quinta-feira, 23 de março de 2017

"Esperando Godot"

O sentimento é de quase pena dos personagens quando se lê “Esperando Godot”, do Samuel Beckett. Não conseguem sair do emaranhado em que estão. A espera deles por Godot, no antienredo de Beckett, é o que define o destino deles. Calharam de estar juntos, mas nem sabem o que isso significa, se é que significa algo, nem sabem o que fazer com isso. Há um desespero, uma angústia de que se dão conta turvamente, mas que manifestam.

“Não somos feitos para a mesma estrada” [1], Estragon diz para Vladimir em determinado momento. Uma estrada inócua, improdutiva. A despeito disso, prosseguem, levando uma existência impotente. Enquanto os personagens esperam, ficam inventando o que fazer, mantendo diálogos em que tanto faz cogitar o suicídio, falar sobre sapatos ou mencionar Godot. Não há hierarquia de assuntos nos diálogos. Para eles, uma observação prosaica ou uma reflexão de cunho filosófico têm o mesmo peso. Os diálogos são expressão de abobamento e de desespero, um desespero de que os personagens não se dão conta com nitidez, embora consigam intuí-lo.

Outra fala de Estragon: “Estamos sempre achando alguma coisa, não é, Didi, para dar a impressão de que existimos?” [2]. Quer-se dar um sentido à existência, mas fora desse desejo não há nada que ajude os personagens a acharem algum senso na absurdidade da vida que levam enquanto estão esperando Godot. Estragon quer ter a impressão de que existe. Depois, é a vez de Vladimir:

“O certo é que o tempo custa a passar, nestas circunstâncias, e nos força a preenchê-lo com maquinações que, como dizer, que podem, à primeira vista, parecer razoáveis, mas às quais estamos habituados. Você dirá: talvez seja para impedir que nosso entendimento sucumba. Tem toda razão. Mas já não estaria ele perdido na noite eterna e sombria dos abismos sem fim?” [3].

Eles maquinam, cogitam, tentam, mas o que rege a existência é a espera por Godot. A espera é estúpida, as vidas deles são estúpidas, o que fazem durante a espera é estúpido. Em toda essa estupidez, há um desespero, uma angústia de que se dão conta com clareza fugidia, mas que expressam. É desolador acompanhar os personagens enquanto tentam tirar do vazio a existência sem sentido que levam. Terminada a leitura, e, suponho, em maior intensidade, a peça, leitores e espectadores olham para si mesmos quase que com a mesa pena com que olham para os que esperam Godot.
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[1] BECKET, Samuel. Esperando Godot. Tradução e prefácio de Fábio de Souza Andrade. São Paulo. Cosac Naify. 2005. Pág. 107.

[2] Idem. Pág. 138.

[3] Ibidem. Pág. 161. 

quarta-feira, 22 de março de 2017

Movente

Tu és poesia
que move,
que se move,
que me move.

Tu és poesia
que comove,
que se comove,
que me comove.

Movida e comovida,
movendo e comovendo,
tu me comoves,
tu moves meu verso. 

Partida entre Atlético/MG e Flamengo é comentada no jornal The Guardian

Não é segredo que sou torcedor do Cruzeiro. À parte isso, tenho interesse pela história do futebol, além de não me deixar levar por babaquices de parte de torcedores, que desvirtuam não só o ato de torcer, mas também a convivência com quem é apaixonado pelo time rival. Desse modo, caso decida comentar esta postagem, gentileza se valer de tom civilizado e sem entusiasmos desarrazoados.
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A edição de hoje do jornal inglês The Guardian responde a um leitor que pergunta sobre a partida entre Flamengo e Atlético/MG, em 1981; o jogo era válido pela Libertadores. Por aqui, a história é bem conhecida: José Roberto Wright, o árbitro, foi, pouco a pouco, demolindo o time do Atlético.

Esse jogo, de fato, é uma vergonha. Se, por um lado, o Atlético tinha um baita time, o do Flamengo também era. O Flamengo não precisaria da ajuda do árbitro para superar a equipe mineira, que, por sua vez, era um dos poucos times que podia jogar de igual para igual contra aquele time do Flamengo. As duas equipes tinham brilhos similares.

Tudo é muito turvo, muito suspeito. É quase impossível não supor ter havido interesse de alguém em que o Flamengo saísse vitorioso, não importa como. A moral ou o moral não dão a vitória para ninguém, mas o vencedor moral dessa partida é o Atlético. 

terça-feira, 21 de março de 2017

Convivência

Quando o poema emperra,
não insisto.
Não insistir 
não é largar o poema.
Posso ir à padaria,
tomar banho,
escutar música.
Não acabado,
o poema está comigo.
Eu o rumino,
finjo que não penso nele,
faço de contas que o esqueci.
Se houver acordo, 
o poema será material.
Se não, um aperto de mãos.
Acharei outras palavras.
Ele achará outro escrevente. 

Dois

Eu sou um corpo que ama.
Tu és um corpo que ama.
Quando meu corpo te ama,
quando teu corpo me ama,
somos um corpo que ama. 

