terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Uma história e um vídeo



No dia treze de janeiro de 2008, Edgar, meu irmão, levou um tiro após uma briga de trânsito aqui em Patos de Minas. O que atirou e o que estava dirigindo a moto (ambos não tiraram os capacetes) no momento do disparo nunca foram identificados.

Quando recebi a notícia de que o Edgar havia sido baleado, eu estava em Caldas Novas com amigos. Momentos antes de eu ficar sabendo do ocorrido, eu havia comido muito. Tendo recebido a notícia, meu estômago ficou embrulhado, mas não cheguei a colocar para fora os alimentos.

Eram em torno de 21h quando fiquei sabendo do que havia ocorrido com meu irmão. Após ligações que fiz aqui para Patos, ficou decidido que eu sairia de Caldas Novas no dia seguinte, no primeiro horário de ônibus para Uberlândia. De lá, eu teria carona até Patos. Não consegui dormir naquela noite.

Os primeiros dias são muito difíceis. A gente fica sem saber o que fazer com o corpo de quem, de uma hora para outra, fica paraplégico. A esperança de que a pessoa volte a caminhar causa, no leigo, o temor de manejar o corpo do outro. Logo, logo, contratamos Diego Bueno Guimarães, enfermeiro que ficava aqui em casa durante o dia.

Ao mesmo tempo, eu e amigos passávamos os dias tentando vaga para que o Edgar pudesse ser atendido no Sarah, em Brasília, o que ocorreu pouco mais de um mês depois da briga que causou a paraplegia. Às noites, quando o Diego não estava aqui, eu colocava o relógio para despertar de duas em duas horas, a fim de mudar a posição do corpo do Edgar, para que ele não ficasse com escaras; devido ao tempo passado na cama e à quase imobilidade inicial, a pele pode ter feridas. O Sarah não admite pacientes com escaras.

Antes mesmo de meu irmão ir para Brasília, eu disse a ele que a partir do instante em que ele havia levado o tiro, a vida dele poderia ser encarada de dois modos: que ela havia acabado ou que ela havia renascido. É claro que eu torcia pela última alternativa, embora sem saber o que fazer para que ela existisse de fato no espírito do Edgar.

Na época, argumentei com ele que o mesmo capricho o qual fizera com que a bala o deixasse paraplégico poderia ter atingido um órgão vital. É uma questão de centímetros. Anos depois de ele ter levado o tiro, perguntei para o Edgar se ele achava que tinha valido a pena sair vivo daquela briga de trânsito. Ele respondeu: “Cê tá é louco: claro que sim!”.

Mas nada do que eu ou os amigos disséssemos não teria efeito se não fosse a atitude do Edgar em relação ao ocorrido e à vida como um todo. Dez anos depois do triste episódio, ele continua trabalhando, continua produtivo. Tanto é assim que está gravando um CD com músicas de autoria dele. A alternativa do renascimento tanto prevaleceu que o próprio Edgar diz que ele faz aniversário em duas datas: no dia em que nasceu e no dia em que levou o tiro.

Quando comentou comigo que gravaria um CD, propus a meu irmão fazermos um clipe que mostrasse o dia a dia dele. Ele topou. O clipe que mostra o cotidiano dele não é o desta postagem, embora já tenhamos filmado parte desse vídeo. O clipe desta postagem não deixa de mostrar uma parte do que o Edgar faz em seu dia a dia, mas a proposta foi desde o começo criar um clima mais intimista, devido ao astral da música.

Gravamos no Teatro Municipal Leão de Formosa, na tarde do dia dois de fevereiro de 2018. As pessoas a quem temos de agradecer por terem ajudado a realizar o projeto estão nos créditos; é o primeiro clipe que realizo. Para as tomadas estáticas, usei tripé. Para as tomadas em que há movimento, usei um trilho apoiado sobre duas cadeiras, que por sua vez estavam apoiadas sobre uma mesa, que por sua vez era carregada pelo palco do teatro. Em apenas uma das tomadas, a câmera estava sobre o piano. A fim de não danificá-lo, em vez de ela ficar sobre o trilho, eu a coloquei sobre uma toalha e puxei o tecido, imitando o movimento que o trilho possibilita.

Para os registros, usei uma Canon EOS 70D e duas lentes: uma delas (para a maioria das tomadas), uma Canon 50mm F/1.4; para duas ou três tomadas, uma Canon 18-135mm F/3.5-5.6. Em ambas as lentes, usei sempre a abertura máxima, variando ISO e velocidade conforme a luz.

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Uivo

Noites de Lua cheia 
são para lobos.
Se quiserem, 
que os cordeirinhos 
façam suas preces.
De qualquer modo, 
morrerão. 

Vindo

São enganados ou querem enganar

Tendo lido A radiografia do golpe: entenda como e por que você foi enganado, do Jessé Souza, publicado pela editora Leya, não vacilo em inseri-lo na galeria de nomes como o de um Darcy Ribeiro, autor do imprescindível e brilhante O povo brasileiro. Ribeiro foi importante para a época e ainda é importante para se entender o Brasil. Souza é importante e seguirá sendo pela mesma razão.

Também do Jessé Souza, falta eu ler A tolice da inteligência brasileira: ou como o país se deixa manipular pela elite e A elite do atraso: da escravidão à lava jato, que tenho aqui perto de mim enquanto digito este texto. Embora A radiografia do golpe: entenda como e por que você foi enganado não tenha a palavra “elite” no título, a obra é dedicada a esmiuçar os mecanismos pelos quais uma meia dúzia de endinheirados (que Jessé Souza considera ser a verdadeira elite do dinheiro) conseguiu incutir na tradicional classe média, que se julga mais refinada do que realmente é e mais inteligente do que do que de fato é, a bandeira da luta contra a corrupção, quando, de fato, no entender de Jessé Souza, o único interesse das aves de rapina da elite endinheirada foi o de sempre: saquear o país mais uma vez.

O texto de Jessé Souza é claro, direto, elegante. Ele não usa eufemismos, mas não está preocupado com polêmicas bobas nem com soar bombástico. Dizendo o que tem de ser dito de modo simples, Souza questiona bases do pensamento político e econômico brasileiro como, por exemplo, a edificada por Sérgio Buarque de Hollanda. Nem preciso dizer que Jessé Souza não cai na armadilha boba de querer soar iconoclasta em relação aos que critica.

Jessé Souza escreve: (...) “Os setores da classe média, que se julgam bem-informados por consumirem sua dose diária de veneno midiático, e se deixam manipular pelos endinheirados e seus interesses, não são tão inteligentes e racionais como se acreditam” [1]. Não sendo tão inteligentes quanto pensam que são, vestiram camisetas da CBF, bateram panelas e foram a passeatas, supostamente se manifestando contra a corrupção, quando, na visão de Jessé Souza, com a qual concordo, estavam apenas a serviço da mídia, que, por sua vez, está a serviço da elite do dinheiro, que, por sua vez, está apenas interessada em um modo de, mais uma vez, lesar o país; dessa vez, é com a roupagem do discurso anticorrupção.

Na visão de Jessé Souza, a classe média brasileira comprou fácil esse discurso por motivos conscientes e inconscientes. Dentre os motivos que podem ser rastreados, Souza menciona nosso vergonhoso passado de escravidão, que não é tão infame assim para setores dos endinheirados e da classe média. Além do mais, manipulada pela mídia, que é regida pela elite do dinheiro, “uma fração significativa da classe média interpretou o incômodo da maior proximidade física das classes populares em espaços sociais de consumo antes exclusivos da classe média como o primeiro passo de um processo que podia significar uma ameaça aos privilégios reais de salário e prestígio. Esse aspecto é irracional, já que a qualidade da incorporação do capital cultural típico da classe média é outro” [2].

