sábado, 21 de janeiro de 2017

Entrevista para livro sobre fotografia

Em 2015, os estudantes do então quinto período de letras do Unipam, sob a coordenação do professor Geovane Fernandes Caixeta, fizeram um projeto voltado para a fotografia. Dessa ideia, nasceu o livro “Patos de Minas retratada: seu espaço, seu povo, sua cultura”.

O livro contém entrevistas com fotógrafos locais. Camila Andrade, que na época era aluna do curso de letras, entrou em contato comigo para que eu fosse um dos entrevistados. Abaixo, o que respondi. As perguntas me haviam sido enviadas por e-mail. 
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1) Para você, qual é a importância da fotografia?

Penso, a princípio, numa importância individual, no sentido de o sujeito supor que tem o talento para fotografar — e, a partir daí, investir, seja em conhecimento, seja em equipamentos. Dito de outro modo: a fotografia pode ser a felicidade de uma pessoa. Contudo, há a importância social da fotografia, não importa a temática registrada. A fotografia é um outro modo de se contar uma história. Como possibilidade de registro histórico, ela, a fotografia, não vale nem mais nem menos do que outros registros, do que outras mídias. A fotografia é um jeito de contarmos que estivemos aqui e que fizemos algo. É um jeito de contar para o outro um pouco das complexidades do mundo.

2) O que não pode faltar em uma fotografia?

Não pode faltar (ou não deveria faltar) a vontade real de se ter uma boa fotografia, não importa o equipamento que se use. Com as facilidades tecnológicas e com as redes sociais, a fotografia se popularizou, o que é bom. Contudo, a fotografia é algo maior do que registros do que pessoas fizeram num fim de semana; ela é isso também, mas é mais. Nesse sentido, o que não pode faltar numa fotografia, reitero, é o desejo genuíno de se ter um bom registro. No caso de o fotógrafo ser profissional, a técnica ajuda na realização desse desejo.

3) Quais os requisitos para um ingressante se tornar um profissional reconhecido?

Eu não saberia dizer que requisitos são necessários para se tornar um profissional reconhecido. Há muita gente muito talentosa que não é reconhecida. À parte isso, eu poderia arriscar alguns requisitos para que a pessoa seja profissional: dedicação, estudo, teoria e prática; dito assim, parece fácil, mas a linguagem fotográfica é por demais plena de possibilidades. Vejo o fotógrafo profissional como alguém que domina a técnica, mas cujas fotos não são “frias”, destituídas de um elemento que pode ser chamado de espontâneo, de natural ou de algo similar.

4) Que momento(s) na vida de uma pessoa não pode(m) passar sem ser fotografado(s)?

Sem a menor intenção de querer soar exagerado, digo: todos os momentos da vida de uma pessoa mereceriam um registro fotográfico. Obviamente, é impossível haver isso na prática. Desse modo, cabe a cada um decidir o que merece ser fotografado. Não há uma “receita” universal sobre quais momentos não podem deixar de ser registrados.

5) Que fotografia ainda não fez e que gostaria de fazer?

Eu gostaria de fotografar uma mulher adulta, madura, produzida como se fosse receber o Prêmio Nobel. Só que o ambiente em que eu a fotografaria nada teria de sofisticado: eu gostaria de fazer os registros nos bares dos bairros da cidade — de preferência aqueles bares que têm mesa de sinuca e garrafas de pinga na prateleira de madeira.

6) Que tipo de fotografia desafia um profissional?

Novamente, penso não haver uma resposta universal. Penso haver dois tipos de desafio quando o assunto é fotografia: um deles é a foto que ainda não foi feita, mas que o fotógrafo suspeita de que conseguiria fazer; o outro é fotografar algo que fuja da temática geralmente feita pelo profissional. Em meu caso, fotografar animais selvagens nas savanas da África seria o primeiro tipo de desafio; já fotografar modelos em estúdio pertenceria ao segundo tipo.

7) Como você vê a influência da tecnologia na área da fotografia?

Não é raro escutar que a tecnologia, em especial o celular, teria banalizado a fotografia. O que às vezes chamam de banalização, prefiro, sem eufemismo, chamar de popularização. Não encaro a popularização da fotografia como algo ruim. O sujeito que leva a fotografia a sério, se tem em mãos, digamos, um celular qualquer, ainda assim tentará fazer o melhor registro, caprichando, por exemplo, na composição. E se o sujeito tem um equipamento digital que tenha recursos, é preciso lembrar que a essência da fotografia não mudou. Dito de outro modo: as técnicas relativas à abertura e à velocidade são as mesmas desde sempre. A tecnologia influencia ao facilitar, ao tornar mais prático, mas ela, em si, não substitui o talento.

8) Qual a sua opinião sobre fotografia em Patos de Minas?

Levando-se em conta o tamanho da cidade, que é pequena, há um belo número de excelentes fotógrafos, dos quais alguns são jovens. Isso é ótimo. Além do mais, há muita gente que não vive da fotografia mas que tem feito excelentes trabalhos.

