quarta-feira, 28 de novembro de 2012

BONECAS

Crianças de um a setenta e cinco anos faziam a festa no tradicional almoço de domingo. As mais velhas falavam e se divertiam com assuntos diversos na varanda. As mais novas se pulverizavam no restante da casa.

Foi quando uma delas voltou para a varanda. Era uma garota de dois anos, com a vivacidade que a idade lhes confere. Tinha consigo uma boneca, a qual era quase do tamanho da menina, que se atrapalhava um pouco ao carregá-la, embora conseguisse realizar a tarefa.

Os mais velhos ficavam perguntando para a garota o nome da boneca, quem era o namorado dela e coisas afins. Quando um deles fez menção de que a tomaria da criança, ela se afastou correndo. Na fuga, a boneca caiu. Foi quando uma das tias disse:

— Lorena, larga essa boneca pra lá. Deixa ela no chão. Ainda mais esse trem feio, preto. Boneca preta. Aff...

A menina não deu bola para o que disse a tia, pegou a boneca no chão e foi mostrá-la para outra de suas tias, que embarcou no clima da criança e brincou com as duas, ora fingindo que ia tomar o brinquedo da menina, ora beijando ambas.

Parecendo já enfastiada dos beijos, Lorena, mantendo a posse da boneca, foi procurar outros ares. Enquanto cruzava a varanda, a tia que sugerira que ela deixasse a diversão entrou em cena novamente. Segurou a mão da criança, interrompendo o trajeto dela, e disse:

— Lorena, deixa a boneca pra lá. Você é tão bonita. Ela é preta, é feia. Joga ela fora.

Lorena:

— Fora?

— É. Jogar fora, pra longe — as palavras foram reforçadas com gestos amplos.

A garota parecia intrigada. Tinha cara de quem não entendia muito bem o que estava acontecendo. Com expressão curiosa, olhava para a tia e para a boneca. Desistindo de qualquer tentativa de compreensão, deixou de conversa com a tia e saiu, levando consigo a boneca.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

HAICAI 28

Peço-te calma.
Pondera: não
vendas tua alma.

domingo, 25 de novembro de 2012

OUVIDO RUIM (3)



Hoje pela manhã, no rádio, escutei “Só a lua”, sucesso da década de 80 com a banda Absyntho. A rigor, um trecho era, parece-me, entendido incorretamente por mim; já de outro trecho eu simplesmente não entendia nada.

O trecho que eu entendia mal diz “tudo que naturalmente um dia aflora”. Eu entendia “tudo que naturalmente te aflora”. (Pesquisa rápida no Google mostrou que há “sites” em que a letra está como eu entendia. Baixei a canção; escutando-a, tive a impressão de que o correto é “naturalmente um dia aflora” — mas meu ouvido é uma lástima.) 

Já o trecho de que eu nada entendia diz “o prazer real não vem só em caçar”. Nessa parte, era como se o vocalista cantasse num idioma desconhecido por mim, pois eu nada entendia.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

CONTO 55

Prestes a fazer xixi, Hermano viu uma formiga na água do vaso. A princípio, não entendeu se ela estava nadando tranquilamente ou se estava se debatendo para não se afogar. Perguntou-se como ela fora parar lá e se as formigas sabiam nadar, enquanto continuava observando a que estava no vaso. Num momento, pareceu mesmo que ela sairia da água, pois já estava na borda. Mas deu meia-volta, debateu-se por mais alguns segundos e morreu. Hermano se surpreendeu, pois foi como se a morte tivesse vindo num átimo: ele esperava movimentos lentos e pausados, languidamente agonizantes — não aquele parar súbito demais. Num último devaneio, perguntou-se o motivo pelo qual a morte dela, criatura como tantas outras, deveria valer menos que a nossa. Depois, fez xixi e deu descarga.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

PERGUNTA

Em que tua imaginação te transforma?...

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

SEDUÇÃO

Sem alarde, o fruto
se faz, fica pronto
e seduz o pássaro.

Discreto e silente,
o néctar amadurece
e seduz a abelha.

Espalham-se em
viagens ao vento
o fruto e o néctar.

DÚVIDA

Ouriço 
ou a quilo.

DICIONÁRIO (38)

desfalecer. O mesmo que ressuscitar. 

APONTAMENTO 161

Quando olhar para as coisas, lembre-se de que o mar não termina ali no horizonte.

sábado, 17 de novembro de 2012

ELEVAÇÕES

DICIONÁRIO (37)

ruga. A pele aprendeu sobre o passado.