Numa obra desse teor, natural que Jessé Souza critique a tão elogiada meritocracia. Valendo-se de argumentos sociológicos, o autor ataca a falácia de que a classe média se dá bem em termos financeiros porque é inteligente e trabalhadora, e que o pobre não consegue patamar de vida melhor porque é burro e preguiçoso.

Contundente e acessível, Jessé Souza vai juntando as peças do Brasil atual e compõe um painel lúcido, diante do qual é impossível ficar indiferente. Tenho dito que o Brasil está pagando caro (e vai pagar mais caro ainda) por um antiesquerdismo ora doentio ora interesseiro. Livros como o de Jessé Souza advogam não a favor de um partido, mas do povo brasileiro. A radiografia do golpe: entenda como e por que você foi enganado escancara como a elite do dinheiro está mais uma vez, de modo canalha, minando o país para ter lucro agora. No jogo atual, estão dando a ideia de que tudo é em nome da moralidade, das pessoas de bem, da luta contra a corrupção.

É um livro que, se por um lado, deixa o leitor com nojo das artimanhas dos endinheirados, por outro, envia um sinal de esperança. Quem nunca engoliu o discurso de que tudo o que tem sido feito é para combater a corrupção não está sozinho. E quando um Reinaldo Azevedo aponta as incongruências jurídicas da galera do TRF4, isso torna a leitura de um Jessé Souza uma necessidade e uma inspiração. Que ele e a editora Leya prossigam com o trabalho que têm feito.
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[1] Souza, Jessé. A radiografia do golpe: entenda como e por que você foi enganado. Rio de Janeiro. Leya. 2016. Pág. 84
[2] Idem. Pág. 85. 

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Entrevista para a Rádio Clube

Neste áudio, comento sobre meu livro Anacrônicas, que em breve será publicado.

 

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Breves notas de leitura

Leitura de ontem: Discografia legionária, de Chris Fuscaldo. Publicado pela editora Leya, o livro tem detalhes técnicos de todos os discos do Legião Urbana e de todos do Renato Russo em carreira solo. Para quem curte como se dão as coisas em estúdio, o livro pormenoriza, mencionando, dentre outras coisas, microfones usados em algumas gravações e a tecnologia utilizada em determinados registros.

(Para o fãs do Legião Urbana, também indico As quatro estações, de Mariano Marovatto. Nele, o autor detalha produção do quarto trabalho lançado pelos legionários. O livro faz parte da série O Livro do Disco, editada pela Cobogó (dessa série, também indico o dedicado a Unknown pleasures, do Joy Division). Nessa série, cada livro se debruça sobre um disco de determinado artista.)
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Leitura de hoje: O lago desconhecido: entre Proust e Freud, publicação da L&PM Editores. A autoria é de Jean-Yves Tadié; a tradução é de Julia da Rosa Simões. No ensaio, num instigante estudo comparativo entre dois dos pilares do século XX, Tadié, profundo estudioso de Proust, traça os paralelos e convergências entre arte e ciência a partir das produções de Proust e de Freud. Leitura que envolve e que inspira.
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Leituras a serem iniciadas: estou aqui com três livros que eu vinha paquerando já há algum tempo, três livros do Jessé Souza: A radiografia do golpe: entenda como e por que você foi enganado, A tolice da inteligência brasileira: o como o país se deixa manipular pela elite e A elite do atraso: da escravidão à lava jato. Os três foram publicados pela editora Leya, que presta um belo serviço ao Brasil publicando o trabalho de Jessé Souza; em breve, resenha.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

“Que tiro foi esse”?

Somente ontem escutei “Que tiro foi esse”. Eu não conhecia a canção nem sabia que as pessoas estão fazendo coreografias, registrando-as em vídeos e as postando em redes sociais. Assim que comecei a escutar, pensei que eu havia perdido o início. A cantora entoa “que tiro foi esse”; depois é que se ouve o “tiro”. Como a frase é “que tiro foi esse”, supus que o “tiro” já havia sido disparado, para então se fazer a pergunta ou o comentário sobre que tiro havia sido aquele. Hoje, escutei de novo a canção, a fim de conferir se a pergunta ou o comentário sobre o “tiro” vem antes do próprio. É o que parece.

À parte isso, que foi só uma boba tentativa minha de buscar alguma lógica no trabalho, também hoje, conferi uma entrevista com Jojo Maronttinni, que canta “Que tiro foi esse”. Ela disse que a expressão “que tiro” é usada quando uma pessoa quer dizer que a roupa ou o visual do outro está bonito, vistoso ou algo assim. Eu não conhecia a expressão.

Prefiro outros “tiros” ou “estrondos” do pop e do rock: os “disparos” no começo de “Demônia”, do Kiko Zambianchi, as batidas iniciais em “Rough boy”, do ZZ Top, o estrondo em “The whole of the moon”, da banda The Waterboys, o também estrondo em “Right between the eyes”, com The Wax, o gongo no fim de “Big in Japan”, do Alphaville, a “bomba” em “Get your filthy hands off my desert” ou o “tiro” em “The final cut”, ambas do Pink Floyd. 

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Bovary, Kariênina, Capitu

Madame Bovary é um livro da escola realista. É sobre uma mulher que se apaixona por outros homens enquanto é casada. Nada mais de acordo com o tema da escola realista do que isso. Num julgamento apressado e preconceituoso, seria fácil falar mal de Emma Bovary.

De antemão, é preciso ter em mente que as Madames Bovarys, as Annas Kariêninas e as Capitus não são prostitutas (Capitu, nem sabemos se ela teve de fato um romance com Escobar, pois Bentinho, mais uma criação genial de Machado de Assis, é um narrador não confiável). Prostituta é aquela que entrega o corpo por dinheiro, o que não é o caso nem de Emma Bovary nem de Anna Kariênina nem de Capitu. Num julgamento superficial e machista, seriam. Todavia, lembremo-nos, uma das características do realismo é justamente exibir a derrocada do casamento como instituição burguesa.

Emma Bovary não suporta o marido, que é o típico burguês. Ela é sonhadora, idealiza o amor, os amantes. Se, por um lado, pode-se dizer dela que foi ingênua, por outro, pode-se dizer de Charles, o marido dela, que ele é o responsável pela monotonia que é o casamento deles. E o narrador não perdoa: logo na primeira cena do livro, quando Charles está em uma sala de aula, ainda menino, o tom de zombaria do narrador em relação ao personagem já está presente. Charles é o típico marido burguês, que nada acrescenta à esposa, seja em que aspecto for; ela, por sua vez, quer o sonho, o aprendizado, a aventura, o amor, o sexo, ainda que os busque com ingenuidade.

Há quem veja na escola realista muito de machismo pelo fato de que as mulheres, com muita frequência, se dão mal. Não vejo isso como machismo. No realismo, as mulheres são vítimas das instituições da burguesia. O Borges escreveu que “o casamento é um destino pobre para uma mulher”, embora ele, no fim da vida, tenha se casado com uma.

Não é regra que o casamento seja um destino pobre para uma mulher. Hoje, ela, quando se casa, na maioria das vezes, está em busca não dos aspectos, digamos, burgueses do casamento, mas do amor, do sexo, da aventura consequente, querendo, ao mesmo tempo, sentir-se segura.

O chamado bom marido burguês pode se tornar muito desinteressante para a esposa ao longo do casamento. Ele é talhado para ser um bom burguês, o que não implica, na ótica feminina, ser necessariamente um bom marido.