9) Você gosta de se fotografar e de ser fotografado?

Não gosto de me fotografar, não gosto de ser fotografado. Sou feio para essas coisas.

10) Conte uma história que o marcou relacionada a uma de suas fotografias.

São várias; muitas delas estão em meu blogue. Neste momento, lembrei-me de uma foto que tirei certa vez de um porco-espinho; a rigor, pude tirar várias fotos dele. Os registros foram feitos no Bairro Copacabana, aqui em Patos de Minas. Na época, houve uma enchente, não sei se do Rio Paranaíba ou se de um córrego que há nas proximidades do Copacabana. O que importa é que, devido à enchente, animais que ficavam mais afastados da cidade acabaram sendo trazidos para perto da área urbana. Estando de moto, reparando no ambiente, olhei para uma árvore e pensei avistar um ninho ou algo assim; chegando mais perto, dei-me conta de que se tratava de um porco-espinho. Enquanto eu o fotograva, fui abordado por uma patrulha da Polícia Militar. Quando desceram, ameaçaram-me; quando perceberam que eu estava fotografando, acalmaram-se — de longe, haviam pensado que minha câmera, com uma longa lente nela acoplada, fosse uma arma; de longe, supuseram que eu estava atirando no porco-espinho. 

Apontamento 360

Não basta queimar incenso para ser místico. 

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Apontamento 359

Há belezas que são óbvias. Mesmo assim, folhas no chão ou uma cachoeira têm a mesma importância para as artes plásticas; a vida de um vendedor de pipoca se presta à literatura tanto quanto a de um presidente de alguma república. Não há hierarquias na arte, não há um assunto melhor do que o outro, não há uma temática superior à outra. Tanto a bondade quanto a maldade podem ser materiais para o artista. Não há desimportâncias para a arte. 

Matemática de nós

Eu + você = nós.
Nó + nó = nós.

Que o segundo verso se desate. 
Que sejamos o primeiro verso. 

O peregrino

O destino: Romaria.
A pé, a fé. 

Jogo de palavras

Sempre quis fazer
um trocadilho decente 
com a palavra "deleite".
Não tendo conseguido,
eu a tomei com café. 

Despertar

Estou bem.
Não há 
nova leitura,
nova canção,
nova comida,
nova amizade.

Há um novo dia.
Bem assim. 

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Processo

Não há mecanismo 
lógico nem industrial 
para se chegar à poesia.
Não sei se há engrenagem 
para que ela se achegue.
Mas sei de muita coisa
que a faz ir embora. 

A cabeça de um neurocirurgião

Relatos médicos, quando não técnicos demais, sempre me interessaram. Que eu me lembre, o primeiro livro que li supostamente escrito por um médico foi o “Confissões de um ginecologista”, que consegui, na década de 80, numa biblioteca pública local. Uma pesquisa rápida na internet me revela que o livro é de 1972; foi publicado, sem o nome do autor na capa, pela Record.

Sempre interessado na questão médica, e em especial na relação médico-paciente, acabei chegando aos livros do Oliver Sacks (1933-2015), os quais sempre recomendo com entusiasmo. Também já escrevi alguns textos sobre a falta de humanidade de alguns médicos, que tratam os pacientes como se fossem somente números.

Seguindo meu interesse nessa área, terminei de ler “Sem causar mal” [Do no harm], do neurocirurgião inglês Henry Marsh. A tradução é de Ivar Panazzolo Júnior; o livro foi publicado pela nVersos. Num estilo direto, sem delongas, Marsh narra casos com que teve de lidar como médico.

É espantosa a coragem com que o autor conta os fracassos que teve ao longo de sua profissão. Não nos esqueçamos de que fracassar, no caso de um neurocirurgião, pode implicar danos sérios para o resto da vida de um paciente. Há erros retumbantes. Num deles, o caso de um paciente que ficou em estado vegetativo depois de ter sido submetido a uma cirurgia realizada por Marsh.

Como todo grande livro, terminada a leitura, o que há um retrato multiforme e difícil da condição humana. Um médico se desnuda, confessa seus erros; o que surge é a complexidade que é essa coisa de ser gente. Os relatos são secos, duros. Marsh não pede ao leitor que tenha comiseração dele nem se vale de autopiedade. Ele conta os casos.

Não bastasse, relata os problemas pelos quais passou nas vezes em que foi paciente e quando teve de assistir à morte da mãe, a qual não resistiu a um câncer que teve. Sem se meter a análises transcendentais acerca da condição humana, o livro, nem por isso, deixa de apresentar o quanto ser gente é complicado. E ser gente quando se está doente, mais ainda. Este é um dos pontos altos da obra: sem cogitar teorias sobre o pós-morte, leva-nos a uma reflexão sobre o que é viver, sem conclusões definitivas e sem receitas fáceis.

