, se tem senso de humor, se sabe o que é amizade, assista a Springsteen on Broadway, disponível na Netflix.

Quando começo a me perguntar para que serve a vida, leio páginas de Borges ou de Choderlos de Laclos, escuto “‘Heroes’” ou “Gimme shelter”, pulo desvairado no chão aqui da sala ao som de “Lose yourself to dance” ou resgato Machado de Assis, revejo Um beijo roubado ou saio para fotografar.

Springsteen on Broadway nem havia terminado e eu já sabia que era uma dessas realizações que carregarei comigo. O espetáculo é trabalho de artista maduro, consciente de si, no domínio do que é capaz de realizar. É uma dessas coisas de que me valerei quando começar a me perguntar para que serve a vida. 

Exílio

Celebrar quando um cidadão, não importa quem ele seja, anuncia que deixará o país natal por estar sendo ameaçado é prova de falta de empatia e de burrice. É não perceber o perigo que há quando um cidadão é ameaçado devido a seu democrático posicionamento político. Comemorar o exílio de alguém quando esse alguém está ciente de risco de morte é desumano, é não entender a erosão da democracia, é não entender o que são as regras informais da convivência e da política; é recusar-se à civilidade. Há quem prefira coadunar com atrocidades; sabemos que não há pessoas assim no Brasil. 

Crenças

Há quem acredite
em Terra plana,
em goiabeiras divinas,
em milicianos,
em torturadores,
em quem barra informações,
em quem libera toxinas,
em quem derruba árvores,
em quem inventa ameaça de comunismo,
em quem faz vários depósitos em poucos minutos,
em quem acoberta garoto de quarenta anos...

Eu acredito em contos de fada. 

Coletiva

O economista: cansado?
O diplomata: cansado?
O ex-juiz: cansado?
O miliciano: cansado? 

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Em família

Fevereiro começa em dez dias.
Tens o privilégio,
tens o foro,
tens o fórum,
tens o Supremo.

Tem calma, garoto.
Em breve, vão te esquecer.
Tu tens chocolate e café, 
tens a goiabeira onde habita o Supremo.

Nós temos o motorista.
Filho, afasta de mim esse cálice. 

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Ventos

A brisa se esgueira 
por debaixo da saia dela, 
que aceita a investida, 
que vai cedendo espaço. 
Discreto, 
o vento vai superando tecidos, 
sondando reentrâncias. 
Ela quer, 
finge não querer, 
ela quer. 
A ventania a leva para os céus. 

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Desobediência

Os homens se esqueceram de que 
a poesia (n)os torna bonitos.
Tornaram-se rostos sem história, 
corpos armados, anacrônicos.
Mas tu és palavra que se move, 
eu sou verso procurando um corpo.
A beleza será nossa cortante rebeldia. 

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

"Caravela da Ilusão"

Recentemente, foi realizado o VI Festival de Teatro Universitário de Patos de Minas. Um dos espetáculos foi “Caravela da Ilusão”. Abaixo, resenha sobre o espetáculo escrita pelo professor, escritor e ensaísta Luís André Nepomuceno.
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O mundo sob as asas de um anjo
“Caravela da ilusão” mistura linguagens cênicas e põe à vista a prostituição do sagrado

Luís André Nepomuceno (*)

Em sua página no Facebook, a Companhia de Teatro Espaço Núcleo, de Limeira-SP, antecipa que “Caravela da Ilusão” é um espetáculo que tem a morte como sua protagonista. Ainda que seja verdade, isso diz pouco para a riqueza e a complexidade do espetáculo que venceu seis prêmios no VI Festival de Teatro Universitário de Patos de Minas, promovido pelo UNIPAM entre os dias 9 e 14 de outubro, com apoio da Secretaria de Cultura da Prefeitura Municipal. Na sinopse da grade de programação do Festival, a Companhia ainda nos informa que o espetáculo aborda a vida de uma família que se vê perdida numa ilha após um naufrágio.