DICIONÁRIO (36)

cicatriz. Não é só na lembrança que o passado escreve.

APONTAMENTO 160

Só há duas coisas a se fazer com o ressentimento: guardá-lo ou tranformá-lo em arte.

AUTOR E OBRA

Não contenhas teus poemas.
Podem não ser o que gostarias que fossem,
mas podem ser melhor do que és...

FOGO

Paixão é chama. 
Chama que eu vou. 

GRITO OCO

Os colunistas dos meios de comunicação andam parcos de ideias e bons de gritaria. Não são bobos. Sabem que quanto mais escreverem bravatas ou falarem tolices, terão seus textos reproduzidos; serem achincalhados é o troféu a que aspiram. O público reage fortemente à ausência de ideias.

Cada profissional quer ser mais retumbante do que o outro. O que vale é causar impacto, ser comentado nas redes sociais, gerar polêmicas bobas. Quanto mais “odiado”, melhor. Textos elegantes e mentes refinadas não repercutem. Contratantes e contratados se divertem.

Não sei se o que vários colunistas querem é ser originais ou se querem chamar a atenção. Se tentam ser originais, fracassam, pois gritar está na moda (sempre esteve); se tentam chamar a atenção, conseguem,  pois substituir pensamentos por berros está na moda (sempre esteve). Não se pode negar: são bem-sucedidos.

Não há espaço para a sutileza. Camuflam a falta de ideias sólidas com o grito mal-educado. Existe algazarra, uma espécie de disputa para se aferir quem consegue falar mais alto dizendo as maiores bobagens. Não se busca a expressão clara de uma ideia, mas o grito selvagem que tenta camuflar a ausência delas. Não somente quando há o áudio. Palavras no papel ou na internet também gritam.

Entendo que chefes querem retorno. Querem audiência, querem leitores. Nesse afã, empregados e empregadores parecem satisfeitos se qualquer coluna feita com estudada veemência causa repercussão. Sabem que excelência não traz audiência nem leitores.

Quem não quer a gritaria e ainda acredita em coisas como a sutileza torna-se refém do vozerio de articulistas cheios de empáfia. Em vez da ideia, o grito; em vez do debate, a iconoclastia gratuita. Se não berrarem, não conseguem ser notados.

domingo, 11 de novembro de 2012

MY BLUEBERRY NIGHTS

Há duas cenas de que muito gosto, por causa da sutileza delas. As duas, do filme “Um beijo roubado” (2007), do diretor Wong Kar Wai. Foi o primeiro filme dele em língua inglesa. Um dia desses, assisti a ele novamente, outra vez me emocionando com as duas cenas.

Há um instante em que Jeremy (Jude Law) se ajeita como pode sobre balcão de um café para beijar Elizabeth (Norah Jones), que dormira depois de um porre. A boca dela está suja por causa de uma torta cujo sabor dá título ao filme — “My blueberry nights”. Depois do beijo, a câmera continua próxima à boca de Elizabeth, que dá um levíssimo, delicioso e faceiro sorriso à Monalisa.

A outra cena ocorre no momento em que Elizabeth e Leslie (Natalie Portman) se despedem numa rodovia, cada uma num carro. Apesar da brevidade da convivência, um vínculo bonito se estabelecera entre as duas. A despedida se dá por acenos, enquanto escutamos a voz de Elizabeth fazendo considerações sobre o confiar ou não nas pessoas. A rodovia, a despedida, a voz de Elizabeth, o texto... Tudo isso acaba criando um belo momento.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

EXTENSÃO

O mundo é longo.
Eu curto.

FOTOPOEMA 284

AMÁLGAMA

Entende que 
a escuridão ajuda 
a compreender a luz.

Compreende que 
a luz ajuda 
a entender a escuridão.

Enxerga mais 
quem sabe (d)a escuridão.

Escuta mais 
quem sabe (d)a luz.

FINAL DA PLACA: 79

São muitas as piadas sobre a suposta imperícia feminina ao dirigir. Do que sei, é que há mulheres que dirigem muito mal e mulheres que dirigem muito bem. Existem homens que dirigem muito mal e homens que dirigem muito bem. Não estou interessado nas estatísticas dessa “disputa”.

A questão do trânsito não está ligada somente à perícia, seja de quem for. Gentileza ajuda. No geral, as mulheres são mais gentis. Nós, homens, precisamos aprender com elas a sermos mais civilizados no trânsito.