Enquanto acompanhamos as ruminações feitas pelo médico, não raro enquanto ele está pedalando sua bicicleta, meio de que muito se vale ao ir para o trabalho, realizamos nós a reflexão do que estamos fazendo de nossas vidas e do que é nosso cérebro. Ao mesmo tempo, Marsh não deixa de apresentar a funesta burocracia de sempre, que contaminou também o sistema de saúde.

O livro é um monumento. A sinceridade com que Henry Marsh narra seus fracassos é espantosa. Não há eufemismos, não há delongas, o que ainda faz com que “Sem causar mal” seja uma aula de estilística, ao contar, indo direto ao ponto, sem truques manjados, a difícil tarefa de ser um neurocirurgião. Mesmo não sendo intenção dele, o livro é uma aula de como narrar. “Sem causar mal”, embora trate muito de morte ou de pesadas sequelas de que ficaram padecendo vários dos pacientes do autor, é sobre a força da vida. 

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Antirrugas

Havia lido que
rir demais causa rugas.
Desde então, 
vestiu seriedade forjada.
A pele ficou lisinha, lisinha,
mas sem graça. 

Polímata

Das 7h às 17h,
emprego burocrático.
Ninguém sabe que
ele começa a viver é 
depois que sai do trabalho.
Em casa, pode estar
pintando um quadro, 
revolucionando a física 
ou compondo uma canção. 

Pensamento

Enquanto estiveres passando batom, 
estarei pensando em ti.
O mesmo enquanto estiveres
no horizonte.

Estarei pensando em ti
no desembarque e enquanto
estiveres acima das nuvens.

Estarei pensando em ti
enquanto estiveres descansando
e enquanto estiveres na academia.

Enquanto sonhas,
estarei pensando em ti.
Enquanto lês este texto,
não importa se 
pela vez primeira
ou se pela terceira vez,
estarei pensando em ti.

Enquanto 
brincas com um cão,
preparas uma salada,
escreves um poema,
tiras um cochilo,
diriges teu carro,
atravessas as ruas,
apanhas a caneta no chão,
sonhas em vão,
devaneias em sim,
vais ao açougue,
tomas café,
estarei pensando em ti.

O sonho que tenho contigo
é meu jeito de pensar em ti
enquanto durmo.
Somente não estaria
pensando em ti 
se houvesse como
não pensar em ti. 

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Tenho algo em comum com Mick Jagger!

A editora Abril, depois de, por intermédio da Veja, apontar Marcela Temer como a salvadora da combalida popularidade de Temer, mais uma vez, dá provas de que seu não jornalismo somente não é risível porque é cruel, perverso. Desta vez, não foi a Veja, mas a Exame.

A mais recente edição da revista tem Mick Jagger na capa. Acima da manchete, tem-se: “A nova aposentadoria”. A manchete: “O que você e ele têm em comum”. O pronome “ele” se refere a Mick Jagger. Abaixo da manchete: “Talvez não seja a fortuna, nem o rebolado, nem os oito filhos. Mas, assim como Mick Jagger, você terá de trabalhar velhice adentro. A boa notícia: preparando-se para isso, vai ser ótimo”.

Mick Jagger, de acordo com a lei britânica, tem, desde 2008, direito a uma aposentadoria do governo. O texto da cínica capa diz que “assim como Mick Jagger, você terá de trabalhar velhice adentro”. Dizem que Jagger tem de trabalhar. Não tem. Trabalha porque quer. Ele tem a opção de não trabalhar.

Mas a revista nos compara a Mick Jagger. O que teríamos em comum com ele? Tanto nós quanto ele teremos de trabalhar na velhice. É assim: eu terei de trabalhar quando ficar velho. Mick Jagger é velho e tem, segundo a Exame, de trabalhar. Logo, se eu ficar velho e estiver trabalhando, terei algo em comum com Mick Jagger, que é justamente estar trabalhando.

Desse modo, caso eu chegue a ter no futuro a idade que Jagger tem hoje, e caso eu esteja trabalhando, poderei dizer: “Uau, pessoas, eu sou mesmo incrível, pois tenho algo em comum com o Mick Jagger. Tenho hoje a idade que ele tinha em janeiro de 2017, e estou trabalhando”.

Esse é um ponto em comum irrelevante, superficial. De modo análogo é como se eu dissesse: “Eu, Lívio, vesti roupa toda branca um dia desses; vi uma foto em que o Gabriel García Márquez usava uma roupa toda branca. Logo, tenho algo em comum com García Márquez”.

A desfaçatez da publicação se completa com o uso do adjetivo “ótimo” ao defender as regras de aposentadoria do atual governo. Só faltou inserirem na capa o verso da canção do Maroon 5: “I’ve got the moves like Jagger”. I don’t have such moves. 

Geometria

Engano

O que faz lembrar o amor
pode ser engano.
Se engano é, amor não é.
Nossa história
se parece com 
uma de amor.
Fomos longe
em nome
do que não é, 
do que nunca foi.
Não faltou
desejo de história,
de amor.
Onde faltou
amor de verdade,
sobrou engano verdadeiro. 