Mas “Caravela da ilusão”, no entanto, também é mais que tudo isso. Com texto e concepção cênica de Jonatas Noguel, contando com Matheus Gonçalvez, Felipe Santos e Pablo Abritta no elenco, o espetáculo, bastante premiado em festivais pelo país, é uma visão sombria, mística, mas ao mesmo tempo cômica da existência humana. A família a que se refere a sinopse é metáfora de todos nós: depois de um naufrágio numa ilha que não remete a nenhuma geografia ou a nenhum local específico, num tempo que igualmente não remete a nenhum tempo histórico, a família se vê como sobrevivente numa terra que fora amaldiçoada por guerras. Pelayo tem um filho pequeno que não para de chorar, e a avó anseia por ficar surda para não ouvir o choro.

A rotina dessa gente é interrompida pela enigmática chegada de um anjo, que parece dar vida à ilha e curar a criança. Misto de encantamento e prosaísmo, não é um anjo representado na sua concepção convencionalmente cristã, mas uma figura ambígua, de asas negras, que fala língua estranha, que muda o cenário a seu redor, que é decadente e tem vestes em frangalhos. Sua presença, mais que sua chegada, é o retrato vivo das contradições que se impõem ao entendimento humano.

Mas frente a esse mesmo entendimento, não deixa de ser em essência um anjo. E cura. E de tal maneira cura, que a família, tomada de ambição, sujeita esse mesmo anjo a seu capricho materialista: expõe sua imagem à peregrinação dos necessitados, prostitui sua divindade, vende seu corpo. Desse comércio do sublime, a família herda senão aquilo que a caracteriza: a mundanidade, a total incompreensão dos segredos mais fundos da vida. Vem novo naufrágio, e todos deverão submeter-se uma vez mais à roda da vida e da morte, como quem nada entendeu da visita que recebera. Apenas uma criança, um “menino que viveu sozinho por anos nesta ilha”, restará como a imagem intocada pela prostituição do sagrado.

“Caravela da ilusão”, misturando cantigas folclóricas com cenários e figurinos arquetípicos, é um espetáculo necessário num país que anda corrompendo e degradando até a última gota o seu projeto de nação e a lenta construção de seus anseios mais profundamente humanos. Aliás, terá sido este o recado do VI Festival de Teatro Universitário de Patos de Minas, com sua mostra de 15 espetáculos competitivos e dois convidados internacionais: o de que os ideais humanos, ainda que aviltados pelo rebaixamento das verdades, podem superar a prostituição daquilo que, para muitos, ainda é sagrado.
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(*) Luís André Nepomuceno é doutor em Teoria e História Literária pela Unicamp, e professor de Literatura no Centro Universitário de Patos de Minas. 

domingo, 28 de outubro de 2018

Convite

Livros foram o assunto da penúltima postagem. Aproveito o embalo e convido vocês para o lançamento do meu. É o sexto que publico. Os quatro primeiros são de poesia. O quinto é de crônicas. Desta vez, vou lançar um livro infantil. Conto com sua presença. 

Nudez

Vergonhosa não é 
a nudez artística do corpo.
Vergonhosa é 
a nudez mofada de tuas ideias. 

Armas e livros

Tenho visto no Facebook várias pessoas com livros nos locais em que iam votar. Sou meio desligado das tendências em redes sociais, mas parece-me que a ideia de levar livros para o local de votação é uma resposta inteligente àqueles que portaram arma de fogo na hora de votar, quando do primeiro turno destas eleições. Sendo ou não uma resposta aos que portaram armas, a ideia de levar livros é muito bonita. Soubesse eu da iniciativa antes de ter ido votar, eu teria feito o mesmo.

À parte isso, fiquei pensando sobre que livro eu levaria para um dia de eleição. Assim que comecei a pensar no assunto, veio-me à mente As relações perigosas, do Choderlos de Laclos, o livro que mais já reli. Só que logo após eu me lembrei do imprescindível A desobediência civil, do Thoreau. À medida que eu ia pensando no assunto, outros livros foram surgindo. Tomei então a decisão de, por gratuidade e por espírito lúdico, fazer uma lista dos livros que me ocorreram. Depois, vou me lembrar de outros; vou me arrepender por não tê-los inserido nas lista abaixo. Por ora, eis os livros em que pensei, sem ordem de preferência:

