domingo, 3 de fevereiro de 2013

CRUZEIRO DERROTA O ATLÉTICO

José Roberto Bugleaux, conhecido como Bugleaux ou Buglê, marcou o primeiro gol no Mineirão no dia cinco de setembro de 1965, numa partida da Seleção Mineira contra o River Plate. Na época, Bugleaux jogava pelo Atlético; hoje, mora em Taguatinga/DF.
 
Quarenta e sete anos depois, numa dessas ironias de que a vida é plena, outro jogador Atleticano faria gol, dessa vez na reinauguração — mas contra. Marcos Rocha tentou rechaçar cruzamento e a bola foi parar dentro na rede. Anselmo Ramon, que também participava do lance, comemorou, mas o gol foi anotado para Marcos Rocha.
 
O Cruzeiro vinha se insinuando. Aos onze minutos, Vítor, goleiro atleticano, defende bola; aos vinte e um, o mesmo Vítor sai da grande área, dá chutão e impede chance do rival. Aos vinte e dois, o gol viria. No todo, o Cruzeiro jogou um pouco melhor no primeiro tempo, mesmo com o empate do Galo tendo vindo aos vinte e sete minutos. Araújo foi o autor, após rápida confusão na área.
 
Como geralmente ocorre nesse tipo de partida, o começo foi truncado, com muitas faltas. Já com a partida deslizando um pouco mais suave, Leonardo Silva, aos dezoito minutos, dá um murro nas costas de Anselmo Ramon; nem árbitro nem bandeirinha parecem ter visto. Do lado atleticano, Bernard, craque que foi destaque no ano passado, teve atuação apagada.
 
Mas ele voltou serelepe no segundo tempo: aos dois minutos, quase marca; a bola atingiu a rede pelo lado de fora. Aos quatro, o mesmo Bernard realiza ótima jogada pela esquerda. Segundos antes, Jô quase marca de cabeça; também quase marcou aos vinte e sete, chutando cruzado após lateral.
 
Pelo Cruzeiro, foi Dagoberto, que entrara aos onze minutos, quem brilhou, marcando aos dezesseis, após cruzamento preciso de Anselmo Ramon. Dois minutos depois, Leandro Guerreiro é justamente expulso depois de falta tola sobre Ronaldinho Gaúcho.
 
Aos vinte e três, Vítor defende mais uma de Anselmo Ramon. Aos vinte e sete, Jô tem a chance de marcar mais uma vez. Como o Cruzeiro tinha um jogador a menos, era natural que o Galo tentasse pelo menos empatar o jogo.
 
Mas, aos trinta e nove, é o goleiro Vítor, melhor jogador da partida, quem realiza mais uma proeza, defendendo com o pé e impedindo mais um gol da Raposa. Aos quarenta e quatro, em contra-ataque, o Cruzeiro acerta a trave.
 
No todo, se não foi um baita jogo, foi uma bela partida. Ontem, durante chuva em Belo Horizonte, ficou nítido que a drenagem do gramado é ruim. Como não choveu enquanto o clássico era disputado, a bola correu sem problemas.
 
Em teoria, o time atleticano, a despeito da derrota, que é circunstancial, está mais forte do que o Cruzeiro para a temporada. Do outro lado, o Cruzeiro se renovou e, também em teoria, está melhor, em relação a si mesmo, do que esteve no ano passado.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

FOTOPOEMA 296

APONTAMENTO 172

Todo idioma tem palavras feias e bonitas. Questão de gosto. Para mim, ainda não surgiu uma palavra mais horrorosa do que “perfunctório”.

CASA DA MÃE JOANA


Nem sei se a rigor trata-se de uma joaninha. Caso não, digam e tento achar uma para ilustrar o “texto”.

UMA OVA!


Para alguns poetas — João Cabral, por exemplo — o ovo é a forma perfeita. De minha parte, essa questão oval é mais prosaica: apenas recentemente é que fiquei sabendo que a galinha bota um ovo por dia. Ainda não consigo deixar de me espantar com isso.

A “produção” desta foto é liviana: primeiro, lavei o ovo (acho que poderia ter ficado mais limpo). Enxuguei-o. Depois, afixei na parede duas folhas de sulfite, como fundo. Debaixo do ovo, duas folhas de sulfite também. Eu queria mesmo tudo branco, sem contraste. Muito importante dizer que o ovo insistia em não parar em pé. Quase tive de afixá-lo no sulfite.

Ovo e folhas ficaram em cima da mesa (encostada na parede) que há aqui na sala. Para ter um pouco mais de luz, usei minha luminária de leitura, posicionada, com a mão esquerda, de modo a produzir a menor quantidade possível de sombra. Com a direita, foquei e tirei a foto. Preferi não usar “flash”.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

BOLA MURCHA

A primeira partida oficial disputada pelo Grêmio em seu estádio, que é novo, é prova de como as coisas são feitas por aqui: o gramado estava ruim e uma proteção de acrílico não resistiu à “avalanche” que os torcedores gremistas fazem. Nessa “avalanche”, que ocorre quando o Grêmio coloca a bola na rede, os torcedores atrás de um dos gols correm para o mais perto que podem do gramado.

Depois do belo gol de Elano contra a equipe da LDU, em jogo válido pela Libertadores, a torcida do time do sul cumpriu seu “ritual” de comemoração, salvo engano inspirado na comemoração de uma torcida argentina. A proteção de acrílico não suportou a pressão feita pelos torcedores e cedeu; algumas pessoas se feriram. Segundo o canal Fox Sports, o Corpo de Bombeiros já avisara da fragilidade da proteção no estádio. E no ano que vem, vai haver Copa por aqui...