Sob o signo do espanto

Meus amigos sabem do amor que tenho por Wisława Szymborska (1923-2012), poeta da Polônia. Minha convivência com ela se iniciou quando li uma versão em inglês do poema “Vietnã”. Abaixo, tradução dele feita por Regina Przybycien:

Mulher, como você se chama? — Não sei.
Quando você nasceu, de onde você vem? — Não sei.
Para que cavou uma toca na terra? — Não sei.
Desde quando está aqui escondida? — Não sei.
Por que mordeu o meu dedo anular? — Não sei.
Não sabe que não vamos te fazer nenhum mal? — Não sei.
De que lado você está? — Não sei.
É a guerra, você tem que escolher. — Não sei.
Tua aldeia ainda existe? — Não sei.
Esses são teus filhos? — São. (1)

Diante de texto tão poderoso, só me restava ir atrás de tudo o que eu achasse da autora, o que passei a fazer. Nessa época, ela ainda não havia sido publicada no Brasil. A solução foi procurar edições em inglês. Li “Sounds, Feelings, Thoughts”, uma coletânea. Posteriormente, a Companhia das Letras publicaria “Poemas”, também coletânea; recentemente, a mesma editora lançou “Um amor feliz”, outra coletânea de Szymborska. Foi o livro que recebi ontem. (A tradução dos dois livros de Szymborska publicados pela Companhia das Letras é de Regina Przybycien.)

Terminei a leitura de “Um amor feliz” há pouco. Nos textos, a delicadeza, a inteligência, o humor, a metafísica, o espanto. Aliás, o espanto é moeda corrente dentre os poetas quando falam de poesia. Esse espanto é um maravilhamento diante do mundo, um estranhamento quanto ao que somos e ao que nos rodeia, um olhar que descortina riquezas escondidas atrás de lugares-comuns, uma atitude não saturada pelo cotidiano.

O último texto de “Um amor feliz” é o discurso proferido por Wisława Szymborska durante cerimônia na qual recebeu o Nobel, em 1996. Diz a autora: 

“O que quer que ainda pensemos sobre este mundo — ele é espantoso (...). Na linguagem da poesia, na qual se pesa cada palavra, nada é comum ou normal. Nenhuma pedra e sobre ela nenhuma nuvem. Nenhum dia e depois dele nenhuma noite. E acima de tudo nenhuma existência do que quer que seja neste mundo.

“Pelo visto os poetas sempre vão ter muito que fazer” (2).

A partir desse espanto, a poeta construiu uma poesia espirituosa, cheia de engenho. No poema “Desatenção”, tem-se: “Ontem me comportei mal no universo. / Vivi o dia inteiro sem indagar nada, / sem estranhar nada” (3). Das delicadezas do cotidiano (há poema sobre seres que só podem ser enxergados graças a microscópios) aos grandes eventos históricos (há poema a partir de uma fotografia tirada no 11 de Setembro), Szymborska nos delicia com a força da ternura, a perspicácia do humor fino e a argúcia de uma poderosa inteligência.
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(1) SZYMBORSKA, Wisława. Poemas. Seleção, tradução e prefácio de Regina Przybycien. São Paulo. Companhia das Letras. 2011. Pág. 39.
(2) SZYMBORSKA, Wisława. Um amor feliz. Seleção, tradução e prefácio de Regina Przybycien. 1ª ed. São Paulo. Companhia das Letras. 2016. Pág. 327.
(3) Idem. Pág. 255. 

domingo, 8 de janeiro de 2017

Apontamento 358

A não ser que o outro nos conte, não sabemos o que podemos involuntariamente ensinar. 

Capacidade

A ciência me diz haver muita coisa bela por aí 
que meus olhos não conseguem enxergar,
que meus ouvidos não conseguem escutar,
que minhas mãos não conseguem reter.
É claro que habitam meus devaneios,
enchem de fogo minha imaginação.
Meu corpo humano me impõe limites.
Enquanto isso, namoro belezas acessíveis.
Eu te olho, eu te escuto, eu te toco. 

Folharada

Acabamento

Este mundo doido está acabando.
Nós não estamos juntos.
Chega de perder tempo.
Vem, fica, vai ficando
até o dia em que o mundo acabar.
Se ele não acabar,
a gente se acaba
de tanto amor. 

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

É logo ali

Recentemente, divulguei notícia que dá conta do seguinte: segundo estimativa científica, há dois trilhões de galáxias. O número é exorbitante demais. Mas isso não é tudo. Hoje, li matéria sobre as chamadas Rajadas Rápidas de Rádio. Segundo o El País Brasil, essas rajadas, em frações de segundo, liberam tanta energia quanto o Sol em vários. Até aí, tudo bem. Detectaram a origem de uma delas. Ela está a três bilhões de anos-luz da Terra. Na prática, é o seguinte: para se chegar à origem do sinal captado aqui na Terra, teríamos de viajar, à velocidade da luz (que é de 299.792.458 metros por segundo) durante três bilhões de anos. Não consigo não ter assombro. 