Hoje, logo pela manhã, constatei, mais uma vez, a gentileza feminina. Devido à chuva, poças d’água se formaram nas ruas. Aproximando-me de uma dessas poças, de moto, pude escutar um carro vindo atrás. Logo pensei que levaria um banho.

Para minha surpresa, o carro desacelerou. A bem da verdade, quase parou. Passamos pela poça d’água ao mesmo tempo, pois eu também diminuí a velocidade, devido ao medo de cair. Depois disso, o carro acelerou e foi embora. Desnecessário dizer que era uma mulher quem o dirigia.

Sei que há mulheres toscas; sei que há homens gentis. Gentileza não é atributo masculino ou feminino. Ela pode ser aprendida. Minha vivência: quando levei um banho, um homem, na maioria das vezes, estava ao volante. Não raramente saem rindo e fazendo chacota.

Bons modos não seriam a solução definitiva para nada. São uma das partes do todo. Não sei o que as mulheres poderiam aprender conosco, mas sei que nós, os homens, temos muito a aprender com elas sobre civilidade. O banho delas é de gentileza; o nosso, de água.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

CONTO 54

A campainha tocou. Reginaldo abriu a porta. Era Maria Lúcia. Olharam-se por instantes. Dentro de cada um, a história de ambos se agitou. Ele fez sinal para que ela entrasse. Maria Lúcia, já acomodada no sofá, disse que ele não parecia surpreso, mesmo ela tendo chegado sem avisar, após tanto tempo. Ele argumentou dizendo que embora ciente de que treze anos, sete meses e vinte e um dias haviam se passado, surpreso ele estaria se não estivesse esperando.

FOTOPOEMA 283

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

CONTO 53

No tempo das cartas, Maísa escreveu o texto mais amoroso que conseguiu. Assinou. No momento em que guardaria as palavras no envelope, resolveu borrifar seu perfume nas folhas. Guardando-as, aspergiu mais um pouco no envelope, achando graça de si mesma. Depois de ler a carta, Zé Pedro ficou cheirando com calma e devoção o envelope e as folhas. Releu a correspondência e voltou a sentir o cheiro do perfume, que se misturava com o do papel. Num ato pleno de sentidos, Zé Pedro comeu tudo.

SUSTENTAÇÃO

NO CERRADO

terça-feira, 6 de novembro de 2012

O MACRO E O MICRO









KUNG FU PANDA


Não tenho o hábito de assistir a animações; sei que estou perdendo por não assisti-las. Dias atrás, liguei a TV e me deparei com “Kung fu panda”, produção da DreamWorks dirigida por Mark Osborne e John Stevenson. O filme já havia começado não sei há quanto tempo. Mesmo assim, passei a conferi-lo.

Bastaram poucas cenas para que eu começasse a achar graça da paródia dos filmes de artes marciais, das piadas do roteiro e do estilo anti-herói de Po, o panda que é o personagem principal. Logo, logo eu estava me divertindo.

Contudo, lá pela metade do filme, uma fala me arrebatou. Foi uma porrada. Prossegui assistindo à animação, já sabendo que eu a conferiria outra vez com a intenção única de prestar ainda mais atenção na fala e sobre ela refletir.

Assim foi. Tornando-me ciente do desenrolar da trama à medida que a animação prosseguia, eu aguardava a cena que traria a fala marcante. Chegado o momento, escutei, pausei, voltei e escutei novamente; pausei, voltei e escutei novamente; pausei, voltei e escutei novamente. Ciente de que eu não memorizaria o trecho, peguei papel e caneta e o anotei.

Gosto muito quando produções direcionadas para o público infantil enviam piscadelas para adultos, sem, contudo, tornarem-se, no todo, incompreensíveis ou maçantes para as crianças. Suponho que o trecho que muito curti não tem apelo para os pequenos, embora eu não esteja certo disso. 