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

FOTOPOEMA 293

A HISTÓRIA POR TRÁS DA(S) FOTO(S) (71)



Quando fotografo, uso a exposição manual. Se eu estiver em uma situação que demande rapidez nos ajustes, como, por exemplo, em fotos de aves durante o voo, uso a prioridade abertura. Na lente, uso o foco automático na grande maioria das situações.

Contudo, as duas fotos desta postagem são exceções, pois nelas usei o foco manual da lente, o que muito raramente faço. Isso ocorreu porque ela não estava conseguindo foco devido à... “fineza” dos assuntos principais: o equipamento focalizava o fundo, não o que eu queria.

Diante disso, um tanto inseguro, decidi-me pelo foco manual, apesar da quase absoluta falta de prática. Fiz duas fotos de cada assunto. Observei-as no monitor da câmera; pareceram-me bem focadas. Contudo, só haveria veredito inapelável depois que elas fossem escrutinadas aqui.

LETRA DE MÚSICA (34)

Bobagem, fugir do amor.
Tranquilo, ele nos acha.
Vou achar você de novo.
O que você acha disso?

Caso eu esteja por aqui,
a porta vai estar aberta.
Entre sempre que quiser:
ela fica aberta para você.
Se estiver fechada, bata.

Saudade mais forte hoje.
É, eu tento lidar com ela,
que no coração não cabe.
Sempre gigantesca agora,
sempre enorme bem aqui.

"MEMÓRIA DE MINHAS PUTAS TRISTES"


Um dia desses, perguntaram-me se eu havia lido o “Memória de minhas putas tristes”, do Gabriel García Márquez; a tradução é de Eric Nepomuceno. Eu disse que li quando foi lançado, mas que não havia me entusiasmado com o trabalho. A pessoa que me perguntou sobre minha leitura disse que havia gostado muito.

Fiquei com isso na ideia e decidi reler o livro recentemente. Só digo: não sei onde eu estava com a cabeça quando não vi a beleza que há no escrito. Eu havia gostado pouco. Antes da releitura eu não poria “Memória de minhas putas tristes” no panteão das obras do autor. Agora, mudei de ideia.

A temática do amor na velhice não é novidade no escritor colombiano; mesmo assim, nem enredo nem personagens soam como mais do mesmo. Narrado em primeira pessoa, procedimento que não é regra em García Márquez, “Memória de minhas putas tristes” é a história de um velho que decide se dar de presente, no dia em que completaria noventa anos, uma noite de amor com uma adolescente virgem.

Em tempos de engajamento contra a pedofilia, o anúncio de um enredo assim pode sugerir algo insidioso. Entretanto, não é o que exala das páginas do livro, que é um hino à vida, ao amor. Com seu usual senso de humor, García Márquez vai narrando as mudanças pelas quais passa um velho que se vê, de repente, louco de amor.

No que poderia haver repugnância, há uma história tocante, engraçada, lírica e reveladora das coisas que só o amor, e mais nada, leva-nos a fazer. História bonita, a qual mostra que ele, o amor, embora seja sempre o mesmo, não tem regras.

APONTAMENTO 171

“O que há num nome?”. O que há na Dublin de Joyce? O que há no sertão de Guimarães Rosa? O que há na Ipiranga e na São João? O que há em Yoknapatawpha? O que há em Macondo? O que há em Coromandel? O que há em você? O que há em mim?... Nada demais em nada disso. É a arte que torna encantado qualquer lugar e encantada qualquer pessoa. Sem ela, não há encanto. Nem em você nem em mim nem em nenhum lugar.

domingo, 27 de janeiro de 2013

sábado, 26 de janeiro de 2013

CONTO 57

O namoro terminara há um ano. Ana Clara não estava totalmente refeita: sempre notívaga, desde o malogro do relacionamento havia trocado os sons da noite pelo silêncio do travesseiro. Mas devido à insistência de Amanda, uma amiga, Ana Clara, muito a contragosto, cedeu. Vestiu-se sem grandes pretensões e com desânimo; as duas foram a uma boate. Ana Clara, de súbito, viu-se de volta a seu mundo. Envolveu-se com as luzes, com a dança e com Gabriel. A sedução começou na dança e teria continuado fora da boate. Agarrando Amanda pelo braço, Ana Clara exigiu que fossem embora naquele instante. Alegou que seria melhor. Amanda tentou argumentar. Ana Clara disse então que não cederia aos encantos de Gabriel porque havia um furinho do lado esquerdo na calcinha dela. 

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

BLOGUE LIVIANO EM JORNAL DE UBERLÂNDIA

Pessoas, desde a semana passada, tenho um espaço na página eletrônica do jornal Correio de Uberlândia. Fiquei contente por eles terem topado, pois assim tenho a oportunidade de divulgar o que faço em outra cidade.

O “site” do jornal está sendo reformulado. Caso alguém vá até lá conferir, navegue pelas postagens a partir dos títulos delas, que estão à direita da página. Para conferirem, basta clicar aqui.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

O DESPERTAR DE BRUNO FONTOURA


É incrível como algumas canções conseguem nos capturar de imediato. Bastaram os primeiros acordes de “Despertar”, de Bruno Fontoura, para que me ocorresse: “Putz. Demais!”.

Quando me torno cativo de uma canção, eu a escuto inúmeras e inúmeras vezes — seguidamente. Já nem sei quantas vezes escutei “Despertar” hoje.

Um belo arranjo, uma bela melodia, uma bela letra (abaixo) do músico, cantor e psicólogo Bruno Fontoura. O artista foi o tecladista da banda O Gabba no CD “Alerta”, um discaço.