A história por trás da foto (100)

Ontem à tarde, choveu em Lagoa Formosa. Chuva de verão, chuva rápida. Antes de chover, ventou. Enquanto isso, peguei a câmera na tentativa de registrar o movimento das folhas das árvores sendo levadas pela ventania, dando, assim, a ideia de movimento. Essa é uma das fotos.
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F/22.0
1/6
ISO 100
Eram 16h29 

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Silêncio vermelho

É que meu coração segue o mesmo.
Quer te dizer o que comi no almoço, 
o poema que li ontem pela manhã, 
a canção que escutei no fim do dia.

Eu tirei foto do horizonte: não a viste.
Tomei um vinho: nós não brindamos.
Estou pensando em visitar a África:
queria te contar, mas não em verso.

Artérias carregam silêncio pesado,
veias transportam mudez artificial.
Corre pelo corpo o que não se diz.
Tudo o que calo grita para dentro. 

Haicai da varredura (2)

A vassoura serve tal corpete.
Nem por isso vai Doria tirar
a sujeira de sob o carpete. 

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Haicai da varredura

Enquanto Doria posa de gari,
embaixo do tapete, a sujeira,
não importa se lá, acolá ou aqui. 

Apontamento 357

Chegar às grandes ações juntando pequenas. 

Apontamento 356

O grande escritor sempre ensina, seja sobre a vida seja sobre o ato de escrever. Com frequência, ensina sobre os dois. Com o escritor ruim, no que diz respeito à escrita, aprende-se o que não se deve fazer. 

Alice

Nesta foto, estou com a Alice, que é filha dos amigos Dell Luiz e Maysa. Eu os visitei ontem. A Alice tem uma irmã gêmea, a Júlia. A vontade era de pegar as duas, mas isso requer preparo. Numa próxima, eu me arrisco. 

sábado, 31 de dezembro de 2016

2016-2017

Neste ano, vi
homem matando homem,
guerras de um país contra outro,
guerras dentro de um mesmo país.

Vi
amores que não deram certo,
talentos que morreram,
políticas que mataram,
vidas que se penduraram em cordas,
caminhões que esmagaram celebrações.

Vi
a truculência do não argumento,
a indiferença de quem tem demais,
panelas que bateram no ritmo do preconceito,
mídias se aliançando com golpistas.
Vi a guerra do Brasil contra si mesmo.

No ano que vem, verei “mais do mesmo”.
Há coisas de sempre que seguirão edificando suas casas sem janelas.
Todavia, não sei o que será da mistura entre 
o velho imprescindível e o novo instigante.
Não sei do novo verso,
das releituras,
do novo encontro,
dos reencontros,
dos novos amigos,
dos amigos de sempre.

Ainda nem sei o que a velha esperança é capaz de fazer.
Haveremos de saber. 

"A redoma de vidro"

Sylvia Plath (1932-1963), autora estadunidense, é conhecida como poeta. Publicou um único romance, “A redoma de vidro” [The bell jar], lançado em 1963. Foi a leitura que terminei há pouco. No Brasil, é comercializado pela editora Biblioteca Azul. A tradução é Chico Mattoso.

A obra está na linhagem do que a crítica chamaria de autoficção, em que autobiografia e ficção se misturam, sem que saibamos com exatidão o ponto em que uma termina e a outra começa. “A redoma de vidro” conta a história de Esther Greenwood, brilhante jovem criada nos arredores de Boston. Esther tem a acesso a prestigiosa universidade, a partir da qual consegue bolsa para estagiar um mês numa revista feminina em Nova York.

O que era para ser algo promissor acaba se tornando o começo da derrocada de Esther. A obra, em sua primeira metade, diverte, em função da imaturidade e do humor seco de Esther, que é a narradora, uma narradora divertida e imatura. Num tom displicente, ela vai contando sobre o período que passa em Nova York.

Todavia, mal começada a segunda metade do livro, o caráter de leveza e de ingenuidade some de súbito. O que antes era não mais do que o relato de uma jovem talentosa com um mundo de oportunidades se descortinando se transforma num calvário que a leva a tratamentos de choque em clínicas psiquiátricas.

Do mesmo como narra, digamos, as impressões que teve sobre um vestido, ela conta sobre os procedimentos médicos pelos quais passou nas clínicas ou sobre os pensamentos suicidas que rondam a mente dela. Não importa o que ela conte, seu tom não muda. Nessa curiosa estratégia, de uma página para outra, deixamos de encarar a obra como retrato de um mundo juvenil; o enredo até então descompromissado cede lugar a uma narrativa que perscruta a mente de quem rui por causa de um colapso depressivo. 

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Haicai 49

A folha e seu invento:
quando se descola da árvore,
acomoda-se no vento. 

Marcela Temer na capa da Veja

Marcela Temer é capa da Veja. Na manchete, lê-se: “Marcela Temer, a aposta do governo”. Abaixo, tem-se: “Com uma agenda de aparições nacionais, a jovem e bela primeira-dama vira a grande cartada do Palácio do Planalto para tirar a popularidade do atoleiro”.