M, s, c, n, p, f

Mudou uma letra.
Da morte, 
fez a sorte.
Mudou de novo:
fez a corte,
fez o corte.
Foi quando 
mudou-se:
foi para
o norte.
E lá,
com porte,
tornou-se
forte. 

Matemática amorosa

666.
999.

69.
69.
69. 

Ao vivo

Para a musa, 
poesia ao vivo.

Para a musa, 
vivo poesia.

Para a musa,
viva a poesia.

Para a musa,
vive a poesia.

A musa para:
poesia viva. 

Já leu meu novo livro?...

segunda-feira, 20 de março de 2017

Incidência

Quem é o autor dessa coincidência 
que me faz ficar bem sempre que
você está por perto?

Se descubro quem é,
aproveito e pergunto a ele o que fazer 
para que a coincidência nunca deixe de incidir. 

À risca

Não seguem tudo à risca
o homem da corda bamba quando passeia sobre um risco,
Usain Bolt quando flutua entre dois riscos,
o jogador quando inventa dentro de quatro riscos.

Qual é teu risco? 

sexta-feira, 17 de março de 2017

Presença

Tu me levas 
em tua dor que achas gostosa.
Tu me levas 
em tua umidade que sei gostosa.

O amor,
que não fica para depois,
fica depois. 

Cio

Teu cio me chama,
me esquenta, 
me desponta.

Conheço teu cio.
Dele, sei o cheiro e o sabor.
Eu me embrenho em teu cio.

De corpos unidos,
proferindo amor,
somos animais ciosos. 

Amor de Palavra à venda

quarta-feira, 15 de março de 2017

Livros à venda

Exemplares de meu mais recente livro, Amor de Palavra, já estão à venda na RR, Renato Representações, que fica no prédio da Rádio Clube, na Olegário Maciel 405.

Caso se interesse, há também exemplares do Dislexias, meu livro anterior. 

terça-feira, 14 de março de 2017

Exortação

Não entendo mesmo esse pessoal que anda querendo se aposentar jovenzinho. No mínimo, isso é egoísmo. Coisa de gente que só pensa em si, sem dar a mínima para o país. Detesto quem não se importa com a terra onde nasceu. Do que o Brasil precisa para dar o salto definitivo rumo ao progresso é de gente que assume o dever de trabalhar não para si, mas para os outros, para o país.

Eu me aposentei aos cinquenta e cinco anos, não contribuí com o que estou exigindo dos brasileiros, mas estou aqui apresentando o que é a solução para meu querido país, e para que a solução seja implementada, preciso da ajuda dos brasileiros que de fato vestem as cores do país, não tendo medo de assumir que não têm preguiça, que estão a fim de trabalhar para que sejamos um país desenvolvido, cônscio de que é necessário que trabalhemos muito para que sejamos grandes como merecemos ser.

Sou um homem de família. Tenho esposa, que é bela, recatada e do lar. Tenho filho pequeno. Sou um estadista, um homem responsável. Sei usar a mesóclise corretamente. Sou respeitado dentre meus pares, sou admirado pelo homem que sempre fui e pelo estadista que estou sendo. Tenho a consciência tranquila de que meu nome ficará na história como aquele que deu ao Brasil uma nova mentalidade, uma mentalidade progressista, em sintonia com novos tempos, apta a traçar para os futuros brasileiros um caminho próspero e rico.

Não entendo essas pessoas que dizem ser preciso trabalhar menos para que se possa desenvolver os potenciais de cada um. Ora, o potencial de cada um somente pode ser desenvolvido quando o ser mergulha integral e honestamente na vida em sociedade. É a sociedade que merece a dedicação total do ser. Quando digo a sociedade, eu me refiro ao Brasil. Os planos pessoais, os talentos pessoais e até alguma suposta genialidade são pequenos diante da grandeza que é fazer algum esforço pelo país.

Reparem: eu disse algum esforço. Com a proposta de novas regras para a aposentadoria, nem estou pedindo muito. Estou pedindo o mínimo que um brasileiro digno e verdadeiramente preocupado com o país pode fazer para que em uníssono, num todo coeso, vibrante e preocupado com o futuro, possamos trilhar um caminho de trabalho coletivo.

Povo do meu amado Brasil, vamos trabalhar juntos para que a nação seja grande. Não escutem aqueles que dizem ser impossível o desenvolvimento pleno do ser por causa das regras de aposentadoria que estou propondo. Isso é lorota de vagabundo que não está a fim de trabalhar. Tenho certeza de que o Brasil não é terra de vagabundos. Somos um povo trabalhador. Por isso mesmo, sei que, ao final, o Brasil vai me dar razão. É preciso trabalhar, meu povo. Vamos arregaçar as mangas, brasileiros! Lá fora há todo um país a ser construído. Conto com vocês. Muito obrigado.

Assinado: presidente Miguel Tener 

segunda-feira, 13 de março de 2017

Pedro foi à montanha procurar a namorada. Ao chegar, ela não estava mais lá. 

Shakespeare e Rosa

Ser ou
não ser:
eis o sertão. 