Quando ainda garoto, o Bruno vinha muito aqui em casa, pois ele era colega do Edgar, meu irmão caçula. Nesse tempo, os dois já estavam às voltas com os teclados. Mal o Bruno chegava e eu pedia a ele para “atacar” de “Electricity”, do OMD.

Ficamos sem contato por um bom tempo, quando novamente passei a conviver com ele, dessa vez como professor dele no antigo Colégio Objetivo, aqui em Patos. Tempos depois, quando a formação original de O Gabba já havia sido desfeita, tive a grata surpresa de conhecer o Bruno cantor.

Ele cria discretamente. A impressão que tenho, é a de que realiza seu trabalho sem pressa, do jeito que lhe agrada, no ritmo que lhe convém, sem ter de dar satisfação a nenhum tipo de pressão, o que é um baita privilégio.

“Despertar” tem uma atmosfera tranquila, pacificadora; é um alento musical. Tem um otimismo bonito, embalado pelo jeito comedido de o Bruno cantar. Quanto à letra, os versos “não há destino escuro aqui / que eu não possa clarear” são de uma beleza sublime e espantosa.
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Despertar - Bruno Fontoura (Bruno Fontoura)

Faça tudo cedo. 
Deixe todo enredo ficar pra trás.
O que se faz mais cedo 
é muito menos peso pra se deixar.
E tudo que lhe causa medo, 
será só mais algum brinquedo
e nunca mais vai causar.

Se o que lhe toca veio, 
sempre há um meio de se livrar.
Apague todo medo, 
se livre do receio de se entregar.
Sempre vai haver caminhos 
e nele trilhará sozinho;
nalgum lugar brilhará.

O sol. Nasceu a luz.
À noite lua clareia.
Não há estrada escura aqui 
que eu não possa caminhar.
O sol quem me conduz;
à noite, lua, fogueira.
Não há destino escuro aqui 
que eu não possa clarear.

VAI UM CAFEZINHO?...


Fazer esta foto não foi fácil. Não pela dificuldade técnica: é que eu estava sozinho. Tive de segurar a câmera, fazer o foco e despejar o café na xícara. 

Como não gosto de fotografar observando a composição no visor maior (o “live view”), mas, sim, “colando” a câmera no rosto, para maior firmeza, isso dificultou um pouco mais, pois eu tinha de olhar pelo visor menor e despejar o café — sem olhar para a garrafa; não olhei para ela porque para fotografar fecho o olho esquerdo.

Era minha intenção fazer com que a garrafa não aparecesse no quadro. Eu a aproximei da xícara, comecei a despejar o café e a afastei. Outro desejo antes mesmo de tirar a foto era desfocar bem o fundo. Para tal, usei f/1.8 (a abertura máxima da lente é f/1.4). 

O procedimento de segurar a câmera e despejar a bebida acabou fazendo com que eu “desperdiçasse” quatro xícaras, aprontando a maior lambança sobre a mesa. Mas, no fim das contas, valeu a pena: o café, que acabara de ser feito momentos antes da sessão de fotos, ficou o “bicho”. Aceita?...

PUBLICAÇÕES

A Piauí de janeiro tem uma tradução, feita por Mario Sergio Conti, daquele famoso trecho do Proust — o episódio da madalena, um bolinho que o narrador toma com chá. A experiência faz com que ele resgate o passado e, por consequência, escreva o texto.

Também na Piauí, um hilariante diário fictício de Dilma Rousseff. André Lara Resende escreve sobre o otimismo. Há ainda uma breve matéria sobre um concurso de cartas de amor que foi realizado em Belo Horizonte.

O jornal Le Monde Diplomatique Brasil deste mês tem um editorial sobre a corrupção no Brasil; um marco. Há texto que pergunta se as chamadas “commodities” [bens em estado bruto, de origem agropecuária ou de extração mineral ou vegetal] são o novo sigilo fiscal dos suíços.

A Alfa, também deste janeiro, tem um perfil de Nelson Piquet. Na edição, uma bela matéria e um belo ensaio fotográfico com a cantora Céu. Indico finalmente o texto sobre Daniel Day-Lewis.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

FOGO


“Vídeo” e texto: Lívio Soares de Medeiros. Trilha: freeplaymusic.com.

CONTO 56

Almeidão levou o maior susto. Logo pela manhã, saindo para o trabalho, a vizinha, sem tergiversar, deu-lhe uma cantada que era quase um ultimato. Diante da cara abobalhada dele, Susana garantiu sigilo, afiançando que ela tinha namorado, e que sabia que ele tinha namorada. Durante todo o dia, a história ficou na cabeça dele como coceirinha que, se não chega a incomodar, também não deixa esquecer que existe. À noite, leu Rilke: “Em minha vizinhança havia uma mulher / que me acenava com seus vestidos ousados”. Contudo, ao marcar com caneta os versos, deu-se conta de que lera incorretamente: em vez de “ousados”, o correto é “usados”. Almeidão pôs o livro na mesa de cabeceira, apagou a luz, deitou-se e repetiu para si, cinco vezes, que não sonharia com a vizinha.

domingo, 13 de janeiro de 2013

ATÉ DEBAIXO D'ÁGUA

O Nivaldo, meu irmão, sempre foi muito inventivo e sempre teve grande habilidade para trabalhos manuais. Recentemente, descolou alguns peixes, e ele mesmo fez o móvel que comporta o aquário. Diz o Nivaldo que vai agora se dedicar, como passatempo, a fabricar móveis... 