Nesse sentido, o realismo persiste não somente como escola literária. Além do mais, hoje em dia, há caminhões de mulheres independentes, que têm o próprio dinheiro e que estão predispostas a aprender, sonhar, transar gostoso. Mas, com frequência, não é isso o que elas têm tido no casamento burguês, que continuará fazendo com que elas, não raro, sejam as vítimas.

domingo, 7 de janeiro de 2018

Vida

Não raro, tem-se uma visão ingênua da vida, o que leva a ignorar que, para existir, ela precisa eliminar outras vidas. Com esse objetivo, fará o que for preciso. Uma horda de abutres que fica aguardando a morte de uma vaca pode ser adjetivada como cruel ou sádica, mas os abutres estão em busca da vida, assim como esteve a vaca. Eles fazem o que fazem não por sadismo nem por maldade.

Nós, humanos, adjetivamos a natureza, assim atribuindo a ela características que são nossas. Um filhote de cachorro é chamado de dócil, uma leoa que estraçalhe uma zebra pode ser chamada de cruel. Mas nem o filhote de cachorro pensa em termos de docilidade nem a leoa concebe o mundo em termos de crueldade — ela quer sobrevier.

Com frequência, nossa presunção nos leva a ignorar não somente a força da natureza, mas também nos faz esquecer de que somos parte dela; logo, estamos sujeitos às leis da sobrevivência, estamos lutando pela vida. Nesse jogo, atacamos e somos atacados, somos caçadores e caças, predadores e presas.

Do micro ao macro, a vida quer acontecer. Uma onça que esteja perseguindo alguém não levará em conta se essa pessoa paga os impostos em dia, se é um bom pai ou se é religiosa. Um micro-organismo que esteja no corpo de um indivíduo pode levá-lo à morte, não importa se esse indivíduo é um gênio ou um tolo. A natureza não se preocupa conosco. Se a sobrevivência dela implicar nossa morte, ela não vai deixar de tentar sobreviver.

Premissas como essas estão em Vida [Life], do diretor Daniel Espinosa. O roteiro é de Rhett Reese e de Paul Wernick. Astronautas na estação espacial internacional levam a bordo um micro-organismo que logo revela uma capacidade de sobrevivência e de adaptação que, aos nossos olhos, pode se mostrar aterradora.

Além da questão de que a existência da natureza não está ligada à ética humana, o filme lida também com a temática do perigo que a manipulação da vida pode gerar. Se “Vida” não inova nas temáticas que aborda (o que em si não é um problema), ele não deixa, a despeito de não ser um grande filme, de ser um lembrete: nossa arrogância pouco pode quando a vida quer acontecer. 

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

O "milagre" de Ernest Renan

Quanto mais o tempo passa, mais robusta se torna minha opinião de que o melhor leitor que a Bíblia já teve foi Ernest Renan, autor do Vida de Jesus

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Fotopoema 412

Apontamento 372

Ler me traz sorte. 

Interessado?

O conto de Tadeu

Tadeu acordou de madrugada. O mundo era um mar de escuro e de silêncio. Tadeu estava intranquilo. Como sempre, para não atrapalhar o sono da esposa e dos filhos, mal respirava, mal se mexia na cama. Mesmo assim, naquele dia, temeu que sua consciência pesada acordasse todo o Universo. 

Nua, crua

Teu corpo em minha cama:
verdade nua.

Meu corpo dentro do teu:
verdade crua.

Teu corpo querendo ser inédito:
verdade tua. 

domingo, 24 de dezembro de 2017

Um homem chamado Ove



O que somos agora é o resultado de todas as nossas experiências passadas, sejam conscientes, sejam inconscientes. Se, aparentemente, temos a capacidade de dar às nossas vidas o rumo que bem quisermos, não devemos, todavia, ignorar o fato de que grande parte do que somos é consequência de nosso passado, que determina em larga medida nosso comportamento no presente.

Essa reflexão é o fio condutor de Um homem chamado Ove [En man som heter Ove], produção sueca de 2015. O diretor é Hannes Holm. O roteiro é dele e de Fredrik Backman, autor do romance que originou o filme. Ove, interpretado por Rolf Lassgård, é um velho ranzinza que tem o hábito de visitar o túmulo da mulher com quem foi casado; enquanto está no cemitério, “conversa” com ela. No dia a dia, flerta com o suicídio. 

Ao mesmo tempo em que achamos graça das manias de Ove, há momentos em que elas nos irritam. Sendo ao mesmo tempo reflexão sobre a velhice, não há como assistir a Um homem chamado Ove sem pensar nos velhos que talvez venhamos a ser, ainda mais levando-se em conta que a velhice parece incrementar ou cristalizar defeitos que carregamos conosco desde sempre. A intenção primeira diante do modo como Ove age é tentarmos não ser tão rabugentos e chatos quanto ele, mas à medida que o filme vai avançando, o personagem começa a tomar um alcance diverso daquele que vínhamos tendo dele até então.

Quando o passado dele é contextualizado, o filme assume de vez algo que já vinha se insinuando, que é uma delicada e profunda reflexão sobre a amizade, a velhice, o amor e, principalmente, sobre as marcas que determinadas experiências podem deixar num coração. Ove não deixa de ser o velho metódico e turrão. Todavia, a compreensão ampla de quem ele é/foi confere beleza e poeticidade à trajetória dele. Ao tomarmos conhecimento das experiências que o fizeram ser o que dele presenciamos, descortina-se um personagem profundamente humano. Não há como não gostar dele.

(Além do cartaz do filme, inseri nesta postagem duas fotos que fiz após pausar Um homem chamado Ove. Num determinado momento do enredo, o personagem faz uma viagem à Espanha; lá, hospeda-se num hotel chamado Araxa (sem acento mesmo). Dei uma conferida rápida na internet. Há mesmo um hotel com esse nome na Espanha; fica em Palma de Mallorca.) 

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Piolhos

Eu pensava que os piolhos, assim como os dinossauros, haviam entrado em extinção. Pensava eu que piolho era coisa da minha época. Fiquei surpreso de fato quando descobri que ainda infestam os pensamentos dos alunos.

Minha mãe tentou um tratamento nada ortodoxo contra os que tive. Ela borrifava um veneno chamado Neocid, que vinha numa lata amarela, redonda. Depois de borrifar, amarrava um pano na minha cabeça. Não me lembro se o tratamento era eficaz contra piolhos, mas descobri que sou à prova de Neocid. 

Êxito e fracasso

Em texto que escrevi em 2013, mencionei o livro O andar do bêbado, escrito por Leonard Mlodinow. Nele, o autor discorre sobre a presença do acaso e do aleatório em nossas vidas. A tese do livro de Mlodinow é a de que não há como sabermos as causas do que leva uma pessoa a se dar bem ou a se dar mal.

Ontem, comecei a ler Ética e vergonha na cara!, livro de conversas entre Mario Sergio Cortella e Clóvis de Barros Filho. Em determinado momento, Steve Jobs é citado por Clóvis de Barros Filho: “Queria lembrar Steve Jobs que, em um momento de sua autobiografia, diz algo mais ou menos assim: ‘Curioso, porque jamais poderia imaginar que as coisas que eu estava fazendo levariam a esse resultado a que cheguei. Hoje as pessoas julgam o que eu fiz em função do ponto a que cheguei, mas não houve da minha parte uma estratégia deliberativa orquestrada para chegar aonde cheguei. Porque aonde cheguei decorreu de um milhão de causas que até eu ignoro — causas psicológicas das pessoas que contratei, causas macroeconômicas que eu não podia controlar. E hoje as pessoas querem fazer de mim um guru por ter arquitetado as coisas de maneira que chegasse a esse resultado. Mas não sou causa dos resultados que eu mesmo colhi’”.