Os roteiristas são Jonathan Aibel e Glenn Berger. A fala de Po da qual gostei demais é proferida num momento em que ele desabafa diante de seu mestre, cujo nome é Shifu. Depois do desabafo, Po mudou para mim: deixou de ser visto como um atabalhoado e simplório estudante e se tornou alguém com densidade e com agudo senso de dor. Eis o que ele disse:

“É, eu fiquei. Eu fiquei porque toda vez que você jogava um tijolo em minha cabeça ou dizia que eu cheirava mal, isso feria, mas isso nunca poderia ferir mais do que feria todo dia da minha vida eu simplesmente ser quem eu sou. Eu fiquei porque eu pensei que se alguém pudesse me mudar... pudesse me tornar... quem eu não sou... esse alguém era você” [1].
_____

[1] Yeah, I stayed. I stayed because every time you threw a brick at my head or said I smelled, it hurt. But it could never hurt more than it did every day of my life just being me. I stayed because I thought if anyone could change me, could make me... not me, it was you. 

A FOLHARADA











domingo, 4 de novembro de 2012

MAR DE PALAVRAS

Escrevi na areia.
Parece que o mar gostou:
aproximou-se, lambeu o texto
e o levou consigo...

sábado, 3 de novembro de 2012

DA ARQUIBANCADA

Narrador do Sportv, após o terceiro gol do Neymar contra o Cruzeiro, no Independência, há pouco, disse que os cruzeirenses, gritando o nome do jogador, estavam o reverenciando. Discordo. Boa parte dos torcedores não passam de apaixonados bobos; pouquíssimos teriam a nobreza para reverenciar o rival. Não estavam reverenciando Neymar. Estavam, sim, à maneira do namorado que quer causar ciúme na namorada, tentando ferir o brio dos jogadores do Cruzeiro. Tentativa boba, infrutífera e inútil, pois os jogadores não têm paixão pelo time.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

APONTAMENTO 159

Uma boa metáfora não somente facilita a compreensão — ela poetiza, ilumina e a(s)cende a compreensão.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

APONTAMENTO 158

A gente começa a amar não quando a pessoa toma conta do coração, mas quando ela toma conta da imaginação da gente.

domingo, 28 de outubro de 2012

APONTAMENTO 157

De modo geral, não se considera, digamos, esteticamente bonita a vida que se esforça para sobreviver. Olha-se para uma cachoeira ou para um pôr do sol e diz-se que são bonitos. Ainda que a pessoa não tenha uma relação especial com a natureza, parece-me não ser difícil considerar uma portentosa harpia uma bela ave, caso nela se repare.

Contudo, quando a vida tem de sobreviver, geralmente não é identificada como bela. Se por um lado pode-se considerar um tigre um majestoso animal, não se considera esteticamente belo o momento em que ele estraçalha e sangra com poder a sua presa. Enxerga-se uma espécie de beleza estética no tigre, não no instante que ele trava luta pela sobrevivência.

Os vermes que se alimentam de carne putrefata no meio de qualquer mata são expressão da mesma Vida que engendrou uma harpia ou um tigre. Tudo é a mesma Natureza, que não se preocupa com estética ou com nossas outras construções culturais se tivermos de ser a presa. Assim como não nos preocupamos com estética, política ou física quântica se tivermos de ser os predadores.

NATUREZA EM CASA

Há pouco, cheguei, abri o portão e fui recepcionado por esta criatura. Mede aproximadamente três centímetros. Quem tiver alguma ideia sobre a identificação, gentileza fornecê-la.




sábado, 27 de outubro de 2012

TONY

Na penúltima edição do Estação LS, falei do Tony, que foi locutor de rádio aqui em Patos de Minas. O Tony, além de ser locutor, entendia muito de eletrônica e de como funciona uma estação de rádio. Muito inteligente, muito bem-humorado.

Há pouco, em conversa que mantive com José Afonso, que também foi locutor aqui, fiquei sabendo que o Tony morreu ontem, em Manaus. Ele morava em Belo Horizonte, e havia ido até lá visitar um filho. 

Foram a uma festa, onde Tony sentiu-se mal e foi internado. Diagnosticaram enfisema pulmonar — ele havia sido fumante por muito tempo. No hospital, onde passou a semana, a situação se agravou, houve infecção generalizada e ele morreu.

Durante o tempo em que o Tony e eu fomos colegas de rádio, eu mostrava o que escrevia para ele. Sempre gentil, lia com atenção e sempre fazia algum comentário ou dava alguma sugestão. Perdemos uma inteligência.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

OS FRUTOS

Confesso que eu preferiria um céu bem azul. Mas na fotografia de natureza a gente tem de se contentar com as condições à disposição. Ainda assim, gosto da foto. Não somente pela árvore ser um “pé-de-urubu”: caso se repare, percebe-se que o “fruto” no lugar mais alto é um “intruso”, o que, penso, funciona como uma espécie de cereja no bolo...