Não bastasse esse lado criativo e habilidoso, ele sempre foi meio “MacGyver”: é quem conserta meu computador, instala programas de que preciso etc. Não há muito tempo, consertou meu iPod, que eu já dera como perdido. 

Hoje, deixei na casa dele uma parafernália fotográfica que está estragada... Ele brincou, dizendo que vai tentar fazer pelo menos uma câmera a partir das três que deixei por lá. Também com ele, estão duas lentes com fungos; ele certamente vai se divertir com elas, desmontando-as e limpando-as. 

Eu, que até hoje mal consigo amarrar os cadarços dos sapatos (sic), fico admirando as invencionices e os consertos com os quais o Nivaldo se vira. Desmonta equipamentos, destrincha engrenagens e tem prazer em entender como funcionam os mecanismos das coisas. 

Hoje, mais cedo, na casa dele, tirei algumas fotos dos peixes. Um deles, muito arisco, manteve-se escondido em meio às plantas. Mas ainda quero voltar lá, na tentativa de fotografá-lo...





FESTA DO MILHO

THE ROLLING DROPS

Nada como férias e uma gostosa garoa... Há mais ou menos uma hora, preparando-me para fazer café — a única coisa que aprendi a fazer decentemente na vida —, olhei pela janela da cozinha e vi as gotas da chuva escorrendo pelo arame em que as roupas são penduradas. Veio-me então a ideia para o texto, seguida pela ideia do “vídeo”.

DO CÉU

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

HENRI CARTIER-BRESSON

Ontem, enquanto lia um volume com algumas fotografias de Cartier-Bresson (1908-2004), fiquei sabendo que ele dedicou-se inicialmente à pintura; depois, até 1970, à fotografia; a partir daí, abandonou a fotografia para dedicar-se novamente à pintura. Sua primeira reportagem fotográfica foi publicada em 1932.

Não conheço nada do trabalho dele como pintor, mas a capacidade que ele tinha para revelar a poesia do cotidiano ou de cenas "comuns" é fabulosa. Suas fotos têm composições impecáveis, leveza, senso de humor. Aquela coisa dele de buscar o “instante decisivo” é fenomenal. As fotos de Cartier-Bresson são “pinturas”.

Sempre digo que muito do ato de fotografar está na composição da imagem. Nesse sentido, deliciar-se com as fotos criadas pelo olhar apurado de Cartier-Bresson é ter, de quebra, uma agradabilíssima aula de como compor uma imagem fotográfica. Em suas composições, surge o cotidiano, com suas belezas, graças e instantes — que não se repetem. Cartier-Bresson é mais um a tornar evidente que todo e cada momento tem sua beleza.

APONTAMENTO 169

Em Eduardo Galeano, não sei o que é melhor: se a literatura ou se a voz.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

OS TONS DE GRAY

Li recentemente, da editora Landmark, a edição bilíngue (português e inglês) de “O retrato de Dorian Gray”. A despeito da bela encadernação e da sobrecapa, a publicação saiu com alguns errinhos de digitação. Se por um lado isso não compromete seriamente o trabalho, por outro, é algo que precisa ser corrigido em possíveis futuras edições.

Texto da própria editora diz na sobrecapa: “Oscar Fingall O’Flahertie Wills Wilde publicou inicialmente ‘O retrato de Dorian Gray’ no periódico norte-americano ‘Lippincott’s Monthly Magazine’ [...], 10 anos antes de sua morte. Esta primeira versão é o lançamento que a editora Landmark promove junto aos seus leitores com os treze capítulos originais [...], sem as alterações posteriores da versão inglesa”.

Ora, exultei, não somente por ter o texto original, em inglês, nas mãos, mas principalmente por ter a oportunidade de ler a primeira versão do romance. Mas terminada essa leitura, foi inevitável refazer uma outra, a que contém as alterações posteriores, bem como inevitável foi o cotejamento entre as duas versões.

Vejam só: quando li o livro pela primeira vez, tive a impressão de que nada estava sobrando. O texto dessa primeira leitura é a versão inglesa, com vinte capítulos. Pois bem: a primeira versão do romance, repito, tem treze capítulos...

Ainda assim, manteve-se aquela primeira impressão de que não há coisas supérfluas na versão mais conhecida da obra, com os vinte capítulos. A diferença cabal é que na versão publicada pelo periódico americano os fatos são narrados com mais sutileza, são mais sugeridos do que escritos. Na versão inglesa, personagens são acrescidos, bem como, naturalmente, situações.

Ainda de acordo com o texto da Landmark, quando o texto foi lançado na Inglaterra, os editores da Ward Lock exigiram modificações na obra. Assim, sou levado a crer que o fato de as coisas serem ditas de modo mais óbvio na edição inglesa se deva a uma pressão dos editores, talvez numa tentativa de “facilitar” para os leitores, supostamente garantindo melhores vendas.

Contudo, indico a leitura das versões americana e inglesa — nessa ordem. É curioso acompanhar as modificações feitas por Wilde nos desdobramentos do enredo. Mas, ainda assim, algo cabal não se modificou: a psicologia dos personagens.

Não vou exagerar e dizer que Dorian Gray seja pouco interessante. Contudo, a personalidade mais rica da obra é a Lorde Henry Wotton. É ele quem confere um saboroso senso de humor ao livro, é dele que rimos, é dele que discordamos... Por fim, é ele quem exerce nefasta influência sobre o jovem Dorian Gray. À medida que a ação se desenrola, há falas de Dorian que bem poderiam ser de Henry.