Os defensores da chamada meritocracia querem incutir naqueles que consideram perdedores a ideia de que são perdedores porque são preguiçosos, incompetentes ou imbecis, ao passo que eles, meritocratas, vencedores aos próprios olhos, são disciplinados, talentosos e inteligentes; exatamente por terem tais atributos, deram certo.

O meritocrata tem uma visão egoísta de si; com frequência, o egoísmo leva a uma visão distorcida da realidade. O defensor intransigente da meritocracia se considera o único responsável por ter atingido o que ele chama de sucesso. De modo análogo, para ele, aquele que ele considera perdedor é o único responsável pelo que o meritocrata chama de fracasso.

É impossível saber o que leva uma pessoa ao fracasso ou ao sucesso. Também por isso, as palestras motivacionais de empreendedorismo incorrem em erro quanto os palestrantes expõem fórmulas para se ter êxito, exibindo “cases” (palavrinha que eles adoram) de sucesso.

Teria sido muito fácil para um sujeito como o Steve Jobs se considerar o único responsável pelo sucesso que obteve. Contudo, ele teve a inteligência de perceber que não há como uma pessoa saber o que a levou à vitória — ou à derrota. Isso não nos livra de nossa responsabilidade em nossos fracassos nem anula nossa participação em nossos êxitos. Todavia, a partir daí, como querem os “sábios” da meritocracia, atribuir somente ao indivíduo a causa por seu sucesso ou por sua derrota é indício de ignorância ou de desonestidade intelectual. 

domingo, 17 de dezembro de 2017

Você é sonso?

Quando eu era pequeno, minha mãe me dizia que eu era sonso. Com isso, ela queria dizer que eu era lento, bobo. Passei décadas supondo que esse era o sentido do vocábulo “sonso”. Num dia, enquanto eu estava folheando um velho dicionário em busca de uma palavra, meus olhos se deparam com a palavra “sonso”. O significado dela me surpreendeu: “Que ou aquele que finge não ter defeitos ou se faz de simplório, palerma, inocente, mas faz coisas reprováveis dissimuladamente ou pelas costas; manhoso, dissimulado, santo do pau oco”.

A definição acima é a que está na versão eletrônica do dicionário Houaiss, que tem o mesmo teor da definição do Aurélio, com a qual me deparei há tempos. Ou seja, o sonso não é um palerma, um bobo. Ele se finge de. A cultura popular pegou a parte visível do fingimento e a tomou como significado da palavra, quando de fato a totalidade do significado está no fingimento e no que ele esconde.

sábado, 16 de dezembro de 2017

Empáfia e jeitinho não ganham jogo

Há ocasiões em que não há espaço para o improviso, o descompromisso, o achar que as coisas vão se resolver a partir de um jeitinho, de um drible. O futebol brasileiro insiste em negar essa evidência, a despeito do sete a um na Copa aqui realizada.

O jogo entre Real Madrid e Grêmio, terminado há pouco, jogou luz mais uma vez sobre o quanto nosso futebol está distante do profissionalismo do futebol europeu. A culpa disso é dos nossos cartolas e do espírito improvisador do brasileiro, o qual acha que tudo resolver-se-á a partir da genialidade, que é rara e não anula a necessidade de treino, disciplina e profissionalismo.

Durante a partida, o próprio locutor do Fox Sports ficou clamando por um lance de genialidade. O brasileiro como um todo e o futebol aqui praticado precisam aprender que esse negócio de genialidade, no futebol de hoje, não se fará sem rigor, concentração e seriedade.

Como somos um povo que não vai assumir esse compromisso, teremos em campo o que houve há pouco no jogo entre Grêmio e Real Madrid. Mesmo disputando um torneio para o qual não dão importância, e que o Grêmio considerava essencial, a equipe espanhola ganhou com facilidade do time brasileiro. Os europeus nem tiveram de se esforçar para chegarem à vitória.

O primeiro tempo foi monótono. No segundo, Cristiano Ronaldo bateu falta que passou no meio da barreira e foi parar dentro do gol. Houvesse para o Grêmio a mesma desimportância que o jogo tinha para o Real Madrid, a derrota seria menos sintomática do modo amador como nosso futebol é gerido. Mesmo as equipes tendo entrado em campo com atitudes tão distintas, o Real Madrid passeou enquanto o Grêmio escancarou o fiasco de nosso jeitinho, despreparo e incompetência. Mas não será isso que vai nos livrar de nossa atávica empáfia e de nossa perigosa ilusão quanto a nossos talentos. 

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

"Confesso que perdi"

Dizer que se espera de um profissional que ele seja ético parece ser algo redundante. Mas é uma daquelas redundâncias que precisam ser ditas, por haver tantos profissionais sem ética. Não é diferente no jornalismo. Interesses espúrios, ideologias pessoais ou puxa-saquismo acabam deturpando o que deveria ou poderia ser jornalismo.

Juca Kfouri é o jornalismo feito com ética, beleza e espírito combativo. Numa época em que meios de comunicação contratam profissionais que não sabem lidar nem com o próprio idioma de que se valem para se comunicar com leitores, ouvintes e telespectadores, Kfouri é o cuidado com o idioma, que não é pose nem é inócuo porque vem, antes de tudo, sustentado por uma conduta corajosa e honesta.

Todo esse espírito está em Confesso que perdi, livro de memórias publicado recentemente por Juca Kfouri; a obra saiu pela Companhia das Letras. Há momentos líricos, ternos. Sem cair em discurso açucarado nem em condescendência para consigo, Confesso que perdi se detém mais sobre o universo profissional do autor, ainda que, o que é natural nesse tipo de livro, haja menção a questões mais intimistas.

A leitura do livro é um refrigério. Mesmo que o autor confesse ter perdido, com o que concordo, a partir da justificativa que ele dá no livro e que tem dado em entrevistas e depoimentos, Confesso que perdi, a despeito de ser a crônica de uma derrota anunciada já no título, é, paradoxalmente e ao mesmo tempo, a vitória de um profissional que é uma pérola no jornalismo brasileiro.

Juca Kfouri conta casos, bastidores dos eventos que cobriu, histórias sobre as pessoas com as quais conviveu e as quais entrevistou. À medida que eu ia lendo o livro, a memória resgatava cenas de Kfouri que conferi na TV ou memoráveis páginas com a presença dele em revistas. Enquanto lia Confesso que perdi, eu me dei conta de que o autor está mais presente na minha vida de telespectador e de leitor do que eu havia percebido.

domingo, 10 de dezembro de 2017

Haicai 62

Para minha cura,
não importa o mal,
drágeas de leitura. 

O que Zezé di Camargo enxerga e o que Marcelo Rubens Paiva enxerga

Os que defendem o retorno da ditadura deveriam ler Ainda estou aqui, do Marcelo Rubens Paiva, cujo pai, o político Rubens Paiva, foi torturado e morto pelo regime militar. Mas gente a favor da tortura ou do regime militar não está interessada nesse tipo de leitura. Gente assim está preocupada em não aprender sobre a história do país.

Não raro, isso as leva a negar a história. É o que fez, dentre outros, em setembro, Zezé di Camargo, ao declarar que não existiu ditadura militar, mas o que ele chamou de “militarismo vigiado”. Na ocasião, o cantor disse ainda que o Brasil “nunca chegou a ser uma ditadura daquelas que você ou está a favor ou você é morto”. Ele deveria ler o livro de Marcelo Rubens Paiva. Mas não vai. E ainda que lesse, não mudaria o pensamento.