Choderlos de Laclos — As relações perigosas
Henry David Thoreau — A desobediência civil
Darcy Ribeiro — O povo brasileiro 
William Shakespeare — Hamlet
Wisława Szymborska — Nonrequired reading
Carlos Drummond de Andrade — A rosa do povo
Herman Melville — Moby Dick
João Guimarães Rosa — Sagarana
Pablo Neruda — O livro das perguntas
Harper Lee — O sol é para todos
Lima Barreto — Triste fim de Policarpo Quaresma
Aluísio Azevedo — Livro de uma sogra
Susan Cain — O poder dos quietos
W. H. Auden — As I walked out one evening
E.L. Doctorow — Ragtime
John Milton — Paraíso perdido
Machado de Assis — Dom Casmurro
William Somerset Maugham — Servidão humana
Jessé Souza — A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato
Ruy Castro — Estrela solitária
Luís André Nepomuceno — Os anões
Raduan Nassar — Lavoura arcaica
Daniela Arbex — Cova 312
Ernest Renan — Vida de Jesus
Platão — A república
Peter Hedges — What’s eating Gilbert Grape
Michael Page e Robert Ingpen — Encyclopedia of things that never were
Patrick Süskind — O perfume
Pierre Boulle — O planeta dos macacos 

sábado, 27 de outubro de 2018

Impressões fonoaudiológicas de um não fonoaudiólogo

Os fonoaudiólogos recomendam exercícios de rebaixamento de laringe para locutores, cantores, atores e aqueles que desejam manter a saúde da voz. Do que não sei, é se há na fonoaudiologia estudos sobre o efeito de determinados idiomas no aparelho fonador. Por certo, há.

O inglês tem sons que requerem o rebaixamento de laringe. A impressão que tenho é a de que tais sons acabam moldando a voz dos falantes, fazendo com que a região dos graves seja mais acionada do que, por exemplo, se eles falassem português (pelo menos o português brasileiro).

Falar inglês é rebaixar a laringe com muita frequência, e esse rebaixamento, ao longo dos anos, suspeito, deve tornar um pouco mais grave as vozes dos falantes do idioma em comparação com um falante de uma língua que exige menos rebaixamento da laringe. Esse tom supostamente mais grave dos falantes do inglês estaria, é claro, dentro das características corporais ou físicas de cada pessoa. Mas tudo isso são apenas cogitações de um não fonoaudiólogo. 

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Um brasil feio

Existe um brasil que está sedento para 
bater em mulher, 
matar homossexuais, 
arrancar árvores pelas raízes,
censurar quem pensa diferente.
Que está ansioso para ser branquinho, 
construindo para si um território do sudeste para o sul.

Um brasil que pode ler e não lê, 
que pode estudar e não estuda. 
Que não quer que outros leiam, 
que outros estudem.

Um brasil que não quer o negro, 
que tem nojo de pobre,
que quer metralhar favelados. 
Que quer xingar, expulsar, torturar. 
Que não quer o estrangeiro, 
a não ser que ele seja de pele clara, 
que tenha olhos verdes ou azuis 
e que não fale espanhol.

Um brasil sem um pingo de educação, 
sem um pingo de português.
Que se sente macho porque aponta um revólver, 
que se acha inteligente ao defender ditadores. 
Que quer resolver no grito;
se o grito não funcionar, que se resolva na porrada;
se a porrada não funcionar, que se resolva no tiro.

Tosco, doente, bobo, beligerante, desinformado, eugênico, servil,
descolorido, murcho, barulhento.
Um pedaço de terra pisado por covardes 
que se acham ricos, descolados, sedutores.
Um brasil que não sabe conversar nem se comportar.
Que não se enxerga fétido como os demais 
porque compra perfumes caros,
que é tão falso quanto as notícias falsas que compartilha.
Existe um brasil feio que supõe ser um país. 

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Good news

Bake news.
Cake news.
Not him.
Hake news.
Jake news.
Lake news.
Make news.
Rake news.
Sake news.
Take news. 

Convite

O Livro de João, composto por poemas, é voltado para o público infantil. Os textos foram escritos e ilustrados por mim. A obra tem este procedimento: é como se os textos tivessem sido inventados por um menino. Para isso, procurei linguagem que fosse típica de uma criança quando ela escreve.

Além disso, trato de temas que podem influenciar de modo positivo a formação das crianças. Há texto sobre o dado ruim de que a tecnologia tem afastado as pessoas, textos sobre a conservação da natureza e a interação com ela, textos sobre o fascínio pelo conhecimento, texto sobre a importância da preservação da água e texto sobre racismo.