Conto 92

José Augusto ouvira dizer que as mulheres, quando interessadas no tamanho do pênis, reparam no pé ou no sapato, devido à história de que o tamanho do pé denunciaria o tamanho do pênis: se o pé é grande, grande é o pênis. Foi só saber disso que José Augusto passou a usar sapatos com números maiores do que o que ele usava. Quando Maria Augusta viu o pênis de José Augusto, parou de pegar no pé dele. 

sábado, 11 de março de 2017

Discurso

Ontem, durante lançamento de meu livro, eu leria um discurso. Na hora, eu o achei longo para a ocasião; acabei não o lendo. Ei-lo.
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Nos últimos dias, fiquei pensando sobre se eu faria ou não um discurso aqui, nesta noite. A princípio, minha intenção era agradecer às várias pessoas que me ajudaram. Só que, com o passar dos dias, senti a necessidade de não somente agradecer, mas também de dizer algumas outras palavras. Este primeiro parágrafo evidencia que a vontade de dizer mais palavras além dos agradecimentos prevaleceu.

Recentemente, tenho pensado no óbvio e em como lidamos com ele. Calar o óbvio é um modo de lidar com ele, mas não é esse o modo que tenho escolhido quanto ao que sinto, ao que penso, ao que me ocorre, às impressões que me visitam. A partir do momento em que decido não me calar, há algo sobre o que não posso deixar de refletir: na maioria das vezes, o problema não está no óbvio em si, mas no modo como o expressamos.

Existem óbvios que não enxergamos. Esse paradoxo precisa ser levado em conta, e penso que a literatura tem o potencial de se sair bem ao se deter no óbvio, seja nos fazendo enxergá-lo a partir de ângulo inédito, seja fazendo com que enxerguemos algo que é óbvio mas que não era percebido por nós. Todavia, minha intenção neste momento não é tentar fazer literatura. Quero dizer coisas óbvias, mas sem fazer com que soem como se eu estivesse com a intenção de soar como literato.

Sempre digo que somos maus leitores do outro. Há desvantagens em não sabermos ler o outro, pois isso, não raro, leva à incompreensão. Contudo, há também algumas vantagens em não sabermos compreender o outro em totalidade, mesmo ele se denunciando o tempo todo (todo mundo se denuncia o tempo todo). Afinal, seria constrangedor se o outro pudesse deduzir tudo o que somos, não importa o grau de convivência que esse outro tivesse com a gente. 

Por um lado, houvesse alguém capaz de ler a plenitude do que somos, isso poderia gerar situações embaraçosas; por outro, é preciso que saibamos ler o outro quando não há obviedade nas ações dele. Uma pessoa que rega plantas diz muito de si; alguém que chuta um vira-lata desnutrido diz muito de si.

Essas questões acabam me levando a esta pergunta: o que alguém que se dedica a escrever diz de si? É claro que não posso dar uma resposta que valha para todas as pessoas que se dedicam à escrita. Vou oferecer uma resposta profundamente parcial e individual para o questionamento do que quero dizer ao me dedicar ao ato de escrever. Esse ato, por si, não precisa de justificativa nem de explicação, bem sei. A literatura não precisa se justificar nem se explicar. Ela precisa ser... escrita. O resto é com os leitores.

Mesmo assim, permitam-me algumas coisas que podem soar muito óbvias. Tenho consciência disso. Se as digo, não é por considerar vocês péssimos leitores do outro, que, neste momento, sou eu, mas por acreditar que o óbvio precisa ser dito. Eu o digo agora, em forma de discurso. Relevem se eu soar muito... óbvio.

Escrevo por acreditar na rebeldia. Escrevo por acreditar na beleza e na inteligência. Por acreditar que o espírito humano tem potencial para ser nobre. Não tenho ingenuidade; sei que somos capazes de atrocidades (a própria literatura mostra isso), que somos fracos, mesquinhos, mentirosos, preguiçosos, interesseiros, ingratos, bobos, maldosos. Em contrapartida, a literatura é uma possibilidade de acessarmos algo em nós que é elevado e bonito.

Escrevo por acreditar que o ser humano tem o dom de aprender, de melhorar, de se lapidar, de se redimir. Podemos seguir vida afora sendo os mesmos seres limitados de sempre, mas a profunda e dedicada convivência com a literatura, seja como leitor, seja como escritor, pode fazer nascer um denso e sólido senso de humanidade. Ao escrever, quero me humanizar, ao mesmo tempo em que, não nego, quero humanizar o outro.

Escrevo por acreditar no encontro. Distantes no tempo e no espaço, escritor e leitor realizam encontro por intermédio da palavra. Ninguém quer ir mulambento ao encontro do bem-querer. O escritor que leva a sério seu ofício se prepara para o leitor,  embeleza-se para ele. As palavras de alguém que se entrega ao ato da escrita são o melhor que esse alguém pode oferecer ao outro, nesse encontro bonito entre escritor e leitor, a despeito do que o leitor possa pensar das palavras que lhe estão sendo ofertadas. Sim, escrever é uma oferta. Seria hipocrisia minha eu dizer que me é indiferente se o leitor está embelezado ou não para receber a oferenda. 

Escrevo porque é preciso ter esperança, é preciso fugir da barbárie. Escrevo para tentar me disciplinar. Num rasgo de honestidade, é forçoso que eu diga: escrevo porque quero ser amado. Quero ser amado porque sei o que é amar as palavras de tantos que tenho lido durante minha vida. Sei de minha pretensão, mas avisei há pouco haver aqui um momento de honestidade.