Ao se deter no microcosmo da família do autor, Ainda estou aqui escancara o mal que a ditadura fez ao país. Claro que ele não é o primeiro a fazer isso; nem será o último. O que não impedirá que haja pessoas concordando com o Zezé di Camargo ou pessoas alegando que os militares fizeram bem em torturar e em matar. 

O engano não é só do Bono

Autorias atribuídas incorretamente passaram a ocorrer com mais furor após os ventos da internet e das redes sociais. Um desses casos é o poema “Instantes”, tido como sendo de Jorge Luis Borges. Eu mesmo tenho um jornal em casa em que o texto é atribuído a Borges. Quando ele não é atribuído a Borges, é atribuído a uma estadunidense de nome Nadine Stair. “Instantes” não é nem de Stair nem de Borges. É de Don Herold, humorista dos Estados Unidos.

A atribuição incorreta dessa autoria já causou episódios curiosos ou divertidos. Num deles, Bono Vox, vocalista do U2, disse, num canal de TV mexicano, antes de ler trechos do poema, que declamaria alguns versos do “poeta chileno Borges”. Há duas informações incorretas na afirmação do Bono: Borges não é chileno, mas argentino. 

O apelo do Tito

Tive um dia desses mais uma prova insofismável do quanto sou desafinado: comecei a cantar, o Tito, meu cachorro, começou a resmungar num choro baixinho. Parei de cantar, o Tito voltou a sorrir. 

Apontamento 371

Por mais que vivamos, a morte sempre recebe um rascunho. 

Comunhão

Não escrevo na ilusão de mudar as pessoas nem de mudar o mundo. Isso seria muita empáfia minha. O que escrevo é meu modo de dizer que você não está sozinho, que eu não estou sozinho, que não estamos sozinhos. Mas sei: ainda que sozinho eu estivesse, escreveria. Mas saber que não estou sozinho é mais uma razão para que eu escreva. 

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

A ghost story

Se por acaso você cogitar não assistir ao filme A ghost story (2017) por achar que o enredo remete a Ghost — do outro lado da vida (1990), esqueça isso. Também não deixe de assistir ao filme por achar que um fantasma representado por uma pessoa coberta por um lençol é algo muito infantil ou inverossímil para ser conferido. Por fim, se você não gosta de filmes de terror, leve em conta que A ghost story não é um filme de terror e que qualquer gênero tem obras-primas.

O filme não tem pressa e subverte regras clássicas de composição dos quadros cinematográficos. Acostumados do modo como estamos aos cortes frenéticos da maioria das produções atuais, o diretor David Lowery, também o autor do roteiro, propõe longas tomadas com a câmera estática.

O filme é estrelado por Casey Affleck e Rooney Mara. C (interpretado por Casey Affleck) morre em acidente de carro. M (interpretada por Rooney Mara) fica sozinha na casa deles. Pouco depois de deixar o hospital a que havia sido chamada para fazer o reconhecimento do corpo de C, M vai embora; instantes depois, C se levanta e sai caminhando, coberto pelo lençol que estava sobre seu corpo no hospital.

O fantasma de C vai parar na casa que era compartilhada por ele e por M, onde ela passa a morar sozinha. A partir daí, A ghost story se torna uma bela e poética reflexão sobre a inexorabilidade da passagem do tempo e sobre a destrutibilidade de tudo o que edificamos. Com relação ao espaço que ocupamos, o acesso ao que houve e o conhecimento do que haverá não anulam a destruição cabal. Num eufemismo, dir-se-ia que a transformação é que vem, não a destruição. 

Pode-se assistir ao filme de David Lowery como uma alegoria da dificuldade que temos em nos desapegar daqueles com quem um dia convivemos ou daquilo que um dia esteve em nossas mãos. Num limbo melancólico, o fantasma de C não se conforma com a dissolvência do que um dia foi o espaço dele, mas que foi e será o espaço de outros.

Pode ser que chegue o instante em que não haverá o espaço de ninguém. Numa dimensão cósmica, pode ser que não restará nem memória nem átomo do que fomos ou dos lugares que ocupamos ou das coisas que tivemos em mãos. Diante da duração e da extensão do Universo, nossas vidas são ínfimas. Não bastasse, um vento macondiano poderá aniquilar qualquer possibilidade de permanência de qualquer coisa. Mas isso não é pretexto para que deixemos de assistir a filmes como A ghost story. Que se reserve tempo e espaço para o trabalho de David Lowery. 

Sobre práticas pronominais

Ainda há pessoas que se encantam porque o presidente usa mesóclise. Sob pretexto de moralizar o país e sem saber (ou sabendo) que vai doer nelas também, dar-se-ão por satisfeitas com o pronome oblíquo no meio. 

Haicai

Constato demais:
é bonito e sedutor
quem lê mais. 

Singular

Gosto de gente no singular. 
Mais de dois, multidão.
Não confio em plural,
o singular me robustece. 
Melhor do que dois,
somente a solidão. 

A liga da justiça

Que o humor é algo magistral, todo mundo sabe. Mas ele não pode ser usado para encobrir ou salvar algo que é ruim. Ele deve ser a consequência de algo que é bom. Nem o humor de A liga da justiça o redime. É o humor que faz com que o filme seja simpático. “Simpático” não é um adjetivo honroso para um filme que pretendeu ser mais.

A impressão com que filmes de super-heróis têm me deixado é a de que há enredo de menos e computação gráfica demais. Não bastasse isso, os vilões têm sido tediosos e óbvios. Foi assim em Batman versus Superman, é assim em A liga da justiça. Os alienígenas vilões dos dois filmes são superficiais, servindo apenas para dar e levar porrada.

Os fãs dos quadrinhos ressentir-se-ão com o fato de que a essência do Flash não é a mesma (nos quadrinhos, ele não é o engraçadinho do filme) e com a pouca empatia que o Cyborg gera. Quanto a Aquaman, é um personagem bem construído. Pena que após fazer menção a Ahab, personagem do livro Moby Dick, joga uma garrafa ou algo assim no mar. Não faz sentido justamente ele poluir as águas.

Aqui ou ali, há referências a outros filmes de super-heróis. O primeiro soco desferido pelo Super-Homem no vilão em A liga da justiça tem menção ao tema criado por John Williams. É esse o breve instante em que alguma emoção se esboça, logo indo embora. Nem o (mais uma vez) belo trabalho de Danny Elfman na trilha sonora consegue dar alguma grandiosidade a um filme destituído de grandeza. O humor sozinho não pode salvar o mundo. 

Haicais pontuais

1
Três pontos: reticências.
Três exclamações:
excrescências.

2
Três pontos: reticências.
Três interrogações:
excrescências. 

sábado, 25 de novembro de 2017

Pedro Cardoso na TV Brasil

O ator e escritor Pedro Cardoso esteve recentemente nos estúdios da TV Brasil. Em vez de conceder a entrevista para a apresentadora Katy Navarro, ele criticou o diretor da emissora, Laerte Rimoli, por supostas declarações racistas dirigidas à atriz Taís Araújo. Em sua intervenção, o ator ainda apoiou os grevistas da TV Brasil.

Poder-se-ia argumentar que Pedro Cardoso protagonizou o episódio como estratégia de divulgação de si mesmo, e, de modo indireto, de seu primeiro romance, O livro dos títulos, lançando recentemente. Os que acusam o ator em virtude do ocorrido no estúdio da TV Brasil alegam que ele sabia de antemão tanto da greve dos servidores quanto do suposto racismo de Rimoli.