De cara, tem-se o óbvio: a própria revista assume o atoleiro. Só que a Veja veicula a “solução”: exibir uma mulher bonita resolveria a impopularidade de Temer. Ou seja: o presidente passaria a ser bem visto pela população por ter uma esposa bonita.

Sei que esse exercício de interpretação que faço é rasteiro, óbvio, mas palavras óbvias, dentre outras coisas, podem fazer com que nos demos conta de certas estratégias. A da Veja conta com a burrice e com a superficialidade dos leitores. ou com a má-fé deles.

Quando eu era pequeno, um ditado popular circulava: “Por trás de todo grande homem há uma grande mulher”. A sentença, a rigor, conclamava as mulheres a ficarem na coxia enquanto os maridos estivessem no palco.

Marcela Temer parece assumir o papel que a própria Veja lhe atribuiu: “Bela, recatada e do lar”. Só que Temer e Marcela são uma espécie de paródia do ditado, por terem se tornado a prova de que uma (grande) mulher pode estar por trás de um pequeno homem também.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

A história por trás da foto (99)

Tirei esta foto na segunda-feira (26/12), às 19h40. Eu estava prestes a sair com a câmera para a rua, a fim de fotografar as cores no céu no momento em que o Sol estava se pondo. Como havia a possibilidade de chuva, fechei a parte de metal da janela de meu quarto, deixando a parte de vidro aberta. Foi quando percebi a luz solar passando pelas frestas. Decidi registrar. 

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

“Como conversar com um fascista”

Terminei de ler “Como conversar com um fascista” (2016), da filósofa Marcia Tiburi, publicado pela Record. O livro é uma tentativa de entendimento político-filosófico do Brasil contemporâneo, cuja população tem se negado ao diálogo. Ele, diálogo, implica, é claro, a palavra. Negar-se à palavra é criar em si o vazio. Nesse vazio, instaura-se o ódio, que acha terreno fértil na ausência do discurso, do diálogo, da palavra.

A premissa de Tiburi é a de que só o diálogo levaria à compreensão profunda e profícua de si mesmo e do outro. Na ausência da palavra-ponte que nos ligaria a esse outro, parte da sociedade do Brasil contemporâneo tem se dedicado a reproduzir clichês midiáticos não raro preconceituosos. Em “Como conversar com um fascista”, a filósofa se detém sobre a atualidade brasileira, em que a busca de discursos coerentes tem cedido lugar a manifestações de ignorância.

Marcia Tiburi se debruça sobre o Brasil de agora, sobre o momento político de hoje, sobre as implicações das redes sociais, que podem tanto contribuir para o debate democrático quanto para o compartilhamento de preconceitos. Todavia, o mergulho no Brasil de hoje não impede a autora de perscrutar nosso passado, a fim de se buscar um entendimento maior do que é ser brasileiro.

Com essa abordagem, é inevitável que, em alguns dos breves ensaios do livro, Tiburi aborde a questão da chegada de Colombo à América e do genocídio dos índios brasileiros quando da chegada dos portugueses. O livro, embora tanto relate a quebra da alteridade, tem nessa mesma busca da alteridade a sua essência. 

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

A história por trás da(s) foto(s) (98)

Ambas as fotos desta postagem foram tiradas hoje, às 19h41. A de cima é a primeira; segundos depois, tirei a de baixo. O procedimento foi simples: fiquei em frente ao portão aqui de casa. Virando-me para a direita, tirei a foto do Sol se pondo atrás das nuvens; virando-me para a esquerda, tirei a foto de baixo. As duas são instantes quase simultâneos de dois “lugares” do céu. 

Em breve, mais um livro

domingo, 25 de dezembro de 2016

À tona

Quando houver silêncio, 
escutarás o que calas.
Em horas calmas, 
não raro escuras,
irrompe o não dito.
É quando confessas 
para ti mesma
o que de ti mesma
fingiras esconder. 

O último Natal de George Michael

George Michael tinha cinquenta e três anos. Inicialmente, fez sucesso como integrante de uma dupla chamada Wham!, que arrebentou em meados da década de 80; o grande sucesso deles foi a canção “Careless whisper”, que, certa vez, um crítico da Bizz (de cujo nome não me lembro), revista que era dedicada ao mundo do pop/rock, considerou uma das grandes baladas da música pop. George Michael morre no dia de Natal. Numa dessas ironias da vida, há uma canção do Wham! intitulada “Last Christmas”. 

Amor não havido

Amor não havido não deixa de ser uma história.
O que não se concretizou também se conta.
Amor não havido fica sonhando,
prossegue sem se conformar.
Numa ausência nítida e pesada,
insiste em não aceitar a ausência.
Fica na boca o gosto do que poderia ter sido,
o braço ergue a taça em brinde sem graça.
Em amor não havido, o devaneio especula: “E se?”,
o corpo fica sem outra pele para tocar.
Amor não havido rende não se rende a
a uma esperança sem forma e oca. 