Lorde Henry é sofisticado, rico, tem cultura, senso do belo. Sua voz é bonita, sua conversa é sedutora; com elegância, faz pilhérias, ridiculariza; é o “bon-vivant” que sabe extrair da vida as possibilidades que o dinheiro lhe proporciona. Contudo, é extremamente cínico. Fica-se com a impressão de que os cinismos de seus hilariantes aforismos não sejam necessariamente ditos por quem tem uma vida em paz.

No fim do livro, tanto na versão americana quanto na inglesa, Lorde Henry é o próprio a dizer: “Gostaria de trocar de lugar com você, Dorian”. Henry diz isso num momento em que exaltava a extrema beleza física de Dorian.

Tem-se uma situação inquietante: Henry, com sua fulgurante inteligência, e Dorian, com sua acachapante beleza, são insatisfeitos. O que vou dizer pode soar piegas, mas é sugerido que ambos não têm algo “simples”: a capacidade de amar. Estão voltados demais, de modo egoísta e vaidoso, para si mesmos.

A história de um jovem que se convence da própria beleza e que se diz predisposto a fazer o que for preciso para não envelhecer é um tema instigante. A história de alguém que vê, num quadro, a própria alma sendo conspurcada em nome da frivolidade é por demais sedutora para não ser lida.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

"O IMPOSSÍVEL"


Um título chamativo é um ótimo começo. Contudo, o título “O impossível” [The impossible, 2012], do diretor Juan Antonio Bayona, soa estranho.

Digo isso porque o filme conta uma história... possível... Por mais improvável ou incrível que seja, ela ocorreu — o filme é baseado em fato que aconteceu em 2004, na Indonésia.

À parte isso, a produção conta com Naomi Watts e Ewan McGregor. Também no elenco, o garoto Tom Holland.

As primeiras cenas, a despeito do astral de felicidade vivido pela família (que na vida real é espanhola), já têm um clima sinistro, de suspense, quase de terror. E apesar da história narrada, “O impossível” não deixa de mostrar a impotência humana diante das manifestações da natureza.

Outro ponto que me chamou a atenção é o foco no drama de indivíduos. Hoje em dia, por exemplo, quando a gente vê bombas explodindo na TV, não vemos as dores de quem está lá (“a dor da gente não sai no jornal”), como se guerras fossem assépticas.

Toda tragédia tem seus personagens. Ao escolher se focalizar numa família, “O impossível” nos apresenta, sem assepsia, cinco seres humanos lutando pela vida, mas, ao mesmo tempo, não apela para esguichos de sangue gratuitos. 

O filme não ameniza; contudo, não se vale de recursos hiperbólicos ao mostrar o clima doloroso que o permeia. O diretor conseguiu o equilíbrio, bem como uma bela atuação de Naomi Watts.

domingo, 6 de janeiro de 2013

FOTOPOEMA 289


A rigor, um texto não precisa ser explicado. Ademais, nem aquele que escreve é capaz de precisar todas as influências ou motivos latentes no que ele escreve. Ainda assim, tenho a impressão de que este texto é influência da canção “Disconnected”, da banda Keane. Mas não há certeza nisso. É só um palpite.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

FILME SOBRE RENATO RUSSO SERÁ LANÇADO


Uma cinebiografia de Renato Russo, ainda sem data de estrear, terminou de ser filmada. A película, intitulada “Somos tão jovens”, vai abordar a adolescência e a juventude do roqueiro, na intenção de “explicar” como Renato Manfredini Júnior (nome real do roqueiro) tornar-se-ia Renato Russo. O diretor é Antônio Carlos da Fontoura.

Um projeto com tal intenção não poderia deixar de abordar o primeiro show do Legião Urbana, que foi realizado aqui em Patos de Minas no dia cinco de setembro de 1982. A efeméride está no filme. Contudo, as cenas foram rodadas em Paulínia/SP.

O vídeo desta postagem tem cenas dos bastidores de “Somos tão jovens”. Uma delas mostra o Philippe Seabra, ex-integrante da Plebe Rude, fazendo o papel do prefeito local, que na época era Dácio Pereira da Fonseca. 

Seabra, penso, foi escolhido por também ser da turma do rock de Brasília em fins da década de 70 e começo da de 80. Mas como sou daqui, não deixei de achar um tanto engraçado o ex-integrante da Plebe Rude fazer o prefeito da época aqui em Patos. Além do mais, a Plebe Rude também esteve aqui naquele cinco de setembro. Seabra já falou disso.

Renato Russo será interpretado por Thiago Mendonça. O ator foi o Luciano, aquele que forma a dupla com o Zezé, no filme “Dois filhos de Francisco”. Dado Villa-Lobos será interpretado por Nicolau Villa-Lobos; este é filho daquele. (Penso que para um pai isso dever ser a glória, não?) Para mais informações sobre o filme, clique aqui.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

CONTO DE RÉVEILLON

No clube, contagem regressiva, réveillon. Fogos de artifício riscam e colorem o céu. Depois que terminam, boa parte dos presentes, com seu fogo e seu artifício, procura canto, toca, guardanapo, banheiro ou forro de mesa; outros não se preocupam em despistar o que querem. Os dedos ansiosos de todos vasculham celulares em busca de mensagem que possa ter chegado ou digitam com ânsia e afã aquela declaração louca que não se contém.

sábado, 29 de dezembro de 2012

NO TEMPO DOS FLERTES

A noite é cheia de flertes infrutíferos.
É deliciosa não pelos frutos, 
mas pelos flertes que suscita 
e pelos poetas de guardanapo que desperta. 
Promessa do que não se cumpre — 
e do que muitas vezes não quer se cumprir —, 
o flerte é gostoso em virtude do
olhar que convida para uma história
e da beleza do que se contempla.