Ciente tanto de uma coisa quanto da outra, a atitude adequada dele teria sido não comparecer ao estúdio do canal de TV. Pedro Cardoso teria feito o que fez por saber que uma conversa “comum” em que ele falasse de seu livro não repercutiria tanto como repercutiu a atitude dele de fazer o discurso que fez e de ir embora sem conceder a entrevista.

O episódio foi habilmente conduzido por Katy Navarro. Não tenho como saber quais teriam sido as motivações intrínsecas de Pedro Cardoso. Se ele tiver agido também com a intenção de causar a repercussão do nome dele, isso não me incomoda; se tiver agido com a intenção de criticar a direção da TV Brasil e de apoiar os grevistas, isso muito me contenta. 

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Resvalos

Nietzsche resvala na poesia.
Guimarães Rosa resvala na filosofia.
Eu resvalo na leitura. 

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

A duração do conhecimento

As universidades particulares são adeptas do empreendedorismo, que mencionei na postagem anterior. Uma das pérolas do empreendedorismo é o “pitch”. O termo se refere a uma apresentação de três a cinco minutos. O tal do “pitch” foi parar na academia.

Nas universidades, já estão pedindo comunicações que durem de três a cinco minutos. É a linha de produção nas comunicações acadêmicas. O lance é ser rápido, superficial, tolamente palatável. Mais um estratagema a serviço da bestialização e da preguiça das pessoas de pensar e de prestar atenção.

O uso do termo “pitch” confirma o quanto o pessoal do empreendedorismo adora usar vocábulos estrangeiros. “Pitch” vem do inglês. Em linguagem informal, segundo o dictionary.com, significa “to attempt to sell or win approval for; promote; advertise: ‘to pitch breakfast foods at a sales convention’”. 

Das bobagens do tal empreendedorismo

Crachás de equipe de hotel que visitei recentemente não tem dizeres como “atendente”, “telefonista” ou “gerente”. Em vez de escreverem a função que a pessoa tem na empresa, escreveram a palavra “emocionador” no crachá dos funcionários.

Fico até pensando nas tais dinâmicas a que são submetidos quando há reunião. Por outro lado, o modismo do “emocionador” vai pegar, por ser tão bobo quanto outros modismos já propalados pelas corporações e seus empreendedorismos. 

Haicai 60

Liguem a televisão!
Está começando o 
Show do Grilhão. 

Meu balanço da Fliaraxá

À parte uma excessiva e artificial intimidade dirigida aos convidados por parte do mediador da maioria das conversas nos diálogos literários na Fliaraxá, que ocorreu de quinze a dezenove de novembro, um evento como esse é bom por um sem-número de razões. A questão dessa intimidade me incomodou porque era reiterada. Não há nada de errado em alguém expressar carinho ou afeto por um amigo em público. Todavia, quando há o exagero, a conversa cai num tom informal demais, fazendo com que o evento assuma uma leveza afetada.

Não é da conta de ninguém se o mediador é muito amigo dos convidados. É muito antipático quando a pessoa quer mostrar, reiteradamente, que é amigo de alguém num evento em que há um imenso público que não está interessado na amizade que possam ter, mas, sim, no trabalho que executam. Talvez o auge de tudo isso, que considero pouco profissional, tenha sido o momento em que o mediador chamou Zuenir Ventura de Zuzu. Tivesse isso sido um episódio isolado, teria sido algo que até poderia ter soado divertido, mas foi apenas mais um ato da longa série de intimidades ou supostas intimidades entre amigos no tom de que se valeu o principal mediador das conversas.

Não bastasse, ao expor a (suposta) amizade que tem com os convidados, o mediador, que também foi o curador do Fliaraxá, se valia de um tom muito baixo de voz, na intenção, suponho, de soar carinhoso para os amigos. Nessas horas, era quase impossível escutá-lo, mesmo eu tendo estado o tempo todo muito perto do palco e das caixas de som. A curadoria dele foi excelente; nomes consagrados se juntaram a estreantes, autores de variados matizes participaram. Penso que seria melhor a Fliaraxá manter a curadoria e buscar outro mediador para as conversas.

Dito assim, sei que estou parecendo um daqueles velhos ranzinzas que reclamam de tudo. Asseguro que sou apenas velho. As reclamações que faço são muito mais expressão de um desejo genuíno que o evento dê certo, que prossiga, que cresça. Além do mais, o que considero intimidade forçada e falta de profissionalismo pode não ter incomodado outras pessoas e pode não ser encarado assim por outros que acompanharam a Fliaraxá, seja pessoalmente, seja via internet.

No todo, gostei demais do evento, que é um refrigério em meio a tanta caretice que tem havido no Brasil. Sei muito bem que não é fácil organizar algo daquele porte. Há muita gente e muito equipamento envolvido. As coisas funcionaram. Os imprevistos que aconteceram não comprometeram o andamento da festa. É bom presenciar uma cidade do interior, com pouco mais de cem mil habitantes, possibilitando a nós, sem cobrar entrada, acesso a grandes nomes da literatura nacional (Cristovão Tezza, Luiz Ruffato) e internacional (Mia Couto, José Luís Peixoto).

Pela primeira vez, a Fliaraxá foi realizada no famoso Grande Hotel de Araxá, espaço amplo e bonito para um evento que foi tão amplo e bonito quanto o lugar em que ocorreu. Não houve tolices, não houve ninguém pedindo tortura nem ditadura, o que é um alento num país em que livres manifestações de ideias têm sido invadidas por quem não quer pensamentos contrários aos seus sendo debatidos. Só num evento assim é que temos a oportunidade de estarmos próximos daqueles que tanto admiramos à distância. Voltei de Araxá já com saudade do que houve e com vontade de estar lá outra vez. 

O conto de Arnaldo

Arnaldo não se dedicava a longas ações porque tinha medo de morrer durante a execução de uma delas. Morreu enquanto estava digitando um haicai. 

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

"Down em mim"

É muito bom quando há a preocupação com soar bonito; não raro, isso está nos detalhes. Eu estava escutando "Deu pra ti", com Kleiton e Kledir. Na segunda vez em que se canta "quando eu ando assim meio down", o vocal de apoio fica repetindo "down, down, down"... É muito bonito. A busca do belo já é uma beleza em si. 

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Docentes, discentes e outros entes

Com frequência, digo que se boa parte das pessoas que parabenizam os docentes quando é quinze de outubro se preocupassem ou tivessem se preocupado em ser bons alunos, a educação seria um pouco melhor. Com isso, nem preciso dizer, não estou desprezando as congratulações que vêm dos estudantes que têm ou tiveram comportamento decente. Dito isso, quando não é o dia dos professores, a tônica é falar mal da escola, não importa se a pessoa tenha sido uma daquelas que em sala de aula exibiam comportamento deplorável.

Há algum tempo, no Facebook, alguém postou um texto atribuído à Lya Luft, intitulado “O traje”, em que ela discorre sobre o desleixo que se tem com o português. Uma senhora vaticinou, nos comentários da postagem, de modo lacônico, a causa desse desleixo: “Isto é a escola que temos”. Esse prosaico exemplo confirma a tendência de se criticar a escola como um todo.

Tenho convivido há muito tempo com a necessidade de escrever algo a favor dos professores. Contra nós, já há muito modismo, muita burrice disfarçada de pedagogia e muitos burocratas. Todavia, este texto, antes de ser uma defesa a favor dos que lecionam, mesmo eu sabendo que não precisam de alguma intervenção minha, é, antes de tudo, consequência de ideias que preciso materializar. As vivências de que me valho são em maioria as que tive no ensino médio, embora não sejam tão diferentes nos outros níveis da educação.