Por fim, no que pode muito bem ser delírio quixotesco, escrevo na esperança de deixar um legado. Reconheço haver um quê de vaidade boba nesse desejo de haver algo meu entre vocês. Em contrapartida, asseguro que há algo maior nessa vontade. É que eu sou melhor diante da beleza. Se me sinto com alguma capacidade de produzi-la, não posso deixar de tentar melhorar supostos leitores. Não ao modo de quem oferta sabedoria ou conselhos, mas à maneira de quem, tocado pelo belo, quer que outros o sintam.

Muito obrigado.

quinta-feira, 9 de março de 2017

Entrevista para a Clube FM

Gororoba

A mulher bate panela.
O presidente diz que 
a mulher participa da economia,
identificando “flutuações econômicas 
no orçamento doméstico”.
Preparado em banho-maria,
o golpe está servido. 

Entrevista

Neste áudio, sou entrevistado pelo escritor e professor Luís André Nepomuceno. Falamos de meu mais recente livro, Amor de Palavra, que será lançado amanhã (10/03), bem como de outros assuntos.

quarta-feira, 8 de março de 2017

Sobre a musa

Não preciso de musa para escrever.
Eu escreveria sem musa.
Mas tu és musa quando escrevo.
Mas não só.

Tu és musa quando leio e quero compartilhar contigo,
quando aparo a barba,
quando compro roupa nova,
quando escovo os dentes,
quando escuto uma canção,
quando o jogo de futebol começa,
quando há um filme,
quando tomo banho,
compro livro,
dirijo com cuidado,
capricho na caligrafia,
não me esqueço de tomar água,
não desisto,
espano a preguiça,
conto uma piada,
fotografo,
acordo,
como pamonha frita,
estou no cerrado,
tenho uma ideia, 
escuto Marisa Monte.

Não preciso de musa.
Mas sei que, antes de desembocar em palavra,
tu inspiras vida. 

segunda-feira, 6 de março de 2017

Livro à venda

Pessoas, a versão digital e a versão em papel de meu mais recente livro, Amor de Palavra, já estão à venda no site da Chiado Editora. Em breve, o livro estará à venda nas livrarias do Brasil também.

Para já adquirir o livro, basta clicar aqui

Convite

É nesta sexta. Bora nessa?...


domingo, 5 de março de 2017

Meteorologia

C
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u
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f
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Amor corpo adentro. 

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Prévia

Estou aqui bolando o que vou falar no dia do lançamento de meu livro (prometo que serei breve). Abaixo, trecho do que digitei. 
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Escrevo por acreditar no encontro. Distantes no tempo e no espaço, escritor e leitor realizam encontro por intermédio da palavra. Ninguém quer ir mulambento ao encontro do bem-querer. O escritor que leva a sério seu ofício se prepara para o leitor, embeleza-se para ele. As palavras de alguém que se entrega ao ato da escrita são o melhor que esse alguém pode oferecer ao outro, nesse encontro bonito entre escritor e leitor, a despeito do que o leitor possa pensar das palavras que lhe estão sendo ofertadas. Sim, escrever é uma oferta. Seria hipocrisia minha eu dizer que me é indiferente se o leitor está embelezado ou não para receber a oferenda. 

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Convite

Árvores


Não mais

Desde hoje,
não há mais
os dois.
Em horas,
a manhã 
vai renascer.
Eles só 
vão acordar.
Gente demora
para renascer. 

Quatro segundos de "Sexy"

Tenho escutado “Sexy”, do Paulo Ricardo. A letra é uma espécie de “Olhar 43”, só que sem a força desta; “Sexy” é cheia de chavões, não tem o lirismo cheio de energia de “Olhar 43”.

Todavia, aos três minutos e seis segundos da canção, uma cantora de apoio faz uma intervenção que é muito, muito bonita. São quatro segundos, um dos mais belos quatro segundos da música pop. Há sensualidade, ternura, elegância, suavidade, feminilidade, aconchego na voz da cantora, que transmite doçura e paz.

(Será a Anitta nesse vocal de apoio? Não tenho a ficha técnica da gravação aqui. É que há uma versão da música em que ela canta com o Paulo Ricardo. Na que tenho escutado, a Anitta não canta, mas pode ser que participe desse vocal de apoio.)

Não me canso de escutar esses tais quatro segundos, que tanto têm me dado uma emocionante vivência do belo. 

Agora, aqui

Minhas dúvidas, 
minhas vitórias 
de que ninguém soube,
meu amor,
meu corpo.
O que sou cabe 
neste presente.
Nele me fecho.
Não ao modo de um misantropo, 
mas como quem se guarda, 
se resguarda, 
se lapida como presente. 

Conto 91

Manhã. A chuva caía suave. Os dois estavam num sítio pequeno, nas proximidades da cidade. Mesmo perto do perímetro urbano, a pequena casa era rústica, não tinha os recursos tecnológicos da modernidade. Os móveis eram antigos. O casal estava sobre velha e forte cama. Ana Clara se deitou de bruços, abriu-se. Pediu a Josué que fizesse bem forte. Deitado sobre as costas dela, quanto mais forte ele fazia, mais forte ela pedia a ele para fazer. Ele segurou com robustez as mãos dela. Continuaram com vigor. Ao terminarem, ele saiu do quarto e foi buscar café. O casal estava mais quente e mais crepitante que as ardentes achas da fornalha. 