Em Patos de Minas

Porte

Tua altura me eleva.
Teu passo de quem aprendeu
a se permitir me atiça.
Teu caminhar altivo
me inspira a compor
minha estrada.
Tendo feito as pazes
com o passado,
és um presente
gostoso e sensual. 

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Ah, essas crianças

Certa vez, o Pedro Bial, cobrindo um evento de rock pela Globo, disse, sobre “Sweet child o’ mine”, do Guns n’ Roses. “A canção de ninar dos roqueiros”. Não conheço os “bastidores” da letra, mas a definição do Bial é exata, mesmo a canção podendo não ser exatamente sobre uma criança (ou para uma criança), a despeito da ternura que expressa.

Lembro-me, por exemplo, de “Go gentle”, do Robbie Williams. É uma das canções mais ternas que conheço. Sempre tive comigo que na letra um eu lírico masculino se dirigia com delicadeza à mulher com quem mantém (ou quer manter) relação de amor. Um homem que quer cuidar da mulher que ama, que a aconselha a ter cuidado com as armadilhas do mundo.

Numa das versões ao vivo da canção, Robbie Williams disse que “Go gentle” é sobre a filha dele. O saber disso não anula a ternura da letra da canção. Só que eu não pensava nela como sendo sobre o amor paternal, mas, sim, sobre o amor (também carnal) sentido por um homem em relação a uma mulher. 

Em flor

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Novamente, Led Zeppelin

Escutar Led Zeppelin é imperioso para o corpo. A pegada deles liga o que temos de visceral, selvagem, libertário, rebelde. A banda é a antítese da caretice, do comedimento, da assepsia palatável. Led Zeppelin faz vibrar o corpo, levando-nos a vislumbres do que temos de básico — o que é nos conduzir à transcendência. 

domingo, 18 de dezembro de 2016

Cheiro

Da poesia quero, agora, o cheiro.
Aroma para que o poema me habite,
fragrância para que eu inale tua essência.
Vida cheirando a amor é mais gostosa.
Vida cheirando o amor é mais inteligente. 

Nome

Já tentei.
Não sei como nomear
tua ausência.
À tua presença, 
dou o nome de amor. 

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Convivência

Quando leio,
eu me leio.
Quando leio,
eu me livro. 

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Além do horizonte

Alguns se embaralham quando têm de virar à esquerda ou à direita, não raro trocando uma pela outra. Nunca foi meu caso. Só que no primário eu fazia confusão entre vertical e horizontal. Foi quando um colega de sala me passou um macete de que nunca me esqueci, ao mesmo tempo em que me concedeu um instante da mais genuína epifania: “Pra você não confundir, é só lembrar que ‘horizontal’ vem de ‘horizonte’”. 

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Diante

Diante do espanto do que és,
do que sou,
do que são.
Diante das formigas,
das galáxias.

Diante da política,
das canções,
do futebol,
do legado de Einstein.

Diante da leitura,
da ressaca,
da mulher bonita,
do tombo,
do ensaio,
da comida,
da entrevista,
da tolice,
da infância,
do divórcio,
de Hamlet,
do sono,
do cosmopolitismo,
da preguiça.

Diante de mim,
a ânsia que sou,
que é a de transformar
em palavras o que
está diante de mim.

O tamanho do Universo

Qualquer um que tenha um conhecimento pueril sobre o que é o Universo (meu caso) sabe que ele é maior do que o que nossa mente é capaz de abarcar. Há sempre uma nova revelação dando conta de que ele é muito, muito maior do que o anteriormente concebido.

A última notícia que li sobre a imensidão dele foi publicada no jornal The Independent. De acordo com a publicação, há tantas estrelas por aí, que era para não ficar escuro quando há aquilo a que chamamos noite. Segundo números atuais, há dois trilhões de galáxias (o número anterior dizia haver de cem a duzentos bilhões).

Se me dissessem haver, digamos, um milhão de estrelas por aí, eu já ficaria espantado. Uma galáxia contém estrelas; o novo número diz haver dois trilhões de galáxias. Com esse tantão de estrelas, de acordo com a matéria do Independent, era para ser claro mesmo depois de o Sol ter se posto; se não é, isso se deve a uma parede de hidrogênio entre nós e a luz das estrelas distantes.

Volto aos dois trilhões de galáxias: não bastasse esse número, que logo, logo será suplantado, o texto do Independent diz que há estrelas tão distantes de nós, que o Universo ainda não é velho o bastante para que a luz delas tenha chegado até aqui. Há uma maravilha nisso que não cabe em meu universo.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Fios

Teu fio levaria até nós.
Meu fio começaria em nós.
Teu fio é cosido com sonhos.
O meu seria tecido com linhas.
Teu fio é imaginado na distância.
O meu seria alinhavado na proximidade.
A beleza de um é poética.
A beleza do outro não houve. 

Apontamento 355

Que as pessoas podem ser sacanas ou perigosas, qualquer um sabe disso. Mas para se perceber a beleza que pode haver nas pessoas é preciso maturidade. 