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

THE SAME ONES

NÃO IMPORTA

Não importa o que se lê —
o importante é que se leia.

Não importa como se envolve —
o importante é que se desenvolva.

Não importa o que se ama —
o importante é que se ame.

Não importa aonde vais —
o importante é que tu voltes.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

IN TUNE

PINÁCULO

Quanto mais se afasta de nós, 
mais se aproxima do céu.

Quanto mais se aproxima de si, 
mais se aproxima do céu.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

A GLOBO E O PORTUGUÊS

Por diversas vezes já escrevi (aqui também) sobre minhas restrições quanto ao que a Globo exibe. Raramente assisto à emissora. Quando isso ocorre, não estou aqui em casa; a antena daqui estragou há uns vinte anos, e não vou trocá-la, pois a Globo não me faz falta. Bastam alguns minutos diante da emissora para que eu me sinta muito incomodado. Contudo, não sou obtuso; sei reconhecer méritos caso eu me depare com eles no canal dos Marinho (ou em qualquer outro meio).

Um dos pontos que me chamam a atenção na emissora é o cuidado com a linguagem; em especial, com a preservação do português. Lembro-me de que quando o campeonato brasileiro de futebol era disputado pelo sistema de partidas eliminatórias, a Vênus Platinada era um dos poucos meios de comunicação que não usavam a nomenclatura “play-off”. Em vez de dizerem, por exemplo, que o “play-off” seria realizado, a Globo sempre disse que os jogos decisivos seriam realizados. Lembro-me de ter lido nessa época que um consultor de português deles emitira memorando proibindo os profissionais da emissora de usarem “play-off”.

Há alguns dias, disseram-me que o Jô Soares havia sido entrevistado no Fantástico. Como não confiro o programa, fui até o Youtube, pois a matéria me interessou. Num determinado trecho, antes de anunciar a entrevista, um dos apresentadores, referindo-se a Jô Soares, disse que ele “foi pioneiro da comédia em pé”.

O fato de a Globo usar a expressão “comédia em pé”, em vez da expressão em inglês “stand-up comedy”, a mais usada, confirma a atitude da emissora de preferir o português a qualquer outro idioma, sempre que é possível dizer em português o que se pretende, ainda que a expressão em língua estrangeira já esteja sendo amplamente utilizada. 

Reparem na ironia: num lugar em que as pessoas fazem de tudo para dizer ou escrever tudo em (ruim) inglês, a atitude da Globo chega a ser ousada (!). Tanto que quando comentei a questão em sala de aula (durante uma aula de inglês), os alunos não concordaram com a decisão do veículo de adotar “comédia em pé” em vez de “stand-up comedy”.

Obviamente, não é preciso assistir à Globo para se melhorar o português; há maneiras mais edificantes e menos prejudiciais para isso; a Globo não é imprescindível para isso nem para nada. No geral, entre o dispensável e o indispensável, considero a emissora muito dispensável. Presta mais desserviços do que serviços, é mais prejudicial do que benéfica, a despeito do cuidado com a preservação do português.

domingo, 21 de outubro de 2012

VIDEOPOEMA (5)

Na corda bamba, a vida é por um fio. 
Se vou me enforcar por causa disso?! Que nada! 
Eu quero mais é dançar ao vento...



ATLÉTICO/MG X FLUMINENSE

Primeiro tempo

São vários os paralelos entre o futebol e a vida. Assistir a uma partida de futebol é como assistir ao desfile do espetáculo da vida. Assim como na vida, no futebol, nem sempre as expectativas se confirmam.

A expectativa era a de que Atlético/MG e Fluminense fizessem um jogão. O time carioca iniciou a partida realizando um jogo cadenciado, investindo na posse de bola. O Atlético, quando a tinha, partia logo para o ataque.

Não era de se esperar que fosse diferente. O Fluminense está com as duas mãos no título. A ameaça maior à conquista é justamente o Atlético, que ainda pode ser campeão. Num cenário assim, natural que o time mineiro, jogando em casa, tomasse a iniciativa.

Aos catorze minutos do primeiro tempo um impedimento foi marcado contra o Atlético. A TV não repetiu o lance. Inevitavelmente, fiquei com a pulga atrás da orelha, devido às conversas de que o Fluminense estaria sendo favorecido pela arbitragem.