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Pressa

Num tempo em que tudo tem de ser rápido, em que nada pode demandar esforço, qualquer texto de dez linhas já é chamado de textão. Ao se deparar com a disposição das palavras no papel ou na tela, o leitor nem começa a leitura. Há mais o que fazer. No tempo da pressa, o mínimo já é demais. O amor tem de ser feito com pressa, a leitura não pode demandar mais do que alguns segundos, a atenção não pode se concentrar por mais de alguns minutos.

Se não se reserva tempo para se apreciar coisas que demandam algum esforço, nem é preciso dizer que o tempo dedicado a coisas que exigem disciplina por parte de algum criador é buscado por poucos. Nem tanto porque deixam de realizar porque terão público pequeno (eles sabem de antemão que o público será restrito), mas porque há poucos que não caíram na armadilha da rapidez, do conhecimento que vem fácil, da felicidade virtual ou da que vem por meio de fármacos.

O texto tem de ter poucas linhas, os cortes no filme precisam ser rápidos, os diálogos na vida real não podem ser profícuos. Tudo tem de ser rápido, tem de ser palatável. Nada pode dar trabalho, nada pode exigir esforço, nada pode demandar concentração.

A escola, que deveria ser por excelência o espaço do pensamento e da disciplina (não a disciplina militar), acaba se rendendo ao mundo da rapidez e do entretenimento. Em busca de uma linguagem que esteja em sintonia com o que a contemporaneidade tem de perigoso e de prejudicial, a escola, não raro, acaba investindo em estratégias tão superficiais e fugazes quanto as futilidades do mundo da rapidez e da ilusão das coisas fáceis.

Alega-se que o professor que não tiver a habilidade de ser uma espécie de dublê de animador de programa de auditório de consumo fácil nem tiver sempre uma apresentação qualquer (qualquer mesmo) para ser projetada numa parede ou numa lousa branca não fará sucesso. Esse professor, nesse viés, não conseguiria se comunicar com as novas gerações, que estão conectadas, que têm informação nas pontas dos dedos, que têm acesso imediato ao que está do outro lado do mundo.

O caso aqui não é o de compor um manifesto contra a tecnologia e suas praticidades. Isso seria patético. A questão é que, para soar sedutora, a escola, com frequência, acaba embarcando em modismos que, em essência, retiram da pessoa uma das coisas mais poderosas que ela tem, que é a capacidade aprimoramento mental.

Num mundo em que tudo tem a obrigação de ser fácil, agradável, indolor, engraçado, charmoso, sedutor e carismático, professores que não ficam fazendo macaquices em sala de aula têm, amiúde, a competência colocada em dúvida, às vezes a ponto de serem demitidos. Certa vez, numa pós-graduação, um docente teve avaliação ruim por parte dos alunos a partir de critérios que são sintomáticos da contemporaneidade: segundo vaticínio dos discentes, que não eram mais de vinte, o professor era incompetente porque falava baixo, dava aula sentado, não era engraçado e não se valia de eslaides.

Mesmo no ensino superior, o pensamento de que as coisas vêm fáceis e de que devem ser transmitidas com facilidade tem imperado. As pessoas querem rapidez, querem o sucesso agora, não podem dedicar anos de suas vidas ao cultivo de um ideal, de uma habilidade, de um aprendizado, de um livro. Para estar em sintonia com o que é contemporâneo, a rapidez é condição de que não se pode abrir mão. Quem tem uma abordagem que não se pareça com isso estaria obsoleto, retrógrado, sem graça, ranzinza.

O conhecimento não impede o humor, a leveza, o gracejo. Mas não se pode ter medo de mostrar às pessoas que o conhecimento de que essas mesmas pessoas se valem não veio no tempo de uma conversa num aplicativo de celular. Conhecimento e felicidade genuína demandam esforço, disciplina. Nem a escola nem o cinema nem a televisão nem os livros precisam ser caretas, engessados. Mas é preciso não cair na ilusão de que aquele que, em uma hora, deu uma olhadela em trinta páginas na internet, ouviu quinze ou vinte músicas, bateu papo em aplicativos eletrônicos em trinta e três grupos e acompanhou o jogo pela televisão ganhou mais do que aquele que passou esses mesmos sessenta minutos concentrado na leitura de algum livro, ainda que esteja ele carcomido pelas traças. 

Festa da empresa

Quantos são?
Quarenta?
Cinquenta?
Não importa.
Cada um é mais do que o bastante,
mais do que não sabe.

Há risos, piadas, olhares, rusgas encobertas.
Observo os rostos, os gestos, os caminhares,
a fumaça do churrasco, a música, os corpos que, 
por enquanto tímidos (ainda não houve álcool o bastante),
querem se libertar: o chefe não está,
e se estivesse, não seria para dar ordens,
ainda que seja o que ele queira (ele sempre quer).