Se

Se minha mão pudesse
pegar a tua...
Se meus lábios pudessem
beijar os teus...
Se meu tesão pudesse
entrar no teu...

Fosse assim,
minha vida
tocaria a tua.
Assim fosse, 
o amor ficaria tocado. 

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Apontamento 354

Não espero pela ocasião certa: quando ela chegar, posso estar morto.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Temer/Trump

A IstoÉ elegeu Temer o grande brasileiro do ano 2016 (sic). A Time elegeu Trump a pessoa do ano (sic). Do you get sick? 

Revelação

Foste deus o tempo todo,
mas não soubeste.
Agora que morreste,
não há como saberes.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Curva

Se não sabes 
o que a curva traz, 
pega leve. 

Nunca se sabe 
o que a curva traz. 

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Batalha

Publiquei o poema abaixo aqui no blogue em 2012. Na ocasião, fiz um “vídeo” com o texto.
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Contra a lesma, sal.
Contra a preguiça, teimosia.
Contra o gol, defesa.
Contra o hiato, ditongo.
Contra a castidade, chave.
Contra o segredo, fofoca.
Contra o peixe, pescador.
Contra o medo, palavra.
Contra o grito, beijo.
Contra o ódio, Cristo.
Contra a barriga, chope.
Contra o ninho, tucano.
Contra o cruzeiro, naufrágio.
Contra Deus, Saramago.
Contra o sapato, pé.
Contra o blefe, zápete.
Contra o vampiro, alho.
Contra o sexo, rotina.
Contra o vinho, pressa.
Contra a claque, silêncio.
Contra a barba, lâmina.
Contra a comida, destempero.
Contra o sorriso, cárie.
Contra a voz, gelado.
Contra o amanhã, suicídio.
Contra o zíper, tesão.
Contra a pipoca, piruá.
Contra o enigma, Einstein.
Contra a solidão, cachorro.
Contra a telha, goteira.
Contra o pássaro, gaiola.
Contra o sítio, hacker.

Contra a morte...
... nada... 

Em branco

Pondo-se

Silente

Fosse a teu lado,
eu olharia para ti
em teu silêncio,
eu te tocaria
em teu silêncio.

Longe dele,
o meu não é bom.
Mas, ainda que
à distância,
tuas palavras
avivam o
silêncio meu.

Ignorância rebaixada

Um dos problemas do ignorante é supor que o outro é tão ignorante quanto ele. Um dia desses, havia um carro prata em frente ao bar em que eu estava. Ocupando todo o vidro de trás do automóvel, um adesivo. Na parte esquerda dele, um desenho com o dedo médio da mão em riste.

Isso, por si, já seria agressivo, desnecessário. É como o caso que comentei em texto anterior, sobre pessoa num restaurante usando camiseta em que se lia “fuck you”. No caso do adesivo do carro, à direita dessa mão com o dedo em riste, os seguintes dizeres: “Não adianta encostar nem buzinar. Vou passar de lado”.

A princípio, não entendi o sentido da agressão. Foi quando alguém no bar me explicou que os dizeres no adesivo foram usados por se tratar de um carro rebaixado; quando esse tipo de veículo tem de passar sobre um quebra-molas, o motorista manobra para que o carro passe de esguelha, pois, se assim não for, o soalho, rente ao chão, vai raspar no quebra-molas.

De antemão, o sujeito agride, ainda que não tenha sido agredido. Ele exibe o dedo médio em riste e diz que a buzina do outro de nada vai adiantar — mesmo o próximo nada tendo feito. Antecipando uma agressão que não veio, o indivíduo agride. Além do mais, ainda que essa agressão já tenha vindo, isso não é justificativa convincente para se usar o adesivo.

Nada há nada de errado em dirigir veículos rebaixados; cada um faz de seu carro o que bem entender. O que é ofensiva é a manifestação da premissa de quem já vê na outra pessoa um agressor. O sujeito já partiu para o embate, na tentativa de afastar de si o próximo, que, na ótica de quem porta um adesivo desse teor, é o problema, sem se dar conta de que entrave e agressão já partiram é de quem se orgulha em exibir pelas ruas desenho e dizeres tão ignorantes.

A mulher que és
não pode deixar de praticar
a mulher que podes ser.
Assume teu corpo,
ousa teu pensamento,
exerce teus dons.

Veste a mulher que és,
tira tua feminilidade do cabide.
Joga fora certas coisas que te cobrem,
seja passado sem remédio
seja roupa meticulosa.

Não te escondas da vida,
não te escondas de ti.
Abusa de ti.
Há toda uma mulher a teu dispor.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Sintonia Fina — edição 35


Adam Levine — Purple rain
Léo Jaime — Charme do mundo
Noah and the Whale — Blue Skies
Marcos Sabino — Reluz
Eddie Vedder e Nusrat Fateh Ali Khan — The long road
Marisa Monte — Não vá embora
REM — Oh, my heart
Tavito e Paulinho Moska — Rua Ramalhete