Durante a maior parte de minha vida, lecionei em escolas particulares. Sempre tive as ferramentas necessárias para realizar meu trabalho. Desde 2014, leciono em instituto federal; os institutos federais fazem parte da rede de escolas públicas da União. Aqueles que não concordarem com o teor deste texto podem, talvez, alegar que tanto nas escolas particulares em que trabalhei quanto no instituto federal eu não vivenciei nem vivencio a precariedade do ensino público dos estados. Estão certos nessa alegação.

É verdade que não trabalhei nem trabalho em ambiente precário. Mas não sou alienado. Tenho colegas professores que trabalham na rede estadual. Converso com eles, sei das dificuldades que têm de enfrentar. Sei também que tanto em Minas Gerais quanto em outros estados há escolas mais precárias do que algumas que conheci.

O que me incomoda é que, com frequência, quando se fala mal da educação, responsabilizam os professores pelas fraquezas do ensino. Com relação a isso, de antemão, devo dizer que não sou ingênuo. Certa vez, aqui em Patos de Minas, visitando uma escola estadual, onde eu falaria sobre literatura, a convite de um professor, escutei, durante o intervalo, uma professora dizendo que, depois de terminada a faculdade, nunca mais havia lido um livro. E completou: “Eu me formei há dezesseis anos”. Sei bem que há professores que não cumprem o mínimo do que é da obrigação deles.

Quando se fala mal da educação, nem sempre as pessoas têm acuidade. Quando criticam o ensino, estão culpando o governo estadual, a falta de estrutura das edificações ou os professores? Ou estão criticando tudo isso? No que diz respeito aos professores, a maioria deles não é do tipo que nunca leu nenhum livro depois que se formou. É difícil uma semana em que não me deparo com algum professor ou alguma professora da rede pública estadual fazendo muito mais do que é o dever dele ou dela. Enquanto isso, o tempo vai passando. Mais um quinze de outubro vem. Os professores são elogiados. Terminado o dia, a culpa pelo fracasso do ensino volta a ser dos docentes.

Não bastasse, passou-se a delegar à escola funções que não são dela. Coisas que deveriam ser aprendidas em casa têm, agora, de ser ensinadas em sala de aula. Há muitos anos, numa palestra cujo tema era ética, o palestrante iniciou a fala dele dizendo que era difícil falar sobre ética, pois ela é algo que percebemos se a pessoa tem (ou não tem) pela maneira como ela abre uma porta. Os professores têm de ensinar a uma pessoa de dezesseis anos como se abre uma porta ou como se portar quando alguém está dando uma aula.

Tem-se, então, um quadro em que parcela da sociedade culpa os professores pelo fiasco da educação. Isso, por si, é ruim. Mas os professores têm outro algoz, não importa se na rede pública estadual ou federal: o próprio sistema escolar. Nesse jogo de apontar o dedo para aqueles que supostamente não fazem o que deveriam fazer, o aluno deixou de ser responsabilizado. O discente fica de fora do problema.

Os que estão em cargos de comando na educação têm o mantra de que o professor deve aprender, deve se atualizar, deve estar em sintonia com o mundo, deve saber falar a linguagem da juventude. Qualquer professor que já tenha estado numa escola para lecionar já escutou essa prédica, que é correta, embora aplicada de modo deturpado. Falar a língua do aluno não é o mesmo que ter de ser extrovertido, de ter de ser comediante.

Em tese, todo professor é um leitor. Ele pode até não cumprir sua função quanto às leituras que deveria sempre fazer. Mas os que estão em cargos de comando na educação, salvo exceções, não dizem ao aluno o que ele deve fazer. Ainda que digam ou que façam de conta que dizem, na prática, as atitudes são de quem está exigindo somente dos professores.

Ensinar se torna então mais complicado ainda. O mundo fora da escola diz que o aluno deve ter sempre o mais recente modelo de celular, diz que ele deve consumir drogas em festas, que é a roupa que define o caráter, que basta tomar refrigerante para se alcançar a felicidade. O mundo fora da escola é o mundo da permissividade.

Esse mundo não dirá ao aluno que o universo do conhecimento nem sempre vai ser divertido; não dirá que o estudante pode vir a ter muitos fracassos, por mais inteligente que seja; não dirá que sisudez e timidez não são defeitos; não dirá que a sutileza é poderosa. O mundo fora da escola prega ousadias barulhentas, declarações inconsequentes. O mundo lá fora dirá que o estudante não merece um não, dirá que ele tem direito, imediatamente, ao que quer, ainda que não tenha lutado por isso.

O mundo fora da escola é o mundo do sim perene, da conquista sem esforço, do conhecimento sem dedicação, da ausência da dor e da obrigatoriedade da alegria. O professor, pela natureza da profissão, não deveria coadunar com essas ideias. Só que ao não coadunar, ele se torna um pária. Professor bom prega profundidade e concentração; elas não são indicativos de caretice nem impedem o surgimento do humor.

Na maioria das vezes, o professor tem a clara ciência de que o que ele propõe está contra a onda irresponsavelmente hedonista do mundo fora da escola. O professor segue, a despeito de suas limitações, tentando fazer seu trabalho. O problema é quando ele fraqueja. Antes de ser um profissional da educação, o professor é gente. Quando fraqueja, no mais das vezes, estará sozinho. Vão dizer a ele o que ele já sabe: que ele deve se informar, que ele deve falar a língua do jovem...

Na prática, não há, nos cargos de comando, contundentes profissionais (na teoria, há) a perguntar para os estudantes se eles tentam entender a linguagem dos professores ou se eles, estudantes, estão dispostos a agir em consonância com a ideia de que o caminho do conhecimento é trabalhoso. Não dizem que o aluno terá de estudar demais e terá de aprender a falar corretamente se quiser ir mais longe em si mesmo. Não perguntam aos estudantes o que eles têm feito para assimilarem o legado dos que vieram antes deles.

Sempre resguardadas as exceções, os que estão no comando burocrático da educação serão contundentes com apenas um dos lados da moeda, o lado de quem está empenhado em passar para os alunos coisas que o mundo fora da escola não diz a eles. Nesse cenário, o professor fica sozinho. Volta para casa remoendo a deselegância do estudante ou a incompreensão dos que ocupam cargos de chefia, que, na maioria das vezes, terão o discurso usual, o de que faltou nele, professor, o traquejo, o manejo ou a experiência para saber dialogar com a juventude.

Essa juventude, que ainda não aprendeu que o mundo das ideias é bem mais profundo do que uma mensagem em aplicativo de celular, seguirá mimada. Para boa parte dos que estão no comando burocrático da educação, basta que o professor seja uma espécie de animador de auditório como os que há em programas dominicais para ser considerado bom; alunos ingênuos pensam de modo similar. Os comandantes continuarão a adular os jovens, mesmo quando fazem de conta que não adulam. Os jovens, por sua vez, seguirão cheios de si, numa empáfia que é típica da idade e que é incentivada por quem deveria estar dando apoio aos professores. Há todo um aparato dentro do sistema escolar dizendo para o professor, o tempo todo, o que ele deve fazer; não há nem esboço de estrutura similar a sugerir para os estudantes o que eles deveriam fazer. Nada se fala do papel do aluno na melhoria da educação. A juventude seguirá blindada; os professores seguirão desguarnecidos.

Boa parte da sociedade culpa os docentes. Boa parte do sistema educacional culpa os professores. Nesse massacre, muitos dos que lecionam passaram mesmo a acreditar que são de fato os culpados pelo desastre que a educação se tornou, pois é isso que os detratores reiteradamente apregoam. Qualquer professor trocaria as mensagens açucaradas vindas deles ou de burocratas em quinze de outubro por atitudes firmes de apoio nos demais dias. 