É só a festa da empresa.
Iguais a tantas que ocorrem neste momento
e a todas que já ocorreram.
As quarenta ou cinquenta pessoas são um todo.
Parecem felizes, predispostas à pândega.

Eu escrutino cada um.
Aquele ali ri alto, mas está apreensivo,
pois não sabe se a namorada vai perdoá-lo.
Aquele acabou de chegar com a esposa e com os filhos;
não se cogita que ele preferiria estar em casa descansando.
Aquela outra chegou com o marido e com o filho;
não se supõe que ela gostaria de estar com o amante.
Outro casal vai pegar chope;
não se sabe o quanto estão bem um com o outro.
Mais adiante, lá no canto, o que veste camisa azul
não suporta mais o jeito mandão e asséptico da esposa.
Aquela outra se sabe conservadora, mas queria ser diferente.
Aquele outro pensa que precisa deixar o comodismo de lado.
O rapaz de preto se aproxima da chefe pensando em seduzi-la.
Ninguém sabe da paixão que a moça de vermelho nutre pelo
colega de trabalho, que está usando  bermuda e camiseta.
Esquadrinho os outros, sabendo-me esquadrinhado. 

A festa prossegue.
Ao mesmo tempo em que é um grupo,
com suas leis físicas e pessoais,
é feita de pessoalidades,
com suas leis físicas e pessoais.
Mistura do todo com o que é cada um,
a festa se move, se embebeda, 
revela-se, abraça-se, beija-se,
num misto de faz de conta,
confissões e desejos, que,
neste momento da festa,
já são menos velados. 

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

A política de Raduan Nassar

Nenhum escritor tem a obrigação de se engajar politicamente. O único dever de um escritor é escrever bem, por mais vaga que a expressão “escrever bem” possa soar. Há grandes escritores que não se envolveram com questões políticas. Já outros decidem se valer do que dominam — a palavra — para emitir opiniões politizadas.

Foi o que ocorreu recentemente com o genial Raduan Nassar. Na terça-feira, em São Paulo, durante cerimônia em que recebeu o Prêmio Camões de 2016, Nassar, em seu discurso, criticou não somente o golpe empreendido por Temer, mas também algumas das lambanças da gestão golpista.

Depois, em seu discurso, Roberto Freire, ministro da cultura, defendeu o governo de Temer, ao mesmo tempo em que criticou Raduan Nassar. Isso acabou gerando mal-estar durante o evento e protestos na plateia, que por sua vez foi criticada por Freire.

É um alento saber que Raduan Nassar, mesmo tendo abandonado a escrita literária, não se omitiu diante do cenário político do Brasil de hoje. Autor de uma literatura contundente, dono de uma escrita densa e elegante, Nassar deixou claro que suas palavras têm força também ao serem claramente políticas.
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Para ler sobre o imbróglio ocorrido durante a premiação para Raduan Nassar, este linque, bem como este, podem ser úteis. 

Apogeus

Escrever para ti é escrever para o amor.
Tu és o amor que preciso ter nos braços.
Tu vens, teu corpo em minhas mãos.
Não há a melhor versão de mim sem ti.

Eu tenho dois apogeus.
Um deles é quando estou contigo.
Eu te transformo em palavra.
Ela é meu outro apogeu. 

Mais um livro de minha autoria

Dez de março.

Essa é a data de lançamento de meu próximo livro, Amor de palavra. Em breve, detalhes quanto ao local e ao horário.

Vamos?... 

A história por trás da foto (102)


Lúdico

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Navegantes

Barcos têm leme.
Navegaríamos juntos.
Agora, à deriva,
sabemos que não basta
o arrojo de amar:
a decisão final é do mar. 

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Os dois

Viverão o
Cântico dos cânticos,
comporão hinos.
Vão tomar sorvete,
idealizar jantares.
Vão dar presentes
um para o outro.
Inventarão surpresas,
códigos que só os dois
sabem reconhecer.

Herdaram um arcabouço
de tradições e de
inevitáveis clichês.
Não sendo poetas,
viverão poesia.
Inéditos um
para o outro,
revivem séculos
de um amor
que não se cansa,
mesmo sendo
os dois cansáveis.

Não sabem ainda
com clareza que
entre eles há um
amor que começa.
Haverá susto e medo
quando souberem.
Aí já será tarde.
Do amor, já serão
cativos, devotos
e fazedores. 

Contraste

De cor

Minhas pegadas 
têm imagens 
e palavras.
O que ficou 
é legado.
O coração,
herança 
que recebi,
fulminante,
deixando de
repercutir,
fará em mim
e de mim
silêncio. 

“Tudo vai ficar bem”

No passar lento-rápido dos dias, quanto tempo é necessário para que uma pessoa supere uma experiência traumática? É a reflexão feita em “Tudo vai ficar bem” (2015) [Every Thing Will Be Fine], do diretor Wim Wenders. O roteiro é de Bjørn Olaf Johannessen. Logo nas cenas iniciais, o escritor Tomas Eldan (James Franco), dirigindo carro durante nevasca, atropela uma criança.

A partir daí, passamos a acompanhar a vida não só de Tomas Eldan, mas também da mãe do garoto atropelado, do irmão dele, que quase havia também sido atropelado no mesmo acidente, e dos que gravitam em torno de Eldan. Se, por um lado, o tempo se esvai rápido, por outro, a tentativa de superação de um evento radical é algo feito um dia após o outro.