2013

Que 2013 seja um ano... ímpar...

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

FIM DO MUNDO

Os deuses não nos escutaram. 
Agora é tarde: temos um outro dia... 
Este reluzente dia que temos 
mais nos assusta que um opaco fim de mundo.
O que tememos, é estarmos aqui,
pois aqui estão nosso medo
e nossas tantas ignorâncias.
Hora de pensar num outro fim,
pois este não acabou conosco...

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

"PANNING"

Nesta imagem, usei, deliberadamente, uma técnica fotográfica conhecida como “panning”: ela faz com que o assunto principal fique em foco, mas que no fundo haja desfoque e sensação de movimento.

A técnica funciona bem com aves, carros, motos... Ela incrementa a sensação de movimento do assunto principal. Para o “panning”, geralmente valendo-se de exposição manual, baixa-se a velocidade. 

Caso seja dia e isso fizer com que a imagem fique muito clara, um reajuste na abertura é necessário. A “intensidade” da sensação de movimento depende da velocidade usada na câmera e da velocidade do assunto.

Conseguida a luminosidade desejada, faz-se o foco e, com o “continuous shooting” ativado (o dispositivo que permite tirar várias fotos com um só clique), vai-se “seguindo” o assunto da foto, como se atirando nele enquanto ele se movimenta...
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Canon EOS 20D
1/50
F/9.0
ISO 100

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

APONTAMENTO 168

Por bem ou por mal, você é exclusivo. A exclusividade já está no que você é. Vaidade buscá-la no que você tem.

domingo, 16 de dezembro de 2012

TECIDOS

Não se veste em busca da moda. 
Ela se veste em busca da beleza.
O modo como se veste é convite.
Arte sem adorno, como se despe.

RENTE AO CHÃO

CORINTHIANS CAMPEÃO MUNDIAL

Sou fã do Tite desde quando, numa decisão de Copa do Brasil, em 2001, ele deu um “nó” no próprio Corinthians. Na época, Tite era técnico do Grêmio.

Hoje, Tite foi vitorioso novamente, depois de o Corinthians derrotar o Chelsea num ótimo jogo. O goleiro Cássio pegou demais; e pode-se dizer que no torneio a equipe de São Paulo foi um time de Guerrero. Parabéns para eles.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

A HISTÓRIA POR TRÁS DA FOTO (70)


Quando chove à noite, tento não me esquecer de sair com a câmera pela manhã, embora no mais das vezes acabe me esquecendo. Mas hoje não foi assim. Eu a levei comigo, bem como levei “flash” e cabo, para que o “flash” fique separado do corpo da câmera.

Onde há água, não importa se parada ou corrente, geralmente há a possibilidade rica para se fazer imagens, pois a água é um assunto muito bonito e versátil para a fotografia. É por isso que gosto de levar a câmera comigo logo pela manhã quando na madrugada houve chuva.

Terminada a aula, pedi a um aluno — Décio — que segurasse o “flash” na posição adequada, enquanto eu ajustava a câmera. Os estudantes já estavam rindo de mim (não sem razão) quando minutos antes eu havia fotografado uma peteca que estava em cima de um telhado. Depois, ficaram rindo das instruções que eu dava para o Décio com relação ao posicionamento do “flash”.

No fim das contas, esta é uma das imagens que foram feitas. Quando os alunos viram no monitor da câmera o fundo escurecido, embora fosse uma manhã de muita luz, parecem ter achado curioso o efeito, conseguido justamente graças ao “flash” e a ajustes na câmera. E ao Décio, muito obrigado pela paciência durante a feitura da foto.
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Exposição manual
F/ 8,0
1/800
ISO 80
Flash: Canon Speedlite 580EX (ajustado para -2)
Câmera: Canon PowerShot SX10 IS

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

PULSAÇÃO

Coração pulsa por si.
Mas se te vejo, pulsa por ti.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

APONTAMENTO 167

Dom Quixote enxerga não o que está diante de si, mas o que está em si. Num certo sentido, quem não é quixotesco?...

APONTAMENTO 166

Ter algum cuidado com o português não é sintoma de chatice nem de pedantismo. Esse cuidado não obscurece as coisas — é justamente o contrário: tal zelo ilumina, delicia, seduz...

Bem sei das variações linguísticas, do “internetês” e da linguagem usada em meios eletrônicos. Contudo, o que lamento é ausência do desejo de querer expressar-se com clareza ou elegância; não há a vontade de aprender.

Quando há, repetidamente, algo como “encômodo” ou como “agente se dá tão bem”, o que existe é desleixo, não lapso. Não raro tomam o caminho mais fácil, em vez de tentarem algum capricho: culpam as escolas.

Qualquer idioma é difícil, cheio de “armadilhas” e de regras. Qualquer. Não é minha intenção execrar o erro que contraria regras gramaticais. Além do mais, todos erramos, seja no português, seja na vida. O que acho ruim é o total desmazelo. Que pena não perceberem que aprender é uma das maiores aventuras a que podemos ter acesso.

O descaso com o português corresponde, no plano físico, à falta de higiene. Assim como esta afasta, mas pode ser resolvida, o desleixo com o português também. Mas não nos esqueçamos da velha história: “Um gambá cheira o outro e acha que é perfume”...

SOLAR

Nem amanheceu direito,
e um facho de luz se insinua pela janela.
É o Sol que começa a fazer a festa, 
que começa a fazer a fresta.

APONTAMENTO 165

Morrer é sair do palco e ir para a coxia?... Ou é deixar a coxia e entrar no palco?...