Por que o lance do impedimento não foi repetido? Para se poupar a arbitragem (Jaílson Macedo Freitas foi o juiz)? Por causa de acordo entre CBF e Globo? Ou seria por causa de um outro ajuste espúrio?... Sei que isso está soando a teoria da conspiração, mas é que desconfio de tudo o que leva a chancela da Globo, não importa o meio.

Para piorar, aos vinte minutos, Ronaldinho cobrou falta e marcou. De acordo com o juiz, Leonardo Silva empurrou a barreira, o que de fato ocorreu. Não vale aqui o argumento de que ninguém marcaria uma falta assim. Ademais, a cobrança foi tão bem feita que, ainda que a falta não tivesse ocorrido, Cavalieri, o excelente goleiro do Fluminense, não alcançaria a bola.

A torcida protestou, gritando “vergonha, vergonha!”. Contudo, o ocorrido não afetou o desempenho do Atlético, que era muito superior à atuação do Fluminense. Aliás, foi uma superioridade acachapante diante de um acuado Fluminense. O Atlético teve chance aos oito, aos quinze, aos vinte e sete, aos trinta e aos quarenta e três.

Aos quarenta e quatro, o início das bolas na trave. Primeiro, com Bernard; aos quarenta e cinco, foi a vez de Jô. Chute mesmo, o Fluminense daria um, aos quarenta e nove, em cobrança de falta. Contudo, a rigor, o bombardeio do Atlético foi inócuo no primeiro tempo.

Segundo tempo

O Fluminense melhorou no segundo tempo. Aos dez minutos, Wellington Nem marca, após passe de Fred. Aos catorze, Vítor, o goleiro do Atlético, realiza defesa. Reagindo, o Atlético acertaria a trave novamente. Pressionando, empata aos vinte e três, em chute forte de Jô. Aos trinta e seis, o próprio Jô desempataria, escorando cruzamento de Bernard.

Mas o Fluminense tem Fred. O cara é o artilheiro do campeonato. Embora apagado até o fim da partida, ele empataria novamente o jogo, quase aos quarenta minutos. Levando-se em conta a tabela do torneio, o empate teria sido um baita resultado para o Flu.

Falar de senso de justiça ou de justeza no futebol é algo muito complicado. Mais complicado ainda se levarmos em conta as maracutaias que há em toda parte. Contudo, considerando-se o massacre realizado pelo Atlético, as bolas na trave que acertou e a superioridade apresentada o tempo todo, a vitória atleticana refletiria de modo mais “correto” o que foi o jogo.

Aos quarenta e sete minutos, num jogo previsto para terminar aos quarenta e oito, Leonardo Silva faz o terceiro gol do time mineiro, depois de cruzamento de Ronaldinho. O Independência “desabou”. O resultado fez com que o Atlético fique a seis pontos do líder do campeonato.

O futebol é como a vida, que nem sempre premia quem merece. Além do mais, critérios de merecimento são amplamente discutíveis — no futebol e na vida. Assim, terminada a partida, o Atlético é o vencedor. Se os critérios fossem os meus, eu diria que o resultado foi merecido. Por fim, numa partida assim (foi um jogaço) ganham aqueles que gostam de futebol.

AUXÍLIO

Alguém aí pode me jogar no precipício?...

... É que preciso perder o medo de voar...

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

ALEATÓRIAS (2)

TRATADO DOS GUIZOS

1
Gabriela
juntou 
um montão 
de guizos: 
fez um guisado.

2
Tudo é à guisa:
por que nada ao guizo?...

3
O gato quebra
seu silêncio nato
para conversar
com o guizo?...

4
Quem cala mais fundo:
o guizo ou o gato?...

5
Quem conduz:
o guizo ou o gato?...

6
Com quantos 
guizos se faz 
um gato?...

7
Por quem 
os guizos dobram?...

8
Guizo é afrodisíaco
ou empecilho?...

Ou é questão
de fetiche?...

9
Gatos reparam
no guizo dos outros?...

10
Guizo escaldado tem 
medo de água fria?...

11
O que faz o guizo se tornar fardo?...

12
Todo gato tem sete guizos?...
Quantas vidas tem um guizo?...

13
Guizo faz gato e sapato?...

14
O que é guizo, companheiro?...

DEDICATÓRIA

Ora, se ao digitar 
cada letra de cada palavra eu pensei em ti, 
todo este livro é naturalmente teu.

NEM TÃO ALEATÓRIO ASSIM...


ALEATÓRIAS (1)