Louvável como “Tudo vai ficar bem” é sem pressa. Isso, todavia, está longe de implicar monotonia. Os cortes não seguem a linguagem de videoclipe ditada por Hollywood. As dores de Eldan e de Kate (Charlotte Gainsbourg), a mãe do garoto atropelado, teimam em não irem embora, fazendo com que o espectador se pergunte se eles vão, por fim, sucumbir. Num curioso paradoxo, o ritmo lento é capaz de gerar momentos de tensão e de suspense, principalmente a partir de quando Christopher (Robert Naylor), o irmão que sobrevivera ao atropelamento, anos depois, entra em contato com Eldan.

A sequência inicial da produção mostra Tomas Eldan num cubículo. A luz que vem de fora e passa por uma janela enche o ambiente de calidez. É instigador observar justamente a incidência da luz natural sobre os personagens, como se ela estivesse, em várias sequências, a sugerir uma metáfora... luminosa, sem contudo definir se o desfecho será de fato reluzente. “Tudo vai ficar bem” é uma bela reflexão sobre o efeito da passagem do tempo nos sentimentos. 

sábado, 11 de fevereiro de 2017

A história por trás da foto (101)

No todo, diz-se, da vida, que é preciso tentar fazer o melhor possível a partir do que se tem. O princípio também se aplica quando se fala da vida de modo mais específico, quando se fala do que é derivado da vida, do que é consequência ou desdobramento dela. Fotografar a natureza é uma das coisas da vida. Nessa específica ação, vale o princípio geral de que é preciso tentar fazer o melhor possível com o que se tem.

Hoje pela manhã, tendo saído com amigos para fotografar o cerrado, comentamos que as condições climáticas poderiam não ser as ideais. Durante todo trajeto, a chuva se insinuou (nos poucos minutos em que caiu, veio tão discreta que mal nos demos conta dela). O tempo estava nublado; mencionamos que um céu bem azul poderia compor um belo fundo em boa parte das fotos.

À parte isso, não há falta de razão em dizer que há beleza num dia cinza ou nublado. Não bastasse isso, dependendo do tipo de foto que se faz, é exatamente a atmosfera acinzentada que pode conferir ao registro uma luz mais suave, menos “dura”.

Enquanto eu tirava a foto desta postagem, pensei que num cenário ideal haveria um céu bem azul compondo o fundo. A manhã estava tão nublada que demorei mais do que o usual para focalizar a ave. Outra dificuldade foi a de que o Sol estava por detrás da seriema, ainda que já mais afastado do horizonte; quando há contraluz, o registro se torna um pouco mais melindroso.

Tendo conseguido o foco, fiz alguns cliques. Naturalmente, não se conta com a colaboração dos modelos. Como a todo instante olham para diferentes direções, como mexem o corpo a todo momento, nada mais comum do que fotos ruins. Mesmo assim, pensando-se de modo geral ou de modo específico, fazer o melhor a partir do que se tem. Gostei da imagem. 

Fotopoema 403

Dia no cerrado














segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Sem amor

Embora o amor carnal e seus desdobramentos seja temática em grande parte da literatura, ele não é imprescindível para que haja um grande livro. Penso em “Viagens de Gulliver” e em “Moby Dick”. Ainda que se alegue que em “Moby Dick”, logo no começo da história, tenha havido contato físico entre o narrador e o personagem Quiqueg, o que houve na estalagem não foi a edificação de uma relação amorosa no sentido de se construir algo ao longo do tempo. Foi uma cena no enredo; mesmo tendo sido uma cena que suscite dúvidas e cogitações, isso não faz com que o livro tenha um enredo romântico, não importa o sentido que se dê ao termo “romântico”. “Viagens de Gulliver”, com sua galhofa amarga, e “Moby Dick”, com sua elevada cogitação metafísica, são obras destituídas de amor. 

"Flores em você"


A poeta que (não) é

Se num dia
a poeta de 
alguns versos
se descobrir
capaz de muitos,
haverá poesia muita.
Que num dia 
ela se espante consigo.
Tendo acordado,
vai despertar 
nos outros
a vontade de
poesia.
Que a poeta 
ache em si
desejos
de versos, 
diversos. 

Urbano

Engarrafamento.
Os homens começam 
a buzinar.
Os carros,
incomodados pelo barulho,
empacam. 

Marisa Letícia

O Borges (ou, talvez, o Jung — ou ambos) escreveu que quando um ser humano morre, toda a humanidade perde. Li isso em minha adolescência. O ensinamento ficou.

Eu não saberia dizer com exatidão para que serve a literatura (ou a leitura). Já escrevi que eu seria pior sem a literatura. Sou melhor quando leio. A literatura faz com que eu busque o humano em mim e no outro. Isso já é mais do que o bastante para que eu leia.

O que leio, leio para me humanizar. A leitura, por si, não implica por parte do leitor a empatia pelo outro (um torturador pode ser um leitor ávido). E não é preciso ser um leitor para se compreender a dor do próximo.