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

APONTAMENTO 164

Não se iluda: grilhões se realizam quando são partidos.

domingo, 9 de dezembro de 2012

LEVEZA

A bailarina levita. 
É como se não 
houvesse gravidade...

Mas tudo é muito grave...

APONTAMENTO 163

Silêncio mata quando o que existe é o desejo de falar.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

FOTOPOEMA 285

TESTEMUNHA OCULAR

Se a distância os separa, 
olhar agudo e penetrante 
os une em nítido flerte: 
de olho no lance, o lince.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

KEANE

A velha música pop, com sua estética, seus truques e suas artimanhas. Com razão, muita gente despreza a música pop — boa parte dela é de fato abominável. Mas quando não é, como torna-se leve e gostosa.

Hoje à noite, pela Globo FM do Rio de Janeiro, escutei a canção abaixo, da banda inglesa Keane. Pop em cada segundo, britânica em cada nota e cada acorde, agradavelmente pop até o fim.

SEGUNDA-FEIRA



Se a vida não te der uma segunda chance, 
que ela te dê uma segunda-feira.

Faz da tua segunda uma terça.
Desta, uma quarta.
Que esta te traga uma década.

O tempo que não elimina certas coisas 
é o tempo que há de te conceder uma segunda-feira. 
Viver sem amor, mas preencher os dias.
Que a esperança sufocada não te deixe todo sem gosto.

Que a vida não te deixe sem uma segunda-feira.
Acorda e faz dela um segundo ato.

MARÍTIMO

Tu, que és feita para o mar...
Tu, que és feita para amar...
Concede-me um instante contigo.
Depois, volto para amar...
Depois, volto para o mar...

APONTAMENTO 162

O fato de eu gostar da transgressão não me impede de querer a beleza, que é querer a arte. A transgressão não tem de, mas pode ser bela. A arte não tem de, mas pode ser transgressora. Eu acredito na beleza. Eu acredito na transgressão. Eu acredito que possam estar juntas, embora não tenham de.

A arte pode (e deve) tratar (também) do que é repulsivo e digno de ódio. Do que ela não pode abrir mão é de aspirar a ser uma grandiosa obra de arte, não importa do que trate. A arte pode (e deve) retratar (também) o que é feio, degradante e abjeto, mas não pode deixar de ser arte.

A modernidade, pós-modernidade ou seja lá o que for não implica abrir mão de um princípio só porque ele já existe há séculos. Arte requer dedicação e busca pelo belo, não importa quando seja produzida.

Não sei se a arte permite um lampejo do celestial. Ela já faz muito em sutilizar e melhorar o que é humano. Se melhorar e sutilizar o que somos implica criar em nós uma centelha de algo celestial, não vou me queixar disso.

CARRY THAT WEIGHT

Boy, I’m gonna carry that weight
Carry that wait for a long time…

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

MUITO PRAZER

Sinto prazer no teu prazer.
Sinto prazer no meu prazer.

Sentes prazer no meu prazer.
Sentes prazer no teu prazer.

Tenho prazer quanto tens prazer.
Tenho prazer quando tenho prazer.

Tens prazer quando tenho prazer.
Tens prazer quando tens prazer.

O prazer de dar prazer.
O prazer de receber prazer.

O prazer é teu.
O prazer é meu.

O prazer é do outro.
O prazer é de cada um.

O prazer é nosso.
Muito prazer.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

BONECAS

Crianças de um a setenta e cinco anos faziam a festa no tradicional almoço de domingo. As mais velhas falavam e se divertiam com assuntos diversos na varanda. As mais novas se pulverizavam no restante da casa.

Foi quando uma delas voltou para a varanda. Era uma garota de dois anos, com a vivacidade que a idade lhes confere. Tinha consigo uma boneca, a qual era quase do tamanho da menina, que se atrapalhava um pouco ao carregá-la, embora conseguisse realizar a tarefa.

Os mais velhos ficavam perguntando para a garota o nome da boneca, quem era o namorado dela e coisas afins. Quando um deles fez menção de que a tomaria da criança, ela se afastou correndo. Na fuga, a boneca caiu. Foi quando uma das tias disse:

— Lorena, larga essa boneca pra lá. Deixa ela no chão. Ainda mais esse trem feio, preto. Boneca preta. Aff...

A menina não deu bola para o que disse a tia, pegou a boneca no chão e foi mostrá-la para outra de suas tias, que embarcou no clima da criança e brincou com as duas, ora fingindo que ia tomar o brinquedo da menina, ora beijando ambas.

Parecendo já enfastiada dos beijos, Lorena, mantendo a posse da boneca, foi procurar outros ares. Enquanto cruzava a varanda, a tia que sugerira que ela deixasse a diversão entrou em cena novamente. Segurou a mão da criança, interrompendo o trajeto dela, e disse:

— Lorena, deixa a boneca pra lá. Você é tão bonita. Ela é preta, é feia. Joga ela fora.

Lorena:

— Fora?

— É. Jogar fora, pra longe — as palavras foram reforçadas com gestos amplos.

A garota parecia intrigada. Tinha cara de quem não entendia muito bem o que estava acontecendo. Com expressão curiosa, olhava para a tia e para a boneca. Desistindo de qualquer tentativa de compreensão, deixou de conversa com a tia e saiu, levando consigo a boneca.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

HAICAI 28

Peço-te calma.
Pondera: não
vendas tua alma.

domingo, 25 de novembro de 2012

OUVIDO RUIM (3)



Hoje pela manhã, no rádio, escutei “Só a lua”, sucesso da década de 80 com a banda Absyntho. A rigor, um trecho era, parece-me, entendido incorretamente por mim; já de outro trecho eu simplesmente não entendia nada.