Com isso, O Livro de João tem o objetivo não só de ser infantil, mas também de lidar com questões importantes para os adultos e para a atualidade. Pelas temáticas que aborda e pelos poemas terem sido escritos como se nascidos da mente de uma criança, que você queira ser amigo do João. 

domingo, 21 de outubro de 2018

Fotos com drone (3)



























Cova 312

Os violentos não escondem mais o que querem, que é matar aqueles com quem não concordam, desconsiderando qualquer noção de direitos humanos, de dignidade humana, de direito à vida, de liberdade civil, de liberdade de defender ideias. No poema “Morte do leiteiro”, do emblemático A Rosa do Povo, de Carlos Drummond de Andrade, publicado em 1945, há os versos “há no país uma legenda, / que ladrão se mata com tiro”.

Em involuntária paráfrase sinistra, parte da classe média apropriar-se-ia dos versos drummondianos, devidamente descontextualizados, criando o bordão “bandido bom é bandido morto”, cunhando suas variações, inserindo no lugar da palavra “bandido” qualquer outra que expresse pensamento diverso do deles ou do modo de vida que eles têm. Basta pensar diferentemente deles para se receber a pena de que o mais indicado é ser morto.

É questão de tempo para que passem a matar de modo mais escancarado do que já matam. Estão a um passo de obter carta branca para que desconsiderem as leis, a constituição e as instituições. Vão implantar um país que seja regido unicamente por heterossexuais brancos, de classe média ou de classe alta. Se um dos integrantes dessa seita tiver algum comportamento sexual que não faça parte da opressora cartilha deles, esse mesmo integrante tratará de se calar, evitando confessar até para si, no travesseiro, espectros que atormentam; se o “desvio” for no outro, aí a solução é fácil: basta matar esse outro.

A leitura de Cova 312, da jornalista Daniela Arbex, publicado pela Geração Editorial, pode ser recebida com ambivalência. O livro tem como fio condutor pesquisa realizada por Arbex sobre o paradeiro do corpo de Milton Soares de Castro, morto pela ditadura militar brasileira. Na época, a versão dos militares foi a de que Milton suicidara-se.

Os que são a favor de alguma garantia para o cidadão têm no livro de Daniela Arbex mais um documento, dentre tantos, que atesta a violência, a arbitrariedade e a vileza do regime ditatorial que assolou o país; os que são a favor da ditadura (negando que ela existiu e que deveria ser instaurada ou gritando para que ela volte) acharão merecido o padecimento por que Milton e outros cidadãos mencionados por Daniela Arbex passaram.

Há muitos que bradam a favor da infâmia que é torturar; há muitos que defendem ou apoiam torturadores; muitos que exibem em camisetas ou em adesivos de carros algozes fardados ou de ternos; muitos que votam em quem quer a morte dos que defendem alguma mínima garantia para o corpo de quem não está em sintonia com carrascos. Desses muitos que arrotam essas brutalidades, a maior parte não deu nem dará a mínima para o livro de Daniela Arbex, por não lerem coisa alguma, por não estarem interessados na história ou por distorcê-la de acordo com seus princípios desinformados e covardes.

O livro de Daniela Arbex tem dois grandes méritos: é uma exceção no sentido de que se dedica a contar uma história que demandaria fôlego — o jornalismo feito aqui não é de se debruçar sobre longas matérias; outro grande mérito do trabalho de Daniela Arbex é saber buscar o que há de mais humano e universal nas histórias que conta. Holocausto Brasileiro, Todo Dia a Mesma Noite e Cova 312 provam a grande contribuição de Daniela Arbex para a história recente do Brasil. Mas, sabemos, muitos por aí alegarão que livro bom é livro queimado. 

terça-feira, 16 de outubro de 2018

O herói

Há obras de arte que têm o poder de nos revelar o que cada momento é: mágico, mágica. Uma dessas obras é O Herói (2017), do diretor Brett Haley. O roteiro é dele e de Marc Basch. O filme tem uma densa simplicidade. Cheguei a ele por acaso; numa madrugada qualquer, há alguns dias, entrei em casa, liguei a TV. Conferi uma breve sequência do trabalho. Foi o bastante para adicioná-lo em minha lista de filmes a serem assistidos.