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Quanto pesa um morto?

Somente há algumas horas assisti a Infidelidade [Unfaithful] (2002), do diretor Adrian Lyne. Os roteiristas são Claude Chabrol, Alvin Sargent e William Broyles Jr. Nos papéis principais, Richard Gere, Diane Lane e Olivier Martinez.

Edward Summer (interpretado por Gere) mata Paul Martel (interpretado por Olivier Martinez), pois Martel tinha um caso com Connie Summer, esposa de Edward (Connie é interpretada por Diane Lane). Logo após o homicídio, Edward não sabe bem o que fazer com o cadáver. Decide então enrolar o corpo morto num cobertor; a seguir, prende o tecido com fitas adesivas e arrasta Paul para dentro de um velho elevador, que estava com defeito. Por causa disso, o elevador emperra entre dois andares. É quando Edward ergue do chão o morto. Erguendo-o, consegue elevá-lo acima dos ombros e deixá-lo novamente no chão, fora do elevador.

Enquanto eu assistia à peleja de Edward com o corpo de Paul, fiquei pensando na força que ele teria de fazer para tirar o morto do chão e erguê-lo. Mal esse pensamento me ocorrera, eu me lembrei de uma frase que está num dos romances do Gabriel García Márquez: “Você não sabe o quanto pesa um morto”. Segundo García Márquez, quando ele ainda era criança, essa frase lhe fora dita pelo avô dele.

Algo em torno de dez ou quinze anos antes da morte de Márquez, tentei enviar algumas perguntas para ele, no que seria uma entrevista. Enviei esse conteúdo para a editora que o publica no Brasil, pedindo à equipe da empresa que encaminhasse as perguntas para ele. Não obtive retorno. Depois, vasculhando a internet, consegui o que, salvo engano, era o e-mail profissional de um dos irmãos de García Márquez. A pessoa com quem entrei em contato poderia não ser um dos irmãos dele, a despeito do sobrenome, que era o mesmo do autor. Também não obtive retorno para esse e-mail. Fui abusado em tentar conseguir a entrevista, pois sou desconhecido, não trabalho em nenhum grande periódico. Mas não havia delírio. Eu estava ciente de que era improvável o escritor receber as perguntas que eu havia preparado.

Há algumas horas, assistindo à cena que ocorre dentro do elevador no filme de Adrian Lyne, eu me lembrei de frase do avô do Gabriel García Márquez. Penso que o autor teria gostado de saber disso. Mas ainda que ele tivesse recebido as perguntas que enviei ao tentar entrevistá-lo, eu não comentaria sobre a cena do filme, pois só hoje é que o conferi. Mesmo assim, suponho que o autor teria gostado de saber que a frase do avô dele ainda reverbera.

“Você não sabe o quanto pesa um morto”.

Ecológico

A natureza não pede socorro.
Depois de nós,
ela vai se inventar,
vai se renovar.
Nós pediremos socorro.

A natureza não escuta súplicas. 

A dama e o guarda-caça

Em tempos nos quais muitos hipócritas fazem mais barulho por causa de uma pessoa nua do que pelas indecências do senado e da câmara dos deputados (muitos dos hipócritas barulhentos e indecentes estão nessas duas casas), O amante de lady Chatterley (1928), escrito por D.H. Lawrence, prossegue relevante. Dentre tantas coisas, o livro pode ser lido também como libelo contra a hipocrisia.

Num país como o Brasil, que, seja por má-fé, seja por ingenuidade, por interesse próprio, por ignorância, elencou alguns como corruptos e outros como salvadores, mas que, mesmo assim, continua elencando salvadores falsamente moralistas e verdadeiramente perigosos, O amante de lady Chatterley, que também permite leitura política, tem muito a dizer. Irresponsáveis, há no Brasil os que tecem elogios a torturadores e alegam que vão acabar com a corrupção. Mas o moralismo ditatorial de muitos só consegue enxergar a corrupção que vem de alguns. Mesmo quando dizem que gostariam de ver seus heróis na cadeia, de pronto se dizem apoiadores de quem elogia ditaduras e torturas. Defensores de “virtudes”, querem uma sociedade, na visão deles, ordeira, obediente.

Esses conservadores, alguns por ignorância, outros por questões interesseiras, reprovariam um livro como O amante de lady Chatterley, ainda que as cenas de sexo não sejam chocantes. O livro é um grande romance sob qualquer aspecto. O sexo é um desses aspectos, mas tão importante quanto os demais. Ainda que se leve em conta a ousadia do autor em ter usado palavrões numa época em que eles quase não frequentavam a literatura, o que o livro tem de grandioso quanto ao sexo são as ideias que ele defende. Ainda que não se concorde com Lawrence, ele tem uma teoria sobre o sexo e sobre o amor.

Todavia, não é somente com relação ao sexo que certos defensores dos bons costumes do Brasil atual reprovariam O amante de lady Chatterley. Como todo portentoso trabalho literário, o livro é vasto, multifacetado. A política ou as questões sociais são outro grande tema de que trata a obra, cujo enredo se passa quando os estilhaços da primeira guerra mundial ainda não haviam sido retirados das ruas.

Os guardiões da boa conduta no Brasil de hoje não aprovariam o modo como Clifford é retratado no livro. Ele, vítima da guerra, é também os preconceitos da classe a que pertence. O próprio Lawrence, em texto sobre o livro, admite que Clifford pode ter aspectos simbólicos. Ainda que Lawrence não tivesse admitido isso, a cena em que Clifford depende de Mellors para subir uma encosta é densa, ao contrapor o papel de duas classes sociais e de dois modos díspares de como encarar a organização política, o sexo e o mundo.

Clifford é o burocrata, o frio, o que se considera detentor de privilégios por meramente pertencer a determinada classe social. Mellors é o “selvagem”, o espontâneo, a força da natureza. Sobre Clifford, Lawrence, num ensaio, escreveu: “Ele é um produto da nossa civilização, mas é a morte da humanidade”. Ao se referir a Mellors, Lawrence diz que ele “ainda conserva o calor de homem” e que ele representa a vitalidade.

Como toda grande obra artística, O amante de lady Chatterley pode ser lido hoje sem que soe datado. Como toda grande obra artística, dialoga com a época em que foi produzida sem deixar de desvelar verdades atemporais. Dizer que se trata de um livro corajoso já seria um grande elogio, mas a coragem não é a única virtude da obra. Com vigor, com talento e com honestidade, Lawrence expõe a fraqueza e a pusilanimidade de pessoas que, a despeito de sua artificialidade, julgam-se superiores em função de privilégios econômicos.

Seja pelo ridículo de Clifford, pela coragem de Mellors, pela entrega de Constance Chatterley, pelo que tem de político, pelo que tem de amor, O amante de lady Chatterley é uma obra que incomodaria muitos dos supostos paladinos dos bons costumes e da boa moral no Brasil de hoje. Também por isso, num país em que a indecência, não raro, usa terno e gravata ou se diz religiosa ou gente de bem, é um livro de leitura imprescindível. 

A morte da política ou a política da morte

Em 2011, quando Lula teve câncer, houve postagens em que se desejou a morte dele. Após a reeleição de Dilma, dentre outras atitudes, em adesivos para carros, pegaram a imagem dela e a colocaram, com as pernas abertas, no lugar em que a bomba é colocada para abastecimento do carro. Recentemente, eu me deparei com postagens em que pediram a morte de Temer, que, recentemente, foi internado. É assim que parte do Brasil faz “política”.