O trecho que eu entendia mal diz “tudo que naturalmente um dia aflora”. Eu entendia “tudo que naturalmente te aflora”. (Pesquisa rápida no Google mostrou que há “sites” em que a letra está como eu entendia. Baixei a canção; escutando-a, tive a impressão de que o correto é “naturalmente um dia aflora” — mas meu ouvido é uma lástima.) 

Já o trecho de que eu nada entendia diz “o prazer real não vem só em caçar”. Nessa parte, era como se o vocalista cantasse num idioma desconhecido por mim, pois eu nada entendia.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

CONTO 55

Prestes a fazer xixi, Hermano viu uma formiga na água do vaso. A princípio, não entendeu se ela estava nadando tranquilamente ou se estava se debatendo para não se afogar. Perguntou-se como ela fora parar lá e se as formigas sabiam nadar, enquanto continuava observando a que estava no vaso. Num momento, pareceu mesmo que ela sairia da água, pois já estava na borda. Mas deu meia-volta, debateu-se por mais alguns segundos e morreu. Hermano se surpreendeu, pois foi como se a morte tivesse vindo num átimo: ele esperava movimentos lentos e pausados, languidamente agonizantes — não aquele parar súbito demais. Num último devaneio, perguntou-se o motivo pelo qual a morte dela, criatura como tantas outras, deveria valer menos que a nossa. Depois, fez xixi e deu descarga.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

PERGUNTA

Em que tua imaginação te transforma?...

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

SEDUÇÃO

Sem alarde, o fruto
se faz, fica pronto
e seduz o pássaro.

Discreto e silente,
o néctar amadurece
e seduz a abelha.

Espalham-se em
viagens ao vento
o fruto e o néctar.

DÚVIDA

Ouriço 
ou a quilo.

DICIONÁRIO (38)

desfalecer. O mesmo que ressuscitar. 

APONTAMENTO 161

Quando olhar para as coisas, lembre-se de que o mar não termina ali no horizonte.

sábado, 17 de novembro de 2012

ELEVAÇÕES

DICIONÁRIO (37)

ruga. A pele aprendeu sobre o passado.

DICIONÁRIO (36)

cicatriz. Não é só na lembrança que o passado escreve.

APONTAMENTO 160

Só há duas coisas a se fazer com o ressentimento: guardá-lo ou tranformá-lo em arte.

AUTOR E OBRA

Não contenhas teus poemas.
Podem não ser o que gostarias que fossem,
mas podem ser melhor do que és...

FOGO

Paixão é chama. 
Chama que eu vou. 

GRITO OCO

Os colunistas dos meios de comunicação andam parcos de ideias e bons de gritaria. Não são bobos. Sabem que quanto mais escreverem bravatas ou falarem tolices, terão seus textos reproduzidos; serem achincalhados é o troféu a que aspiram. O público reage fortemente à ausência de ideias.

Cada profissional quer ser mais retumbante do que o outro. O que vale é causar impacto, ser comentado nas redes sociais, gerar polêmicas bobas. Quanto mais “odiado”, melhor. Textos elegantes e mentes refinadas não repercutem. Contratantes e contratados se divertem.

Não sei se o que vários colunistas querem é ser originais ou se querem chamar a atenção. Se tentam ser originais, fracassam, pois gritar está na moda (sempre esteve); se tentam chamar a atenção, conseguem,  pois substituir pensamentos por berros está na moda (sempre esteve). Não se pode negar: são bem-sucedidos.

Não há espaço para a sutileza. Camuflam a falta de ideias sólidas com o grito mal-educado. Existe algazarra, uma espécie de disputa para se aferir quem consegue falar mais alto dizendo as maiores bobagens. Não se busca a expressão clara de uma ideia, mas o grito selvagem que tenta camuflar a ausência delas. Não somente quando há o áudio. Palavras no papel ou na internet também gritam.

Entendo que chefes querem retorno. Querem audiência, querem leitores. Nesse afã, empregados e empregadores parecem satisfeitos se qualquer coluna feita com estudada veemência causa repercussão. Sabem que excelência não traz audiência nem leitores.

Quem não quer a gritaria e ainda acredita em coisas como a sutileza torna-se refém do vozerio de articulistas cheios de empáfia. Em vez da ideia, o grito; em vez do debate, a iconoclastia gratuita. Se não berrarem, não conseguem ser notados.

domingo, 11 de novembro de 2012

MY BLUEBERRY NIGHTS

Há duas cenas de que muito gosto, por causa da sutileza delas. As duas, do filme “Um beijo roubado” (2007), do diretor Wong Kar Wai. Foi o primeiro filme dele em língua inglesa. Um dia desses, assisti a ele novamente, outra vez me emocionando com as duas cenas.

Há um instante em que Jeremy (Jude Law) se ajeita como pode sobre balcão de um café para beijar Elizabeth (Norah Jones), que dormira depois de um porre. A boca dela está suja por causa de uma torta cujo sabor dá título ao filme — “My blueberry nights”. Depois do beijo, a câmera continua próxima à boca de Elizabeth, que dá um levíssimo, delicioso e faceiro sorriso à Monalisa.

A outra cena ocorre no momento em que Elizabeth e Leslie (Natalie Portman) se despedem numa rodovia, cada uma num carro. Apesar da brevidade da convivência, um vínculo bonito se estabelecera entre as duas. A despedida se dá por acenos, enquanto escutamos a voz de Elizabeth fazendo considerações sobre o confiar ou não nas pessoas. A rodovia, a despedida, a voz de Elizabeth, o texto... Tudo isso acaba criando um belo momento.