Sam Elliott interpreta Lee Hayden, ator de faroeste outrora famoso e que agora vive de gravações de comerciais. Setenta e um anos, separado e com uma filha (com quem não se relaciona), Lee fuma muito e bebe. Logo nas cenas iniciais, ficamos sabendo que ele tem câncer e que morrerá em breve. Na casa de Jeremy Frost (interpretado por Nick Offerman), de quem Lee compra drogas, ele conhece Charlotte Dylan (interpretada por Laura Prepon).

Lee sabe que não tem muito tempo de vida. Mesmo assim, fica postergando o momento em que contará para a ex-esposa e para a filha sobre o câncer. Brett Haley capta a angústia de Lee com tomadas próximas e câmeras em movimento. O trabalho é poético, tocante. Lee sente a vida se esvaindo; Haley, captando os detalhes da expressão de Lee ou se aproximando dos objetos que ele toca, vai construindo uma narrativa de uma beleza esmagadora: não queremos que Lee morra.

Metalinguagem, poesia, lirismo, ternura, perdas, pedras, erros, mágoas. O Herói é feito daquilo que compõe a vida de qualquer um. São os nossos dramas, nossas derrotas, nossas vitórias, os objetos que tocamos, os que amamos ou aqueles cujos corações despedaçamos. Heróis somos nós, não sei se apesar do que somos ou por causa do que somos. O Herói é um filme que vale uma vida. A cena em que Charlotte lê o poema “Dirge Without Music”, da poeta Edna St. Vincent Millay, para Lee é uma das cenas mais doces e tocantes que já presenciei. (A sequência remete àquela do filme Quatro Casamentos e um Funeral, em que se lê “Funeral Blues”, do W.H. Auden.)

Há obras de arte que nos elevam, que nos levam ao som das ondas do mar ou da música de Edvard Grieg. O Herói é de uma beleza possível, alcançável. Para que essa beleza seja tocada e para que ela nos toque, é preciso ter senso de poesia. Se você suspeita de que não tem, assista ao filme: você perceberá que tem. 

A besta

É o fim do Brasil.
Não, não é:
o país nem começou.
Não começou e
já morre escatológico.
O que poderia ter dado certo
não teve início.
Sempre se pode recomeçar,
mas nos esquecemos de começar.
Melhor enterrar de vez
o que nem nasceu. 

Tiros no ar

A leitura frequente leva a coincidências. Ontem, li sobre projeto de lei apresentado pelo deputado Eduardo Bolsonaro; o texto concede a qualquer cidadão o direito de entrar armado em avião sem apresentação de documento (sic). Também ontem, pouco depois de ler sobre esse projeto, retomei a leitura de O Sol É para Todos [To Kill a Mockingbird], da escritora Harper Lee. No livro, há o trecho:

“(...) — Filho, repito que, mesmo que você não tivesse se descontrolado, eu teria pedido para você ler para ela. Queria que você a conhecesse um pouco, soubesse o que é a verdadeira coragem, em vez de pensar que coragem é um homem com uma arma na mão. Coragem é fazer uma coisa mesmo estando derrotado antes de começar — prosseguiu Atticus”. [1]
_____

[1] Harper, Lee. O sol é para todos. Tradução de Beatriz Horta. 23ª edição. Rio de Janeiro. José Olympio. 2018. Pág. 143. 

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Contagem

Uma mentira contada mil vezes torna-se verdade. Uma mentira contada mil vezes torna-se verdade. Uma mentira contada mil vezes torna-se verdade. Uma mentira contada mil vezes torna-se verdade. Uma mentira contada mil vezes torna-se verdade. Uma mentira contada mil vezes torna-se verdade. Uma mentira contada mil vezes torna-se verdade. Uma mentira contada mil vezes torna-se verdade. Uma mentira contada mil vezes torna-se verdade. Uma mentira contada mil vezes torna-se verdade. Uma mentira contada mil vezes torna-se verdade. Uma mentira contada mil vezes torna-se verdade. Uma mentira contada mil vezes torna-se verdade. Uma mentira contada mil vezes torna-se verdade. Uma mentira contada mil vezes torna-se verdade. Uma mentira contada mil vezes torna-se verdade. Uma mentira contada mil vezes torna-se verdade. Uma mentira contada mil vezes torna-se verdade. Uma mentira contada mil vezes torna-se verdade. Uma mentira contada mil vezes torna-se verdade. 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Uma mentira contada mil vezes é uma mentira.