Não há como eu saber o que eu teria sido sem a leitura. Sou fruto de muita coisa de que nem tenho ciência; dentre as coisas de que tenho, sou fruto do que leio. Também a literatura robusteceu em mim o senso de compaixão. 

Aquém

Não sei se o corpo transcende.
Não sei se existe para dar ideia 
de um mundo elevado.
Coisas que não cogito.
Quando há pele,
sou superficial.

Tive vislumbres de teu corpo.
Com ele, eu quis compor enredo.
A história não ocorrida,
eu a sinto em cada célula. 

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Os bastidores de um texto

Sempre tive fascínio pela feitura das coisas. Por isso é que gosto tanto de conferir como filmes são rodados. Gosto de conhecer os bastidores de como as coisas são produzidas. Revelar como se faz o truque não tira o encanto da mágica. Algo similar vale para a literatura. É bom demais conferir fac-símiles com correções feitas pelos autores. É sempre revelador e instigante cotejar o rascunho com o original.

Eu sempre tive vontade de registrar toda a feitura de algum texto meu, desde quando a primeira letra é digitada; contudo, padeço de uma preguiça congênita, imensa e vergonhosa. Essa preguiça ou faz com que eu fique adiando as coisas ou com que eu nem as realize — o que é comum.

Ontem, escrevi um poema à mão, o que eu não fazia há muito tempo. Hoje em dia, ou escrevo o texto no bloco de notas do celular ou o digito no computador. O celular estava ao alcance das mãos, mas como havia um caderno e uma caneta à disposição, escrevi o poema usando uma caneta.

De antemão, costumo definir a temática. Parece meio óbvio, mas tenho de deixar bem claro para mim a temática do que ainda nem começou a ser escrito. No caso de ontem, a ideia era escrever um poema sobre o astral que há depois do amor feito. Ao começar a escrever o texto, escolhi o começo “o corpo, / há pouco lancinante, / descansa malemolente” (gosto do adjetivo “malemolente”, não somente pelo significado, mas também por achá-lo uma palavra gostosa de ser pronunciada).

Assim que terminei de escrever “malemolente”, ocorreu-me “sensação de amor cumprido”. Para não me esquecer do trecho, que acabaria não entrando na versão final, por eu achar que ele transmite a sensação de que o amor seria um dever, uma obrigação, eu o anotei à parte, linhas abaixo.

Terminado o verso “e no outro”, que também não entraria na versão final, por eu considerá-lo redundante, já que gozar para o outro pode implicar gozar no outro, tive vontade de reelaborar o trecho “o corpo, / há pouco lancinante, / descansa malemolente”. Em vez de mantê-lo na abertura do poema, eu o reescrevi no “meio” do texto. É claro que esse gozar no outro pode não valer no caso da masturbação, por exemplo, mas ainda assim, optei por não inserir o verso “e no outro” na versão definitiva. 

(Escrevi “versão definitiva”. Talvez seja válido lembrar que um texto poderia ser reescrito ou corrigido diversas vezes, até a ponto de ficar bem diferente do que era em seu esboço original. Todavia, nunca fui de modificar radicalmente os esboços que tenho. Não é exagero quando dizem que um texto nunca está terminado.)

A seguir, era minha intenção fazer referência ao nirvana. A princípio, escrevi “nirvanicamente”, que é a palavra sobre a qual há um rabisco, depois de “curtindo”. Só que o advérbio “nirvanicamente” rima com “malemolente”, o que não me agradou. Para fugir da rima, escolhi “íntimo do nirvana”.

Ao encerrar o rascunho, usei o trecho “sensação de amor cumprido”, que estava de molho, terminando assim uma versão preliminar do texto. Quando essa versão inicial é terminada, releio o que produzi. Caso essa releitura traga alguma insatisfação, tento consertar o já escrito. Se não consigo, eu geralmente deleto o trabalho. Na releitura, como o trecho “sensação de amor cumprido” não me agradou, pela razão já explicada, na hora de digitar o texto, eu o substituí pelo que está na versão definitiva.

Como escrevo textos curtos, esse meu trabalho de revisar e de corrigir é rápido, não demanda grandes esforços. Por fim, digo que minha caligrafia, embora nunca tenha sido das melhores, não é tão ruim quanto a que está no rascunho. As linhas foram rabiscadas enquanto eu estava em minha cama. Se o caderno estivesse sobre uma mesa, estando eu numa cadeira, a caligrafia estaria um pouco melhor.

Escrever é algo ligado a preferências, a idiossincrasias. Há deliberações, mas não se pode esquecer de que há muito de inconsciente na produção de um texto. Sempre encarei a produção literária como um ato, em sua conclusão, racional. Isso, vale lembrar, não significa dizer que eu não tenha ciência do papel do inconsciente, da intuição ou de quaisquer outras coisas não ligadas à razão. 

Só que de nada valeria a intuição, a imaginação ou o inconsciente por si mesmos. Razão e imaginação estão presentes no trabalho literário numa via de mão dupla, de modo que uma auxilia a outra, a ponto de ser difícil precisar o que é fruto da razão e o que é fruto da imaginação, o que, além do mais, seria inútil, seria fatiar o que deveria ser encarado como um todo, desde antes da feitura até o ponto em que o texto está pronto.